O provedor regional não é o pequeno do mercado brasileiro de banda larga fixa — ele é o mercado. Baixamos a base pública de acessos da Anatel e contamos: em junho de 2026, o Brasil tinha 57.880.153 acessos de banda larga fixa declarados. Desses, 34.324.328 são de prestadoras classificadas como pequeno porte — 59,3%. As quatro grandes somadas ficam com 40,7%. E há um detalhe que muda a leitura de tudo: metade das 9.804 prestadoras de pequeno porte tem menos de 500 clientes, enquanto 63 delas concentram quase metade dos acessos desse grupo. Este artigo mostra os números, quem é quem, e o erro de leitura que a própria base induz.
Acessos de banda larga fixa por porte da prestadora — junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
O tamanho do mercado, em junho de 2026
A base traz acesso por CNPJ, município, tecnologia e mês. Somando o mês fechado mais recente:
57.880.153 — total de acessos de banda larga fixa no país
34.324.328 — prestadoras de pequeno porte (59,3%)
23.555.825 — grande porte (40,7%): Claro 10,8 milhões, Vivo 8,4 milhões, Oi 3,4 milhões e TIM 906 mil
10.431 — prestadoras que declararam acesso no mês; apenas 4 grupos são de grande porte
A tecnologia é quase toda uma só: FTTH responde por 44,4 milhões de acessos, 76,7% do total. Em seguida vêm HFC (7,6 milhões) e Ethernet (2,6 milhões). O cabo coaxial e o par de cobre viraram resíduo estatístico — ADSL2 aparece com 108 mil acessos no país inteiro.
Prestadoras classificadas como pequeno porte, com mais acessos que a TIM. Fonte: Anatel, junho de 2026.
“Pequeno porte” é classificação, não tamanho
Aqui está o ponto que mais gera confusão, e que a base deixa explícito quando se olha empresa por empresa: pequeno porte é uma classificação regulatória, não uma descrição de tamanho.
Entre as prestadoras classificadas como pequeno porte em junho de 2026 estão Brisanet (1.579.840 acessos), Brasil Tecpar (1.372.924), Giga Mais Fibra (1.313.370), Vero (1.305.248), Desktop (1.199.770) e Starlink (836.487). Todas maiores que a TIM na banda larga fixa, que tem 906 mil acessos e é grande porte.
As 10 maiores do grupo respondem por 31% de todos os acessos de pequeno porte. Ou seja: o número de 59,3% não descreve um mercado de empresas pequenas — descreve um mercado onde tudo o que não é uma das quatro grandes cai na mesma caixa.
As 9.804 prestadoras de pequeno porte por faixa de acessos. Fonte: Anatel, junho de 2026.
Metade das prestadoras tem menos de 500 clientes
Distribuindo as 9.804 prestadoras de pequeno porte por faixa de acessos, o desenho real aparece:
4.845 empresas (49,4%) — até 500 acessos. Somadas, 882.999 acessos: 2,6% do grupo
3.010 (30,7%) — de 500 a 2.000 acessos
1.512 (15,4%) — de 2.000 a 10.000
374 (3,8%) — de 10.000 a 50.000
63 (0,6%) — mais de 50.000 acessos. Somadas, 16,6 milhões: 48,3% do grupo
A mediana é de 509 acessos por prestadora. E a operação é local: 4.803 empresas — 49% do total — atuam em um único município, e a mediana de municípios por prestadora é 2.
Esse é o retrato de quem carrega o regime de pequeno porte nas costas: empresa de um município, com poucas centenas de clientes, cumprindo o mesmo calendário regulatório de quem tem estrutura de mil pessoas.
Em 97% dos municípios, quem tem mais cliente é o regional
Cruzando acessos com município, o resultado é mais forte que o número nacional: em 5.420 dos 5.571 municípios com acesso declarado, as prestadoras de pequeno porte somam mais acessos que as grandes — 97,3%.
Vale registrar o contrário também, porque é o que impede a leitura ingênua: só 7 municípios no país inteiro não têm nenhum acesso de grande porte. As grandes estão praticamente em todo lugar; o que elas não são, na quase totalidade dos municípios, é maioria.
A concentração das grandes é geográfica e se vê na fatia do pequeno porte por estado: no Distrito Federal ela é de 30,3%, em São Paulo 40,9% e no Rio de Janeiro 41,1% — contra 87,9% no Rio Grande do Norte, 87,2% no Ceará e 85,7% no Piauí.
A armadilha: o último mês sempre parece queda
Quem baixar esta base e somar o mês mais recente vai encontrar o que nós encontramos: julho de 2026 aparece com 56,8 milhões de acessos, mais de um milhão a menos que junho. Parece o primeiro recuo do mercado.
Não é. Contando quantos CNPJs distintos declararam em cada mês:
junho de 2026 — 10.431 prestadoras declararam
julho de 2026 — 9.776
São 655 prestadoras a menos entregando, não um milhão de clientes a menos existindo. O mês mais recente de uma base declaratória está sempre incompleto, porque a coleta ainda está aberta. Por isso todos os números deste artigo são de junho, o último mês com declaração estabilizada.
É o mesmo cuidado que já nos obrigou a refazer uma conta ao medir o acervo de normas, quando contar linha em vez de registro inflava o número. Base pública grande quase sempre tem uma armadilha de contagem, e ela costuma estar na borda: na última linha, no último mês, no campo em branco.
Como consultar a sua própria empresa na base
O arquivo é público e a sua empresa está nele, com CNPJ. Vale a consulta por três motivos concretos:
1. Conferir o que você declarou. A base é montada com o que a própria prestadora entregou. Divergência entre o que está ali e o seu sistema é sinal de erro na declaração — e é melhor achar antes que a fiscalização ache.
2. Ver o seu município por dentro. A base mostra, por município, quantos acessos cada concorrente tem, em qual tecnologia e em qual faixa de velocidade. É pesquisa de mercado pronta, de graça.
3. Sustentar pedido e contribuição com número. Quando o assunto é edital, programa público ou consulta da agência, argumento com dado oficial pesa diferente de argumento com impressão.
Acesso não é cliente. A base conta contratos de acesso, e uma mesma pessoa pode ter mais de um. Também separa pessoa física de jurídica na mesma linha de produto.
Não auditamos a declaração. Os números são o que as prestadoras declararam à agência. Subdeclaração e erro de preenchimento entram na conta do jeito que foram enviados.
Porte é o que consta na base. Usamos a classificação de porte tal como declarada no arquivo, sem reclassificar ninguém — inclusive nos casos, mostrados acima, em que ela contraria a intuição.
Junho não é o mês corrente. Escolhemos o último mês com declaração estabilizada. Os dados de julho existem na base, mas estavam incompletos na data da consulta.
Fonte: Anatel — dados abertos, pacote Acessos Banda Larga Fixa, planilha Acessos_Banda_Larga_Fixa_2026_Colunas.csv (895.319 registros por CNPJ, município, tecnologia e mês), arquivo atualizado em 1º de setembro de 2026. Totais, distribuições e contagens de município apurados por soma direta sobre a coluna de junho de 2026. Consulta realizada em 2 de setembro de 2026.