O Brasil ganhou em março o seu primeiro índice nacional dedicado exclusivamente à infraestrutura: o Infra-BR, do Confea, feito em parceria com o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, sobre o modelo do IPS Brasil. São 67 indicadores, 20 componentes, 6 dimensões e uma nota de 0 a 100 para cada uma das 27 unidades da federação.
Uma dessas dimensões se chama Energia e Conectividade. E dentro dela existe um indicador com o nome de “Qualidade da conexão banda larga”.
⭐⭐ Fomos ler o que ele mede. A descrição oficial, no Anexo 1 do Relatório Metodológico, é esta: “densidade dos acessos em serviço associados à prestação do Serviço de Comunicação Multimídia — SCM (banda larga fixa), representada pelo número de acessos em serviço por grupo de 100 domicílios” — o SCM é a outorga da Anatel sob a qual a banda larga fixa é prestada. É contagem de acessos por domicílio. Não há velocidade, latência, disponibilidade nem reclamação na conta.
Neste artigo
- O que é o Infra-BR, em números
- Telecom no índice: três indicadores, três anos-base
- O indicador de “qualidade” mede penetração
- Por que o atalho existe — e por que ele não é besteira
- Quem alimenta essa nota é o provedor, todo mês
- A nota da dimensão, estado por estado
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
O que é o Infra-BR, em números
O Índice Confea de Infraestrutura do Brasil avalia as 27 unidades da federação em seis dimensões: Energia e Conectividade, Mobilidade, Água, Saneamento Básico, Meio Ambiente e Resiliência, e Bem-estar Social e Cidadania. Os dados vêm de repositórios públicos e são atualizados anualmente; o Confea anunciou que a próxima edição terá versão municipal.
No resultado geral de 2026, o Distrito Federal lidera com 74,67 pontos e o Acre fecha a lista com 28,46. A média do país é 56,92 — e o relatório executivo faz uma observação que vale registrar: se o Brasil entrasse no próprio ranking, ocuparia a 9ª posição entre 27.
📌 É um índice de engenharia, não de telecomunicações. Estrada, energia, água, esgoto e drenagem ocupam a maior parte dos 67 indicadores. Telecom entra com três. Isso não é crítica — é a régua que o leitor precisa ter antes de usar o número.

Telecom no índice: três indicadores, três anos-base
O componente de Telecomunicações vive dentro da dimensão Energia e Conectividade, ao lado de três componentes de energia (geração, transmissão e distribuição). Somando os indicadores da dimensão: 3 são de telecom e 8 são de energia.
Os três de telecom, com a fonte e o ano que o próprio relatório declara:
- Qualidade da conexão banda larga — ano-base 2026, fonte Anatel, unidade acessos de banda larga fixa por 100 domicílios;
- Capacidade e cobertura de Telecom — ano-base 2025, fonte Anatel, % de domicílios com funcionamento de rede móvel celular para telefonia ou internet;
- Cobertura de sinal de celular (4G e 5G) — ano-base 2024, fonte Anatel, % de moradores, por estimativa a partir de tecnologias, frequências, localização das estações, altura e direção das antenas, potência dos transmissores, edificações e relevo.
⚠️ Três indicadores, três anos diferentes — 2026, 2025 e 2024. O índice é publicado como retrato de 2026, mas a parte de cobertura celular é de dois anos antes. Quem for citar o número precisa citar junto o ano-base do indicador, que está no anexo, não no painel.
⭐ E o terceiro deles é modelo, não medição. “Estimativa da cobertura móvel” a partir de antena, potência e relevo é cálculo de propagação — é a cobertura que deveria existir segundo a engenharia da rede declarada. É a mesma distinção que aparece sempre que se cruzam estações licenciadas e acessos de verdade: estação licenciada não é sinal no celular do assinante.
O indicador de “qualidade” mede penetração
Este é o ponto que muda a leitura do índice para quem é do setor. O indicador se chama “Qualidade da conexão banda larga” e o que ele calcula é densidade: acessos do SCM por 100 domicílios.
⭐⭐⭐ Traduzindo para a consequência: um estado onde todo mundo tem uma conexão lenta e instável, mas tem, pontua igual a um estado onde todo mundo tem fibra de 700 Mbps — desde que a contagem por domicílio seja a mesma. O que o indicador captura é penetração; o nome promete qualidade.
📌 Não é erro de conta: é escolha de variável. A conta está certa e a fonte é a base oficial. O que não se sustenta é o rótulo — e rótulo importa, porque é por ele que gestor público, parlamentar e jornalista vão citar o número.
Vale também dizer o que o índice não usa: a Anatel tem um regime de qualidade com medição de velocidade e disponibilidade, o RQUAL, cujos indicadores nós já analisamos município a município — foi assim que mostramos que nos 651 municípios medidos em 2022 e em 2026 todos melhoraram. Esses números existem, são públicos e ficaram de fora.
Por que o atalho existe — e por que ele não é besteira
⚠️ Seria fácil parar no parágrafo anterior, e seria uma análise pela metade. Há um motivo técnico forte para não usar o RQUAL num índice por estado.
A medição de qualidade da Anatel dispensa a prestadora de pequeno porte. Quem é medido são as prestadoras de grande porte, nos municípios em que elas operam. Ou seja: um índice de qualidade construído sobre o RQUAL simplesmente não enxergaria o provedor regional — e o provedor regional é quem detém 59% da banda larga fixa do Brasil.
⭐⭐ O resultado é um paradoxo honesto: a variável “errada” (densidade de acessos) é a única que enxerga o país inteiro, porque a base de acessos inclui todo mundo. A variável “certa” (qualidade medida) cobriria melhor o Sudeste urbano e deixaria fora justamente as regiões cujo atraso o índice quer denunciar.
📌 A crítica que sobra, então, é de nome, não de método: o indicador deveria se chamar densidade de acessos de banda larga fixa. Assim medido está; assim rotulado, engana quem lê rápido.
Quem alimenta essa nota é o provedor, todo mês
Há uma consequência prática que fecha o raciocínio e que quase ninguém faz: a fonte do indicador é a base de acessos do SCM — e essa base é formada pela declaração mensal de cada prestadora.
⭐⭐ O número que vira a nota de “qualidade de banda larga” do seu estado é, na prática, a soma dos acessos que os provedores daquele estado declararam. Inclusive o seu. A Anatel, aliás, confere isso com rigor: já mostramos o procedimento em que ela pede o código-fonte do script que gera o seu arquivo e manda rodar na frente do fiscal.
📌 Isso dá ao dado uma utilidade que o provedor pode usar: a declaração que ele entrega por obrigação regulatória reaparece, meses depois, como argumento de política pública sobre o estado dele — em material assinado pelo conselho profissional da engenharia — o mesmo sistema Confea/Crea com o qual ele já se relaciona pelo registro da empresa. É mais um item da lista que vale conhecer inteira: o guia das obrigações das prestadoras de pequeno porte.

A nota da dimensão, estado por estado
A média nacional da dimensão Energia e Conectividade é 61,82. São Paulo lidera com 78,31 e o Amazonas fecha com 17,45 — uma distância de mais de quatro vezes entre a primeira e a última colocada.
⚠️ Leia esse ranking com a ressalva que o próprio anexo permite montar: a nota é da dimensão inteira, e nela energia entra com 8 indicadores contra 3 de telecom. Um estado pode estar bem colocado por causa de linha de transmissão e capacidade de geração, não por causa de rede. O relatório não publica a nota isolada do componente de telecomunicações.
📌 O que o ranking mostra com clareza é a geografia da desigualdade, e ela é a de sempre: Sudeste e Sul no topo, Norte na base — com Amazonas, Roraima, Acre e Amapá nas quatro últimas posições. São exatamente as unidades em que a distância física e a ausência de rede de transporte encarecem tudo.
O que fazer com isso
- Use o índice, mas cite o que ele mede. “O estado tem nota X em Energia e Conectividade no Infra-BR do Confea” é verificável. “O estado tem banda larga de qualidade Y” não é o que o número diz.
- Se for citar o indicador de banda larga, diga que é densidade por 100 domicílios. Está escrito assim no Anexo 1 do Relatório Metodológico.
- Confira o ano-base antes de comparar. Os três indicadores de telecom são de 2026, 2025 e 2024.
- Para conversa com poder público, o índice é uma porta. Ele foi desenhado para gestor e parlamentar, e o provedor é quem tem o dado de campo que o índice não tem — falta de rede de transporte, custo de poste, energia instável.
- Acompanhe a versão municipal anunciada. É nela que o recorte passa a bater com a área de atuação real de um provedor regional.
- Continue declarando certo. A base de acessos é a fonte do indicador; declaração errada vira nota errada do seu estado, além do problema regulatório.
O que este artigo não diz
- Não avaliamos o índice como um todo. Lemos a dimensão Energia e Conectividade e o anexo de variáveis. As outras cinco dimensões não foram auditadas aqui.
- Não temos a nota isolada do componente de telecomunicações por estado — o relatório executivo publica a nota da dimensão, que mistura energia e telecom.
- Não sabemos os pesos. A descrição diz que o índice normaliza e agrega indicadores, mas não conferimos o peso de cada um dentro do componente e da dimensão.
- Não afirmamos que o RQUAL deveria estar no índice. Mostramos que ele existe, que mede outra coisa e que deixaria o pequeno porte de fora. A decisão metodológica é dos autores.
- A página de metodologia do site e o Relatório Metodológico descrevem a estrutura com nomes um pouco diferentes (o site agrupa sob “Capacidade e cobertura de telecom”; o relatório traz o componente “Telecomunicações” com três indicadores). Usamos o relatório, que é o documento técnico.
- Não medimos nada por conta própria neste texto. Todos os números aqui são do Infra-BR; o que acrescentamos é a leitura do que cada indicador contém.
Onde conferir
Fontes: os documentos técnicos do índice, a apresentação oficial e a base que ele usa.
- Infra-BR — Relatório Metodológico 2026, Anexo 1 “Fonte e detalhamento de variáveis”, de onde saem a descrição, a unidade e o ano-base dos três indicadores de telecom: infrabr.org.br/metodologia
- Infra-BR — Relatório Executivo 2026, Quadro 2 (resultado geral) e Quadro 3 (dimensão Energia e Conectividade por UF): no mesmo endereço, aba de relatórios.
- Confea — “Infra-BR: da construção aos atributos do 1º Índice de Infraestrutura”, com a origem da parceria e a data de lançamento: confea.org.br
- Vídeo oficial do Confea sobre o Infra-BR, onde é anunciada a versão municipal: youtube.com/watch?v=4te5dbIPQtE
- Acessos de Banda Larga Fixa (Anatel) — a base que alimenta o indicador de “qualidade”: anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados/acessos
