Vender telefone e TV junto com a internet é uma das recomendações mais repetidas para provedor regional: aumenta o ticket, prende o cliente, reduz cancelamento. A Anatel publica quem vende o quê, por CNPJ e por mês — então dá para parar de discutir e contar. Cruzamos as três bases de acessos (banda larga fixa, telefonia fixa e TV por assinatura) em junho de 2026 e o resultado é mais duro do que o discurso: dos 10.423 provedores de pequeno porte com banda larga, 10.065 vendem só internet — 96,6%. Apenas 264 também vendem voz, 140 também vendem TV e 46 vendem os três serviços. Este artigo mostra os números do cruzamento, o que aconteceu com cada serviço nos últimos cinco anos e o que a mediana revela sobre quem diversificou.
As três bases têm CNPJ. Isso permite perguntar, para cada provedor de banda larga, se ele também aparece declarando telefonia fixa ou TV por assinatura no mesmo mês. Tomando as 10.423 prestadoras de pequeno porte com acesso de banda larga declarado em junho de 2026:
10.065 (96,6%) — vendem só internet
264 (2,5%) — vendem também telefonia fixa
140 (1,3%) — vendem também TV por assinatura
46 (0,4%) — vendem os três serviços
Somando sem contar ninguém duas vezes, 358 provedores diversificaram — 3,4% do total. Esses 3,4% não são irrelevantes no volume: eles concentram 37,6% de todos os acessos de banda larga do pequeno porte. É a primeira pista de que diversificação e tamanho andam juntos, e mais adiante os números mostram em que ordem.
Prestadoras de pequeno porte com telefonia fixa e com TV por assinatura, em junho de 2021 e de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
Voz: o serviço que cresceu no provedor regional
A base de telefonia fixa separa concessionárias (a telefonia herdada da privatização) de autorizadas — que é onde está o provedor. Olhando só as autorizadas de pequeno porte, sempre em junho:
2021: 142 prestadoras, somando 3.014.802 acessos de voz
2026: 341 prestadoras, somando 4.367.744 acessos
São 199 provedores a mais — o número de prestadoras de pequeno porte com telefonia fixa mais que dobrou em cinco anos — e 44,9% mais linhas. Entraram 259 empresas no período e saíram 60.
O movimento contrário acontece do outro lado do mercado. Entre junho de 2025 e junho de 2026, as grandes perderam linha fixa em bloco: Vivo caiu de 5,4 para 4,7 milhões, Claro de 6,5 para 5,8 milhões e a Oi encolheu 1,5 milhão de acessos somando seus dois CNPJs. No mesmo intervalo, o pequeno porte subiu de 4,1 para 4,4 milhões. A telefonia fixa não está desaparecendo do país na mesma velocidade em todo lugar: ela está trocando de dono.
TV: mais prestadoras disputando um mercado que caiu pela metade
Com a TV por assinatura acontece o oposto, e é o achado que mais contraria a recomendação comercial de sempre. O número de prestadoras subiu — de 120 em junho de 2021 para 168 em junho de 2026 —, mas o mercado que elas disputam encolheu quase pela metade:
junho de 2021 — 13.910.149 acessos de TV por assinatura no Brasil
junho de 2026 — 7.131.091 acessos, uma queda de 48,7%
É tentador supor que a queda esteja toda no satélite e no cabo, e que a TV entregue por fibra esteja crescendo. Ela cresceu em participação e caiu em volume. Por tecnologia, em junho de 2026: DTH (satélite) 3.470.826 acessos (48,7%), HFC (cabo) 2.640.859 (37,0%) e FTTH 1.014.313 (14,2%). Em junho de 2021 o FTTH era 9,1% do mercado — mas eram 1.260.984 acessos, mais do que hoje. A fatia da fibra aumentou porque as outras tecnologias caíram mais rápido, não porque a fibra ganhou assinante.
Quem hoje considera entrar em TV por assinatura está entrando num mercado com mais concorrentes e menos clientes do que há cinco anos. Isso não decide nada sozinho — mas é o cenário real, e ele é diferente do que o argumento de venda costuma descrever.
Acessos de TV por assinatura no Brasil, sempre em junho. Fonte: Anatel, dados abertos.
Quem diversifica é maior — e a ordem provavelmente é essa
Comparando o tamanho na banda larga entre os grupos, a diferença é grande. Mediana de acessos de banda larga por provedor de pequeno porte, em junho de 2026:
464 acessos — quem vende só internet
1.872 — quem também vende TV
4.286 — quem também vende voz
6.136 — quem vende voz e TV
Quem vende voz é, na mediana, nove vezes maior em banda larga do que quem vende só internet. É aqui que a leitura fácil erra: o dado não mostra que diversificar faz crescer. Ele mostra que empresas maiores diversificam — o que é esperado, porque cada serviço novo exige outorga própria, sistema de faturamento, suporte e obrigação regulatória adicional. Custo fixo desse tipo cabe melhor em quem já tem escala.
A base é uma fotografia de quem vende o quê; ela não diz o que veio antes. Afirmar a direção da causa exigiria acompanhar as mesmas empresas antes e depois de entrarem em cada serviço — e esse é um trabalho que a base permite fazer, porque tem série desde 2007, mas que não está feito aqui.
Mediana de acessos de banda larga por grupo de provedor, em junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
A mediana desmonta o discurso do combo
Entre os provedores que diversificaram, a operação adicional é pequena. Nos 264 que vendem telefonia, a mediana é de 274 linhas de voz. Nos 140 que vendem TV, a mediana é de 245 assinantes.
Comparado com a mediana de banda larga desses mesmos grupos — 4.286 e 1.872 acessos —, o serviço adicional é da ordem de 6% a 13% da base de clientes de internet. Não é uma segunda operação: é um complemento, vendido para uma fração pequena da carteira.
Isso muda a pergunta certa antes de investir. Não é “quanto o combo aumenta o faturamento”, e sim: uma adesão de 6% a 13% da carteira paga a outorga, o sistema e o suporte do serviço novo? Para quem tem 464 acessos — a mediana de quem vende só internet —, 10% da carteira são 46 clientes. É esse número que precisa fechar a conta, e ele é conhecido antes de começar.
Cada serviço é uma outorga diferente
Os três serviços deste artigo são três outorgas distintas, com pedidos, obrigações e prazos próprios: banda larga é SCM, telefonia fixa é STFC e TV por assinatura é SEAC. Quem for avaliar a entrada em um serviço novo precisa começar por aí — o que cada uma exige está detalhado em outorgas Anatel: SCM, STFC e SEAC.
1. Use o mês fechado, não o mais recente. Em base declaratória o último mês está sempre incompleto, porque a coleta ainda está aberta. Em julho de 2026, 333 CNPJs haviam declarado telefonia fixa contra 356 em junho; na TV, 160 contra 168. Quem comparar julho com junho vai enxergar uma queda que é calendário de entrega, não mercado.
2. Na telefonia fixa, escolha o arquivo certo. O pacote separa concessionárias de autorizadas. Somar os dois mistura a telefonia herdada da privatização com o mercado competitivo e distorce qualquer comparação entre provedores.
3. Não precisa baixar o pacote inteiro. Os arquivos vão de 88 MB a 3 GB porque trazem desde 2007. Os recortes por período que usamos aqui somam 4,4 MB.
O que a consulta entrega de imediato: quantos concorrentes do seu município vendem voz ou TV, com que tecnologia e com quantos clientes cada um — e a conferência do que a sua própria empresa declarou, que é melhor encontrar antes da fiscalização.
O que estes números não dizem
Três limites que ficam de pé:
Acesso não é receita. A base conta linhas e assinantes, não faturamento. Um serviço com poucos clientes e alta margem pode valer mais que a contagem sugere — e a base não permite saber.
“Pequeno porte” é classificação regulatória, não tamanho. No mesmo grupo estão empresas de algumas centenas de clientes e operações com mais de um milhão de acessos. Toda mediana aqui foi calculada justamente para não deixar as maiores empurrarem a média.
Só entra quem declarou. Provedor que vende voz por revenda de outra prestadora, sem outorga própria, não aparece na base de telefonia — o acesso é declarado por quem detém a outorga. O número de 96,6% descreve quem declara só internet, e o total de quem oferece algum serviço de voz ao cliente final é maior do que isso.
Fonte: Anatel — Dados Abertos, painéis de Acessos de Banda Larga Fixa, Acessos de Telefonia Fixa e Acessos de TV por Assinatura, arquivos atualizados em 1º de setembro de 2026. Todos os números deste artigo se referem a junho de 2026, exceto as séries históricas, sempre medidas em junho de cada ano.