Em 323 municípios, o único 5G é de uma operadora regional — e o mapa é o dos lotes do leilão

Baixamos a base Meu Município, da Anatel, e contamos município por município quem declara cobertura 5G. O resultado tem um número que não aparece em release: em 323 municípios, o único 5G declarado é de uma operadora regional — nenhuma das três nacionais aparece ali.

E quando se olha onde ficam esses 323, o mapa para de ser coincidência: ele reproduz, quase linha por linha, os lotes regionais do leilão do 5G de 2021. Brisanet no Nordeste, Unifique no Sul, iez! no Sudeste, Sercomtel no Norte. O dado confirma o desenho da norma — e é isso que este artigo mostra.

Neste artigo

Gráfico de barras com o número de municípios cobertos com 5G por operadora
Municípios com 5G declarado por operadora, em setembro de 2025.

Quantos municípios cada operadora cobre com 5G

A base registra, por operadora e tecnologia, o percentual de moradores, domicílios e área cobertos em cada um dos 5.570 municípios. Contando aqueles em que a operadora declara cobertura maior que zero, no recorte de setembro de 2025 — a medição mais recente do arquivo —, o quadro é este:

  • TIM: 4G em 5.570 municípios (todos) · 5G em 1.359;
  • Claro: 4G em 5.287 · 5G em 887;
  • Vivo: 4G em 5.127 · 5G em 633;
  • Brisanet: 4G em 748 · 5G em 432;
  • Unifique: 4G em 251 · 5G em 144;
  • Algar: 4G em 153 · 5G em 37;
  • e, em escala menor, Sumicity (4G em 14), iez! (4G em 9, 5G em 6) e Sercomtel (5G em 7).

Leia a linha da Brisanet ao lado da linha da Vivo: 432 municípios com 5G contra 633. Um provedor que nasceu vendendo fibra no Nordeste está na mesma ordem de grandeza de uma nacional em número de municípios atendidos com 5G. A Unifique, com 144, tem quase quatro vezes o alcance da Algar nessa conta.

Painel com os municípios exclusivos de operadoras regionais e a mediana de moradores cobertos
Os 323 municípios em que só a regional tem 5G, e a profundidade da cobertura.

Os 323 municípios em que só a regional chegou

O número que interessa aparece ao cruzar as listas. Somando os municípios com 5G declarado em setembro de 2025:

  • 1.996 municípios têm 5G de alguma operadora — de 5.570. Ou seja, 3.574 não têm 5G de ninguém;
  • 1.673 têm 5G de pelo menos uma das três nacionais;
  • 626 têm 5G de pelo menos uma regional;
  • 303 têm as duas coisas — e é aí que existe concorrência de fato;
  • e 323 têm 5G APENAS de regional.

A distribuição dos 323 é concentrada:

  • Brisanet: 237 municípios onde nenhuma nacional declara 5G;
  • Unifique: 60;
  • Algar: 19 · Sercomtel: 4 · iez!: 3.

Em uma cidade a cada seis com 5G no país, quem levou a tecnologia foi uma empresa regional sozinha. Para efeito de escala: 4G não tem esse buraco — não há um único município sem 4G declarado por alguém. A disputa que este artigo descreve é só sobre a geração nova.

O mapa dos 323 é o mapa dos lotes do leilão

Aqui está o cruzamento que dá sentido ao número. No leilão do 5G, em novembro de 2021, além dos blocos nacionais, a Anatel ofertou lotes regionais de 3,5 GHz — os blocos “C” —, desenhados por região e arrematados por operadoras regionais. Segundo a imprensa especializada do setor, o resultado foi: Brisanet nos lotes do Nordeste e do Centro-Oeste, o consórcio 5G Sul (Copel Telecom e Unifique) no Sul, Cloud2U no lote de RJ, MG e ES, e Sercomtel no lote de Norte e São Paulo.

Agora compare com a região dos municípios onde a regional tem 5G, medida por nós na base de quatro anos depois:

  • Brisanet: 234 no Nordeste + 3 no Centro-Oeste — exatamente os seus dois lotes;
  • Unifique: 60, todos no Sul;
  • Sercomtel: 4, todos no Norte;
  • iez!: 3, todos no Sudeste;
  • Algar: 18 no Sudeste + 1 no Centro-Oeste — e essa é a exceção, porque a Algar não é entrante de lote regional: é operadora estabelecida há décadas na sua própria área.

Quatro dos cinco nomes caem dentro da área do lote que arremataram. Não é acaso nem estratégia comercial isolada: é política pública funcionando como foi desenhada — reservar espectro regional produziu cobertura regional onde a nacional não foi.

E a Agência já está recalibrando a régua por causa disso: a proposta que aperta o teto de concentração de espectro para 30% e cria limite na faixa do 5G declara, na própria introdução, que considera “a entrada de novos agentes neste mercado a partir do Edital de Licitação nº 1/2021-SOR/SPR/CD-Anatel — Edital do 5G”. É o mesmo leilão de que trata esta seção.

O que a norma manda — e o prazo que vence em dezembro

O leilão de 2021 não vendeu só espectro: vendeu obrigação. A página de compromissos de abrangência da Anatel é explícita quanto ao alvo — “atender todas as 5.570 sedes municipais brasileiras com 5G” —, com dois cronogramas separados por porte:

  • para os 1.174 municípios com população igual ou superior a 30 mil habitantes: escada anual, chegando a 100% deles até 31/07/2029;
  • para os 4.396 municípios com população inferior a 30 mil habitantes: pelo menos 30% até 31/12/2026, 60% até 31/12/2027, 90% até 31/12/2028 e 100% até 31/12/2029.

Confronte isso com o que a base mostrava em setembro de 2025: 1.996 municípios com 5G, 36% do país. Faltavam 3.574 — e o primeiro degrau da escada dos municípios pequenos vence em 31 de dezembro deste ano, daqui a menos de quatro meses.

Não estamos dizendo que a obrigação está descumprida: a medição é de um ano atrás, e um ano é muito tempo em implantação de rede. Estamos dizendo o que é possível afirmar com o dado na mão — o degrau é próximo e o ponto de partida conhecido era 36%. Quem quiser conferir hoje tem o caminho aberto: a mesma base, no recorte novo — e é esse tipo de leitura que sustenta uma consultoria Anatel feita com o dado da própria Agência.

O leilão de maio de 2026 reforçou a aposta nas regionais

A política não parou em 2021. Em 4 de maio de 2026 a Anatel realizou o leilão das subfaixas de 708–718 MHz e 763–773 MHz — a faixa de 700 MHz —, e o edital deu prioridade a quem já tinha autorização regional em 3,5 GHz. Os cinco lotes ficaram com quatro empresas regionais: Amazônia (Norte e São Paulo), Brisanet (Nordeste e Centro-Oeste), Unifique (Sul) e iez! (RJ, MG e ES), somando cerca de R$ 23 milhões em lances.

O valor é pequeno de propósito: o modelo é não arrecadatório, o mesmo do 5G — o que excede o valor administrativo vira compromisso de investimento. A conta declarada é de R$ 2 bilhões em investimentos, com sinal 4G ou superior em 864 localidades desassistidas e em milhares de quilômetros de rodovias federais, a cumprir até 2030.

E vale registrar quem reclamou, porque isso é parte do fato: o certame foi judicializado. A TelComp impetrou mandado de segurança coletivo, uma liminar chegou a suspender a abertura das propostas, e o TRF-3 restabeleceu o certame no dia seguinte — tudo registrado na própria página do leilão na Anatel. A prioridade dada aos entrantes regionais foi o ponto contestado.

Ou seja: a reserva regional não é episódio de 2021. Foi reafirmada em 2026, contra resistência, e com compromisso de cobertura em localidades que hoje não têm atendimento.

Cobrir o município não é cobrir o município inteiro

Antes de transformar o número em manchete, é preciso ler a segunda coluna. “Cobertura declarada” aqui significa mais de zero por cento dos moradores — o que inclui desde a cidade inteira até o centro e mais nada.

A base traz a profundidade, e ela corrige o retrato. A mediana do percentual de moradores cobertos no 5G, entre os municípios em que cada uma atua:

  • Algar: 65,4% · Claro: 52,7% · TIM: 47,3%;
  • Brisanet: 41,8% · Vivo: 40,3%;
  • Unifique: 28,3% · iez!: 21,4% · Sercomtel: 4,1%.

Repare: a Brisanet cobre, na mediana, proporção de moradores parecida com a da Vivo — 41,8% contra 40,3%. Não é presença simbólica. Já a Unifique entra em muitas cidades com cobertura mais rasa (28,3%), e a Sercomtel, com 4,1%, tem nos seus 7 municípios pouco mais que um ponto de presença. São estratégias diferentes, e o número expõe isso sem depender de release.

Nos casos extremos, a cobertura regional é densa: em Senador Georgino Avelino (RN), a Brisanet declara 99,1% dos moradores cobertos com 5G, e nenhuma nacional aparece. O mesmo padrão se repete em Taboleiro Grande e Major Sales (RN), Camutanga (PE) e Itaiçaba (CE), todos acima de 83%.

O que isso significa para o provedor

Três leituras práticas, e nenhuma delas é sobre celular:

  • O concorrente do seu plano fixo pode ser uma antena. Onde há 5G — e em 323 municípios ele é regional —, existe base técnica para internet fixa sem fio de alta capacidade, que disputa a residência de baixo consumo com a rede FTTH.
  • O regional que entrou no móvel virou comprador de infraestrutura. Rede de acesso móvel precisa de transporte, torre e energia — e frequentemente compra isso de quem já tem fibra na cidade. É mercado B2B na sua área, e nasce do cronograma de cobertura, que tem data.
  • O calendário é público, então dá para se antecipar. Os degraus de 31/12/2026, 2027, 2028 e 2029 dizem em que ordem as cidades pequenas entram. Se a sua está entre as 3.574 sem 5G, ela vai entrar na conta de alguém antes de 2030.

Vale lembrar que operar rede móvel não é o mesmo negócio que operar SCM: é outorga Anatel diferente, com obrigações próprias — e, como em qualquer frente do setor, a regularidade cadastral e as obrigações acessórias pesam tanto quanto a rede.

Como conferimos o número contra a própria base

Antes de publicar, medimos o nosso resultado contra o próprio arquivo. A base traz, além das linhas por operadora, uma linha agregada “Todas” — o total consolidado por município. Se a nossa contagem estivesse errada, as duas não bateriam.

Bateram, com uma exceção: a união dos operadores nomeados dá 1.996 municípios com 5G; a linha agregada dá 1.997. A diferença é um único município — Santo Amaro das Brotas (SE), que aparece com 5G na linha consolidada e não aparece em nenhuma operadora nomeada. É divergência da própria base, não do nosso cálculo. Registramos por transparência e porque não muda nenhuma conclusão.

O que estes números não dizem

A medição é de setembro de 2025. É o mês mais recente do arquivo publicado, não a situação de hoje. Nada aqui deve ser lido como “atualmente”.

Cobertura declarada é declaração da operadora. A base traz o que cada uma informa à Agência; não medimos sinal em campo.

Município não é sede municipal, e não é população. Os compromissos falam em sedes municipais; a base mede percentual de moradores do município. São réguas próximas, mas não idênticas — a comparação da seção do relógio é indicativa, não é aferição de cumprimento. Cobrir 432 municípios pequenos também não equivale a cobrir 432 grandes; por isso trouxemos a mediana de moradores cobertos.

Não sabemos com que espectro. A base não informa se a cobertura vem de faixa própria, de compartilhamento ou de contrato com outra operadora.

Não lemos o edital do 5G nem o de 700 MHz na íntegra. Os compromissos de abrangência vieram da página oficial da Anatel que os consolida; a composição dos lotes regionais de 2021 e os valores do leilão de 700 MHz vieram da imprensa especializada e do noticiário oficial, não do texto do edital. Quem for tomar decisão de investimento deve ir ao edital.

Não apuramos o cumprimento por empresa. Saber quem está adiantado ou atrasado em relação a cada degrau exigiria os relatórios de acompanhamento da Agência, que não abrimos aqui.

Onde conferir

Fontes: Anatel — pacote de dados abertos Meu Município, arquivos Meu_Municipio_Cobertura.csv (com operadora, tecnologia, código IBGE, região e percentuais de moradores, domicílios e área cobertos) e Meu_Municipio_Acessos.csv, recorte de setembro de 2025, baixados em 6 de setembro de 2026; Anatel — Compromissos de Abrangência do Leilão do 5G, de onde vêm o alvo das 5.570 sedes municipais, os cronogramas por porte e os números de 1.174 e 4.396 municípios; Anatel — página oficial do Leilão das Subfaixas de 708 MHz a 718 MHz e de 763 MHz a 773 MHz, de onde vêm as datas, o Edital de Convocação nº 7/2026 e o registro das decisões judiciais (mandado de segurança coletivo da TelComp e a decisão do TRF-3); e TELETIME, para a composição dos lotes regionais de 3,5 GHz de 2021 e os valores por lote do leilão de 700 MHz. Todas as contagens por operadora, os cruzamentos entre listas, as medianas e a conferência contra a linha agregada são nossos, feitos sobre os arquivos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *