Existe um arquivo público que mostra, trecho por trecho, onde está sendo construída rede de transporte de fibra com dinheiro do Fust — com município de origem, município de destino e a data em que a obra tem de estar entregue. São 414 trechos, em 295 municípios.
Baixamos a base e fomos ao passo seguinte, que muda a leitura de tudo: o Fust não constrói. Ele financia. Cada um desses trechos é uma operação de crédito reembolsável tomada por uma prestadora — e a porta de entrada tem um requisito que exclui boa parte dos provedores.
Neste artigo
- O que a base mostra: 414 trechos com origem, destino e prazo
- Não é obra pública: é financiamento reembolsável
- As três linhas, e o que cada uma financia
- As contrapartidas estão escritas
- A porta: habilitação com limite mínimo de R$ 10 milhões
- Os municípios escolhidos são os mais desatendidos? Medimos
- A leitura: o 1% volta como crédito, para quem consegue entrar
- O que este artigo não diz
- Onde conferir

O que a base mostra: 414 trechos com origem, destino e prazo
O pacote de dados abertos do Fust registra compromisso por compromisso. No programa de rede de transporte de alta capacidade em fibra óptica, o retrato é este — e a contagem é nossa:
- 414 trechos de rede de transporte, em 295 municípios, mais 143 compromissos de rede de acesso em municípios de baixa densidade;
- todos vinculados a projetos com o BNDES;
- por estado: Paraíba (84), Rio Grande do Norte (71), Paraná (50), São Paulo (43), Ceará (42), Minas Gerais (36) e Bahia (31);
- a base traz o município de origem da fibra em todos eles — dá para ver o traçado, e não só o destino. Em 49 trechos, a origem está em outra unidade federada;
- e cada trecho tem prazo máximo declarado: os maiores lotes vencem em 20/12/2027 (99 trechos), 05/02/2027 (38) e 28/11/2028 (30).
Para quem opera numa dessas cidades, isso é planejamento: dá para saber que vai existir transporte de alta capacidade chegando, e quando ele deve estar pronto.

Não é obra pública: é financiamento reembolsável
Aqui está o ponto que muda a leitura. Esses trechos não são obra contratada pelo governo: são projetos de empresas que tomaram crédito. O produto Fust no BNDES é financiamento reembolsável, com:
- prazo de até 15 anos, incluindo carência e amortização;
- cobertura de até 100% do valor dos itens apoiáveis;
- e taxa do BNDES entre 1% e 2,5% ao ano, somada ao custo financeiro e à taxa de risco de crédito.
É dinheiro que volta — e é por isso que a lista de compromissos tem prazo de entrega: quem pegou o financiamento assumiu obrigação de construir.
Vale lembrar de onde vem esse dinheiro: da mesma contribuição de 1% que sai da receita de todo prestador — e cuja base de cálculo é a receita operacional bruta, sem desconto de inadimplência.
As três linhas, e o que cada uma financia
O produto se divide em três linhas, e o provedor cabe em mais de uma:
- Fust Educação e Saúde — rede de transporte de alta capacidade e rede de acesso para escolas públicas, infraestrutura interna nas escolas, e rede de transporte e acesso em Unidades Básicas de Saúde;
- Fust Cidades — expansão de 4G/5G em favelas e áreas de baixa renda, construção de backhaul de fibra em municípios ou setores censitários selecionados, e rede de acesso em municípios de baixa teledensidade;
- Fust Rural — as mesmas frentes, voltadas a áreas rurais e rodovias estaduais sem atendimento.
É a mesma divisão que aparece na base: escolas e UBS de um lado, favelas, transporte e acesso do outro. O edital das unidades de saúde que vence nesta segunda-feira é uma frente dessa mesma política, por outro caminho — o da renúncia, não o do crédito.
As contrapartidas estão escritas
Financiamento com dinheiro do fundo vem com obrigação de destino. Duas delas estão declaradas no próprio produto:
- na frente de escolas, o prestador deverá ofertar a conectividade gratuita da escola por pelo menos 24 meses;
- na frente de saúde, a manutenção tem prazo não inferior a 12 meses, com velocidade mínima de 20 Mbps.
Ou seja: o crédito financia a rede, e a rede paga o pedágio social antes de virar receita. Quem for calcular o retorno precisa colocar esses meses na conta.
A porta: habilitação com limite mínimo de R$ 10 milhões
E aqui está o filtro que define quem entra. Segundo a página do produto, podem solicitar empresas prestadoras de serviços de telecomunicações regularmente constituídas — o que reforça, mais uma vez, que ter outorga Anatel regular de SCM, STFC ou SeAC é condição para tudo. Mas há um pré-requisito adicional:
“A empresa/entidade deverá estar habilitada e ter limite de, no mínimo, R$ 10 milhões para operar diretamente com o BNDES.”
Repare no que o limite é e no que ele não é: não é o valor mínimo do projeto. É o limite de crédito que a empresa precisa ter aprovado junto ao banco para operar diretamente. É um requisito de porte financeiro, não de tamanho de obra.
Para o provedor regional, isso costuma ser a diferença entre ler a notícia e participar dela. A página do produto descreve o caminho direto — habilitar-se no portal do cliente e protocolar o pedido — e menciona a existência de um canal para micro, pequenas e médias empresas, mas não detalha uma operação indireta para esta linha. É exatamente o ponto que o Ministério das Comunicações, a Anatel e o BNDES já discutiram publicamente: como abrir o Fust para as empresas menores.
Os municípios escolhidos são os mais desatendidos? Medimos
Fica a pergunta natural: esses 295 municípios são os que menos têm internet fixa hoje? Cruzamos a lista com a base Meu Município, da própria Anatel, que traz a densidade de banda larga fixa — acessos por 100 habitantes — nos 5.570 municípios do país. O dado mais recente dela é de novembro de 2025.
A resposta é não, e ela é útil:
- a mediana nacional é de 14,85 acessos por 100 habitantes;
- a dos municípios que recebem trecho de transporte é 13,55 — praticamente a mesma;
- por quartil, a distribuição também é quase a do acaso: 27% estão no quartil mais baixo do país (seriam 25% numa escolha aleatória) e 22% estão no quartil mais alto.
Isso não é crítica ao programa — é a descrição do que ele é. Rede de transporte é backhaul: o traçado segue rota, distância e ponto de origem da fibra, não o mercado de varejo do município de destino. Um município com boa densidade pode estar na rota; um vizinho com densidade baixíssima pode ficar de fora por não estar no caminho.
Para o provedor, a consequência prática é direta: não adianta esperar o trecho chegar por mérito de carência. Se a sua cidade não está na lista, ela não entra por ser mal atendida — entra se estiver num projeto que alguém propôs e financiou.
⚠️ Como fizemos a conta, para quem quiser refazer: casamos município e UF entre as duas bases e conseguimos parear 271 dos 295 (92%); os demais não casaram por diferença de grafia. E as duas fontes têm datas diferentes — os compromissos são atuais, a densidade é de novembro de 2025.
A leitura: o 1% volta como crédito, para quem consegue entrar
Esta é a nossa leitura: o provedor paga 1% da receita ao Fust todo mês, e esse dinheiro está voltando ao setor — mas na forma de crédito de longo prazo com obrigação de construir, não de repasse. A base mostra onde ele está sendo aplicado, com endereço e data.
E mostra também um desenho de mercado: 414 trechos de transporte chegando a 295 municípios até 2028 significa custo de transporte caindo em cidades que hoje dependem de um único caminho — e, para quem leva fibra até a casa do assinante, muda a conta do backbone — o que é boa notícia para quem compra trânsito, e mudança de cenário para quem vende.
Três consequências práticas:
- Procure o seu município na base. Ela traz origem, destino e prazo. Saber que chega fibra de transporte em 2027 muda contrato de trânsito assinado hoje.
- Se for pleitear, comece pela habilitação. O requisito de operar direto é ter limite aprovado de pelo menos R$ 10 milhões — isso se resolve antes do projeto, não junto com ele.
- Coloque a contrapartida na conta. Vinte e quatro meses de conectividade gratuita para a escola, ou doze meses de manutenção na unidade de saúde, são custo do projeto.
A pergunta útil para fechar: “o nosso município está nessa lista — e, se estiver, o nosso contrato de transporte vence antes ou depois da data de entrega do trecho?”
O que este artigo não diz
A base não traz o nome da empresa. Ela registra o compromisso, o município, o prazo e a origem da fibra — não quem tomou o crédito. Não dá para dizer quem está construindo cada trecho.
Não apuramos a via indireta. A página do produto descreve o caminho direto e cita um canal para micro, pequenas e médias empresas, mas não descreve operação indireta para esta linha. Quem for pleitear deve perguntar diretamente ao BNDES — e essa é a pergunta certa a fazer.
Prazo declarado não é obra entregue. Todos os compromissos que contamos estão com situação “a vencer”. A base registra o que foi assumido, não o que foi concluído.
Taxa final depende do caso. A remuneração do BNDES é de 1% a 2,5% ao ano, mas o custo total soma o custo financeiro e a taxa de risco de crédito, que variam por operação.
Onde conferir
Fontes: Anatel — pacote de dados abertos do Fust, arquivo Base_FUST.csv (22.916 compromissos, publicado em 4 de setembro de 2026 e baixado em 5 de setembro de 2026), do qual foram separados os programas “2.2 — Rede de transporte de alta capacidade de fibra óptica” (414 registros) e “2.3 — Atendimento de municípios com rede de acesso” (143); e BNDES — página do produto Fust BNDES – Projetos Padronizados, consultada em 5 de setembro de 2026, de onde vêm as linhas de apoio, o caráter reembolsável, prazo, cobertura, taxa, as contrapartidas de escolas e unidades de saúde e o requisito de habilitação. As contagens por programa, estado, município e prazo são nossas.
