A base de qualidade da Anatel diz que, em julho de 2026, houve 131 casos de banda larga fixa abaixo do piso de velocidade — 5,8% das medições. O número está no arquivo oficial e qualquer um pode extraí-lo.
Ele não existe. Os 131 estão inteiramente dentro das medições que a própria Anatel marca como não representativas: a mediana delas é de 27 medidas por município, contra 3.354 das válidas. Filtrando pelo critério oficial, o número de municípios abaixo do piso de velocidade em julho é zero.
Este artigo mostra a régua que a Agência publica para separar uma coisa da outra, o que sobra quando ela é aplicada — cinco casos, todos da mesma prestadora e todos no mesmo estado — e por que isso importa para quem tem contrato com cláusula de fidelidade.
Neste artigo
- A base, e o que ela mede
- Os 131 que somem quando se olha a amostra
- A régua é oficial e está publicada: erro abaixo de 7%
- O que sobra: cinco casos, uma prestadora, um estado
- Dois indicadores que não são amostrais — e não devem ser filtrados
- Por que isso não é discussão de estatístico
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
A base, e o que ela mede
Desde março de 2022, a qualidade dos serviços é medida pelo RQUAL, e os resultados saem em dados abertos: 17.463.962 linhas, de março de 2022 a julho de 2026. Só de banda larga fixa são 5.031.330 linhas, cobrindo 5.569 municípios e 13 prestadoras.
Cada linha traz o resultado de um indicador, para uma prestadora, em um município, em um mês — e, além do resultado, três campos que quase ninguém usa: Número de Medidas, Erro Amostral e uma coluna chamada Estatística, com “SIM” ou “NÃO”.
📌 São esses três campos que decidem se o resultado quer dizer alguma coisa. Quem baixa o arquivo, filtra por indicador e compara com o valor de referência — o caminho natural — chega a um retrato do setor que a própria Agência não sustenta.
Vale lembrar quem está no arquivo: as 13 prestadoras de banda larga fixa medidas vão da OI, presente em 5.396 municípios, à GB Telecom, em 19. O provedor de pequeno porte é dispensado do regulamento — assunto que já tratamos ao mostrar que onze provedores regionais entraram na medição por vontade própria.

Os 131 que somem quando se olha a amostra
O indicador IND4-25 mede o cumprimento da velocidade contratada no percentil 25 — a velocidade que os 25% piores testes alcançam. O valor de referência inferior é 60%. Abaixo disso, o resultado conta contra a prestadora na composição do selo.
Em julho de 2026, a leitura direta do arquivo dá:
- 131 combinações de município e prestadora abaixo de 60%, em 2.275 medições — 5,8%.
Separando pela coluna Estatística, o mesmo dado diz outra coisa:
- Estatística = SIM: 0 de 1.421 abaixo do piso — nenhum;
- Estatística = NÃO: 131 de 854 — 15,3%.
⭐⭐⭐ Os 131 casos estão todos, sem exceção, do lado não representativo. E a diferença de amostra entre os dois grupos não é sutil:
- Medições marcadas SIM: mediana de 3.354 medidas por município, mínimo de 306; erro amostral mediano de 2,11%, máximo de 7%;
- Medições marcadas NÃO: mediana de 27 medidas, mínimo de 3; erro amostral mediano de 23,56%, chegando a 70,7%.
⚠️ Um município avaliado com três medidas produz um percentual. Ele aparece na planilha ao lado de outro apurado com 3.354, com a mesma cara e a mesma casa decimal. A diferença entre os dois não está no resultado: está nas colunas que ninguém abre.
O mesmo vale para os outros indicadores amostrais. Com amostra válida, em julho de 2026: IND4-5 (velocidade no percentil 5): 0 de 1.421 · IND5 (latência): 0 de 1.420 · IND6 (variação de latência): 0 de 1.420.
A régua é oficial e está publicada: erro abaixo de 7%
Isto não é critério nosso. A Anatel publica a regra na página de detalhamento dos indicadores, e vale a citação literal:
📌 “Os indicadores IND4, IND4-5, IND4-25, IND5, IND6, IND7 são calculados a partir de amostras de testes realizados para se avaliar a qualidade da banda larga, assim, para que os indicadores tenham representatividade estatística, ou seja, os resultados calculados sejam representativos de todo o município avaliado, é necessário que se obtenha uma quantidade mínima de eventos para o cálculo do indicador. Para esses indicadores, além de se observar o resultado do cálculo, é importante avaliar o erro amostral indicado, pois para que o indicador possa ser interpretado como representativo de todo o município, o erro deve ser inferior a 7%.”
⭐ E a coluna “Estatística” é exatamente essa regra, já aplicada. Conferimos linha a linha nos 5 milhões de registros de banda larga fixa: toda linha marcada “SIM” tem erro amostral entre 0,07% e 7%; toda linha marcada “NÃO” tem erro de 7% a 70,7%. Não há um único caso cruzando a fronteira.
👉 Ou seja: o filtro está pronto dentro do arquivo. Não é preciso calcular nada — basta usar a coluna. O trabalho de quem publica número dessa base é lembrar de usá-la.
É o mesmo raciocínio que já examinamos do outro lado do balcão, quando a Agência usa amostra para concluir sobre o todo: uma amostra pode virar conclusão sobre todo o seu provedor, e o que sustenta a conclusão é o método, não o número isolado.

O que sobra: cinco casos, uma prestadora, um estado
Aplicado o filtro oficial, em julho de 2026 um único indicador registra descumprimento do piso em banda larga fixa: o IND7 — perda de pacotes da conexão de dados, cujo valor de referência inferior é 65%.
São 5 casos em 1.421 medições válidas — 0,4%. E eles têm um padrão:
- Anápolis (GO) — VIVO — 8,14% — 2.901 medidas, erro de 2,28%;
- Morrinhos (GO) — VIVO — 17,26% — 423 medidas, erro de 5,95%;
- Caldas Novas (GO) — VIVO — 21,26% — 1.209 medidas, erro de 3,54%;
- Itumbiara (GO) — VIVO — 21,52% — 330 medidas, erro de 6,74%;
- Catalão (GO) — VIVO — 27,82% — 2.994 medidas, erro de 2,24%.
⭐⭐ Cinco municípios, uma prestadora, um estado — e todos com amostra que passa no critério da Anatel. Anápolis, com 2.901 medidas e erro de 2,28%, registra 8,14% contra um piso de 65%: não é margem de erro, é distância.
📌 É esse o valor de filtrar em vez de descartar. Quem publica os 131 sem olhar a amostra erra para mais e perde credibilidade; quem conclui que “não há nada” também erra. O filtro não apaga o problema — ele mostra onde o problema realmente está.
Dois indicadores que não são amostrais — e não devem ser filtrados
⚠️ Aqui mora o erro simétrico, e ele é fácil de cometer. Se a pessoa aprender a filtrar por Estatística = SIM e aplicar isso ao arquivo inteiro, dois indicadores desaparecem — porque nenhuma linha deles é marcada “SIM”.
- IND8 — disponibilidade: 408.081 linhas, todas com o campo Erro Amostral vazio;
- IND9 — cumprimento de prazo: 436.179 linhas, idem.
⭐ Eles não são amostrais. A lista oficial de indicadores calculados por amostra — citada acima — traz IND4, IND4-5, IND4-25, IND5, IND6 e IND7. IND8 e IND9 não estão nela, e o arquivo confirma: o campo de erro amostral é vazio em 100% das suas linhas. Para esses dois, “Estatística: NÃO” não é um demérito da medição — é a indicação de que o teste de representatividade não se aplica.
Os resultados deles em julho de 2026: IND8 — 31 de 3.019 abaixo do piso de 98% (1,0%); IND9 — 2 de 1.580 abaixo do piso de 40% (0,1%).
📌 E os pisos mudam no tempo, o que exige atenção em qualquer série histórica: o valor de referência inferior do IND4-5 subiu de 60% para 65% em 2025, e o valor de referência superior do IND9 caiu de 90% para 85% no mesmo ano. Comparar 2024 com 2026 sem observar isso mistura duas réguas.
Por que isso não é discussão de estatístico
O resultado por município alimenta o selo de qualidade, e o selo tem efeito contratual direto. Como já detalhamos, o rebaixamento para selo D ou E em um município libera o cliente da multa de fidelidade — o Regulamento Geral de Direitos do Consumidor trata isso como descumprimento de obrigação contratual pela prestadora.
⚠️ Então a diferença entre “131 municípios abaixo do piso” e “nenhum” não é acadêmica. De um lado, um número que circula e pressiona; do outro, o dado que a Agência de fato considera representativo. Quem for discutir qualidade — em contrato, em defesa, em negociação ou em reportagem — precisa saber qual dos dois está usando.
Vale notar o alcance real da medição: em julho de 2026, apenas 673 municípios tiveram ao menos uma medição amostral considerada representativa, de 5.569 municípios presentes na série de banda larga fixa. A maior parte do país, na maior parte dos meses, não tem medição com representatividade estatística — e ausência de medição válida não é o mesmo que qualidade comprovada.
O que fazer com isso
- Use a coluna
Estatísticaantes de qualquer conta. Ela já traz a regra dos 7% aplicada. É uma linha de filtro, não um estudo. - Não aplique o filtro ao IND8 e ao IND9. Eles não são amostrais; filtrar apaga dois indicadores inteiros e dá a impressão de que a Anatel não os publica.
- Ao citar um resultado do seu município, cite também o número de medidas. Um percentual apurado com 3 testes não sustenta conversa com cliente nem com fiscal.
- Se for comparar anos, confira o valor de referência de cada ano. Ele mudou em 2025 em pelo menos dois indicadores.
- Se você é medido, acompanhe o seu município mês a mês. O dado é público e por prestadora — e o efeito de cair de faixa alcança o contrato dos seus clientes.
- Se você é dispensado por ser de pequeno porte, saiba que a régua existe e é pública. Ela é o parâmetro com que o seu serviço será comparado, medido ou não.
O que este artigo não diz
- Não afirmamos que as medições marcadas “NÃO” estejam erradas. Elas são publicadas pela Anatel e podem indicar um problema real; o que a própria Agência diz é que não são representativas do município. Não representativo não é sinônimo de falso.
- Um detalhe da fronteira: o texto oficial diz que o erro “deve ser inferior a 7%”, e o arquivo marca como representativas também as linhas com erro exatamente igual a 7,0% (cerca de 150 linhas por indicador, em toda a série). É diferença pequena, mas é diferença entre o texto e a implementação.
- Não pedimos posição das prestadoras citadas. Os cinco casos de IND7 são reprodução do arquivo oficial de julho de 2026, com o número de medidas e o erro amostral de cada um, para que qualquer leitor confira.
- Um mês não é tendência. Analisamos julho de 2026 por ser o mais recente da série. Não afirmamos que o padrão de julho se repita nos meses anteriores.
- Não calculamos o selo. O selo resulta da composição dos indicadores segundo o Documento de Valores de Referência; aqui comparamos cada indicador com o seu piso, que é coisa diferente.
- Não medimos telefonia móvel nem telefonia fixa, que estão no mesmo arquivo e têm outros indicadores e outros pisos.
- Prestadora de pequeno porte não aparece porque é dispensada — logo, este artigo não descreve a qualidade do provedor regional, e sim a das 13 prestadoras medidas.
Onde conferir
Fontes: a base de dados e a documentação oficial que define como lê-la.
- Indicadores de Qualidade (RQUAL) — arquivo aberto com todos os resultados por município, prestadora e mês, de onde saem todos os números deste artigo: anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados/qualidade/indicadores_rqual.zip
- Detalhamento dos Indicadores — a página oficial que estabelece a regra do erro amostral inferior a 7% e lista quais indicadores são calculados por amostra: informacoes.anatel.gov.br/paineis/qualidade/detalhamento-dos-indicadores
- Resolução nº 717, de 23 de dezembro de 2019 — o RQUAL, que instituiu o regime de medição em vigor: informacoes.anatel.gov.br/legislacao/resolucoes/2019/1371-resolucao-717
- O efeito contratual do selo, com o dispositivo do RGC e o documento que define as faixas: selo D ou E libera o cliente da multa de fidelidade.
