Entre julho de 2022 e julho de 2026, a banda larga fixa medida pela Anatel melhorou — e não um pouco. Nos 651 pares de município e prestadora que aparecem com amostra válida nos dois momentos, todos os 651 melhoraram. Nenhum piorou.
O ganho mediano foi de 13,21 pontos percentuais no cumprimento de velocidade, e os 38 casos que estavam abaixo do piso de 60% caíram para zero.
Há um porém que precisa vir junto, senão o número engana: a composição da amostra mudou muito no período, e a melhora aparente do agregado é bem maior do que a melhora real. Este artigo mostra as duas contas e explica por que só uma delas prova alguma coisa.
Neste artigo
- A pergunta que a série permite fazer
- A conta bruta, e por que ela exagera
- A conta que prova: os mesmos 651 nos dois momentos
- Quem mais melhorou foi o pior decil
- Ano a ano: de 20,7% para zero
- O buraco de janeiro, que não é melhora
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
A pergunta que a série permite fazer
A base de indicadores do RQUAL tem 53 meses, de março de 2022 a julho de 2026, com resultado por município, por prestadora e por indicador. Ao publicar a leitura do mês mais recente, mostramos que o número que sai do arquivo sem filtro de representatividade não se sustenta — os casos abaixo do piso estavam todos em medições que a própria Agência marca como não representativas.
Com o filtro aplicado, a série passa a permitir outra pergunta, que ninguém fez até agora: a qualidade medida melhorou ao longo desses quatro anos, ou o número só parece melhor?
📌 A pergunta não é retórica. Indicador que melhora sozinho, sem entrada de dado novo, costuma ser mudança de medição, não mudança de rede. Foi assim que testamos.
O regime que produz esses números é o RQUAL, aprovado pela Resolução nº 717, de 23 de dezembro de 2019, cujo art. 16 só revogou os antigos regulamentos de qualidade “quando da entrada em vigor do primeiro documento que estabelecerá os valores de referência” — o que ocorreu em março de 2022, exatamente onde esta série começa. A expansão da fibra óptica até a casa do assinante atravessa todo o período analisado.
O indicador analisado é o IND4-25 — cumprimento da velocidade contratada no percentil 25, ou seja, a velocidade que os 25% piores testes alcançam. O piso é 60% e, diferentemente de outros indicadores, ele não mudou de valor de referência no período, o que permite comparar 2022 com 2026 sem ajuste de régua.
A conta bruta, e por que ela exagera

Olhando todos os municípios com amostra válida em cada mês:
- Julho de 2022 — 1.266 medições — mediana 75,69% — décimo percentil 17,67% — 262 abaixo do piso;
- Julho de 2026 — 1.421 medições — mediana 92,17% — décimo percentil 87,60% — nenhum abaixo do piso.
⚠️ Esse salto do décimo percentil, de 17,67% para 87,60%, é grande demais para ser só melhora de rede — e a razão está na composição. Entre os dois momentos:
- 615 pares saíram da amostra válida. Eles eram os piores: mediana de 68,57%, décimo percentil de 2,08% e 224 abaixo do piso;
- 770 pares entraram. Eles já chegaram bons: mediana de 91,94%, décimo percentil de 85,74%, nenhum abaixo do piso.
⭐ Ou seja: parte da melhora aparente é troca de elenco. Municípios com desempenho ruim deixaram de ter medição representativa, e municípios novos entraram já com desempenho alto. Quem comparar 2022 e 2026 pelo agregado está comparando dois conjuntos diferentes de municípios e chamando isso de evolução.

A conta que prova: os mesmos 651 nos dois momentos

A forma de responder é fixar o conjunto. Isolamos os pares de município e prestadora que têm medição representativa tanto em julho de 2022 quanto em julho de 2026 — são 651 — e comparamos cada um consigo mesmo:
- Mediana: 78,69% → 92,34%;
- Décimo percentil: 65,11% → 90,24%;
- Abaixo do piso de 60%: 38 → 0;
- Variação mediana, caso a caso: +13,21 pontos percentuais.
⭐⭐⭐ E o resultado mais forte: dos 651, melhoraram 651. Nenhum piorou. Não é a média subindo com uns ganhando e outros perdendo — é o conjunto inteiro se movendo na mesma direção.
📌 Isso resolve a dúvida. A melhora não é efeito de composição: quando se olha exatamente os mesmos municípios, atendidos pelas mesmas prestadoras, o ganho persiste e é grande. A troca de elenco exagera o tamanho; ela não inventa o movimento.
⭐ Atualização de 15/09/2026 — fomos atrás dos 615 que saíram, e o resultado reforça a conclusão. Ao publicar, declaramos não saber o que houve com eles. Agora sabemos, e eles se dividem em dois grupos bem diferentes:
- 559 desapareceram da base — não têm sequer linha em julho de 2026. São, quase todos, de quatro prestadoras: OI (330), ALGAR (93), UNIFIQUE (88) e SKY (48);
- 56 continuam sendo medidos, mas deixaram de ter amostra representativa — 53 deles são da VIVO.
⭐⭐⭐ E é o segundo grupo que derruba de vez a hipótese de “limpeza da amostra”. Dos 56, há 43 com resultado nos dois momentos. Todos os 43 melhoraram — a mediana saltou de 34,38% para 93,75%, e os que estavam abaixo do piso de 60% caíram de 34 para zero.
📌 Ou seja: os piores não sumiram para esconder o problema. Entre os que saíram da amostra válida e continuam mensuráveis, a melhora foi maior que a do painel balanceado — que subiu de 78,69% para 92,34%. Quem estava pior avançou mais.
⚠️ O que continua sem resposta é o desaparecimento dos 559. A amostra deles em 2022 não era pequena (mediana de 1.047 medidas, contra 3.000 de quem ficou), então não é o caso de medição frágil que se apagou. Por que a OI deixou de ser medida em 330 municípios é pergunta que esta base não responde — e não vamos preencher com suposição.
Quem mais melhorou foi o pior decil
No painel fixo, a mediana subiu 13,65 pontos e o décimo percentil subiu 25,13 pontos — quase o dobro. O fundo da distribuição andou mais que o meio.
É o oposto do que se vê em outros indicadores do setor. Ao medir a adoção de IPv6 por rede, encontramos um gradiente em que as maiores estão muito à frente e a cauda fica para trás. Aqui, a cauda encostou.
⚠️ Uma explicação plausível, que os dados não confirmam nem negam: o período coincide com a substituição em massa de acesso por par metálico e rádio por fibra. Registramos a coincidência temporal, não a causa — esta base não traz tecnologia de acesso, e cruzar com a base de acessos exigiria um trabalho que não fizemos aqui.

Ano a ano: de 20,7% para zero
Tomando julho de cada ano, sempre com amostra representativa, a proporção de medições abaixo do piso de 60%:
- 2022 — 262 de 1.266 — 20,7%;
- 2023 — 184 de 1.862 — 9,9%;
- 2024 — 33 de 1.759 — 1,9%;
- 2025 — 6 de 1.739 — 0,3%;
- 2026 — 0 de 1.421 — zero.
A queda é contínua, sem repique, e acompanha a subida da mediana: 75,69% · 82,40% · 86,75% · 88,83% · 92,17%.
⚠️ Correção de 15/09/2026 — esta série exagera a queda, e o motivo é importante. Ao investigar o desaparecimento dos 615 pares, descobrimos que seis prestadoras deixaram a medição de banda larga fixa no caminho: ALGAR e PROXXIMA em janeiro de 2026, e a OI em junho de 2026 (além de UNIFIQUE, SKY e GB Telecom, antes disso). Os números de 2022 a 2025 incluem essas empresas; o de 2026, não. Como elas estavam entre as piores, o ponto de partida fica inflado.
Refizemos a série usando apenas as sete prestadoras que continuam na base em 2026 — BRSUPER, CLARO, LIGGA, NIO, TIM, VALENET e VIVO —, que é a comparação honesta:
- 2022 — 81 de 707 — 11,46% (mediana 78,23%), e não os 20,7% da série cheia;
- 2023 — 85 de 1.096 — 7,76%;
- 2024 — 10 de 1.045 — 0,96%;
- 2025 — 3 de 1.241 — 0,24%;
- 2026 — 0 de 1.421 — zero (mediana 92,17%).
⭐ A conclusão do artigo não muda: a queda persiste e é grande — de 11,46% para zero, com a mediana subindo de 78,23% para 92,17%. O que estava errado era o tamanho, não a direção. E o painel balanceado da seção anterior nunca dependeu disso: como exige presença nos dois meses, ele já excluía automaticamente quem saiu.
📌 Fica a regra, que vale para qualquer série deste painel: antes de comparar dois anos, conferir se o conjunto de prestadoras é o mesmo. No painel de qualidade da Anatel, ele não é.
📌 O pico da série não é 2022: o mês com mais descumprimento foi setembro de 2022, com 302 de 1.421 — 21,3%. De lá para cá, o indicador só desceu.
O buraco de janeiro, que não é melhora
Há um padrão na série que engana quem olhar mês a mês: todo janeiro o número de descumprimentos despenca. De dezembro de 2023 para janeiro de 2024, por exemplo, cai de 91 casos para 2.
⚠️ Não é melhora sazonal da rede. É queda de amostra: em janeiro, a mediana de medidas por município cai para cerca de 1.020 a 1.490, contra 2.000 a 3.300 nos demais meses, e o número de municípios com medição representativa cai junto. Sobram na conta os municípios de maior volume — que são justamente os de melhor desempenho.
👉 É o mesmo mecanismo de composição da seção anterior, só que dentro do ano. Quem quiser comparar meses deve comparar o mesmo mês de anos diferentes, ou fixar o conjunto de municípios. Comparar dezembro com janeiro produz uma melhora que não aconteceu.
O que fazer com isso
- Ao comparar dois períodos, fixe o conjunto. Sem isso, você mede a troca de composição da amostra e chama de evolução — o erro custa 70 pontos no décimo percentil neste caso.
- Compare julho com julho, não dezembro com janeiro. A sazonalidade da amostra é forte e sempre no mesmo sentido.
- Escolha indicador cujo piso não mudou se for fazer série longa. O IND4-25 serve; o IND4-5 teve o piso elevado de 60% para 65% em 2025.
- Se você é medido, olhe o seu próprio par município-prestadora ao longo do tempo, e não o agregado nacional. É o seu histórico que conta na composição do selo.
- Se você não é medido por ser de pequeno porte, saiba que a régua do mercado subiu: a mediana das medidas passou de 75,69% para 92,17% em quatro anos.

O que este artigo não diz
- Não afirmamos a causa da melhora. O dado mostra o movimento; não traz tecnologia de acesso, investimento nem mudança de planta. A coincidência com a expansão da fibra é registrada como coincidência.
- O painel balanceado tem 651 pares, contra 1.266 e 1.421 nos dois meses. Ele não representa o país: representa os municípios que tiveram amostra válida nas duas pontas, que tendem a ser os de maior volume.
- A causa do desaparecimento de 559 pares não está estabelecida. Sabemos o destino de todos os 615 (ver a atualização abaixo), mas não por que a OI deixou de ser medida em 330 municípios. Pode ser queda de coleta, mudança de cobertura ou saída de operação — a base não diz, e não afirmamos.
- “Zero abaixo do piso” vale para o IND4-25 com amostra representativa em julho de 2026 — não para os indicadores não amostrais, nem para as medições que a Agência marca como não representativas, nem para os municípios sem medição.
- Isto não descreve o provedor de pequeno porte, dispensado do regulamento e ausente da base. São 13 prestadoras medidas.
- Comparamos dois meses, com a série inteira como pano de fundo. Não modelamos tendência nem testamos significância da diferença entre 2022 e 2026 além da contagem caso a caso.
Onde conferir
Fontes: a base de dados e a documentação oficial que define a representatividade.
- Indicadores de Qualidade (RQUAL) — arquivo aberto com os 53 meses, por município e prestadora: anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados/qualidade/indicadores_rqual.zip
- Detalhamento dos Indicadores — a regra oficial do erro amostral inferior a 7%, que define quais medições entram nesta análise: informacoes.anatel.gov.br/paineis/qualidade/detalhamento-dos-indicadores
- Resolução nº 717, de 23 de dezembro de 2019 — o RQUAL, com o art. 16 que condicionou a revogação dos regulamentos anteriores ao documento de valores de referência: informacoes.anatel.gov.br/legislacao/resolucoes/2019/1371-resolucao-717
- O que o resultado por município provoca em contrato: selo D ou E libera o cliente da multa de fidelidade;
- E quem está fora dessa medição, por ser de pequeno porte: o pequeno porte já tem 59% da banda larga fixa do Brasil.
