O 5G foi leiloado em 2021 e desde então aparece em propaganda como se fosse realidade nacional. A Anatel publica duas bases que permitem conferir sem depender de release: a de estações licenciadas, que diz onde existe antena autorizada, e a de acessos móveis, que diz onde existe cliente. Cruzamos as duas em junho de 2026 e o resultado é direto: 2.943 dos 5.570 municípios brasileiros — 52,8% — não têm nem uma estação 5G licenciada nem um acesso 5G declarado. São 21.344.311 acessos móveis de pessoas, 9,7% do país, em lugares onde o 5G ainda não existe de nenhuma das duas formas. Este artigo mostra o mapa, o que acontece quando as duas fontes discordam e a armadilha que distorce qualquer ranking feito com essa base.
Considerando as duas bases juntas — basta uma estação 5G licenciada ou um acesso 5G declarado para o município contar como atendido:
5.570 municípios com acesso móvel declarado em junho de 2026
2.255 têm ao menos uma estação 5G licenciada
2.356 têm ao menos um acesso 5G declarado
2.943 (52,8%) não têm nenhum dos dois
O contraste com as gerações anteriores é o que dá a medida: o 4G está em 100% dos municípios com acesso declarado. Não é uma tecnologia chegando devagar num país sem infraestrutura móvel — é uma geração que parou na metade de um país que já tinha a anterior em todo lugar.
Somando os acessos móveis de pessoas (voz e dados, excluindo máquinas) nesses 2.943 municípios, chega-se a 21.344.311 acessos — 9,7% de todos os acessos móveis humanos do Brasil. A distância entre 52,8% dos municípios e 9,7% dos acessos é o próprio desenho do país: os municípios sem 5G são muitos e pequenos.
Quando as duas fontes discordam — e por que isso é informação
Estação licenciada e acesso declarado medem coisas diferentes, e a diferença entre elas é útil:
372 municípios têm acesso 5G declarado e nenhuma estação 5G licenciada
271 municípios têm estação 5G licenciada e nenhum acesso 5G declarado
Os 372 não são erro. O acesso é contado onde o cliente está cadastrado, não onde ele usa o celular: quem mora numa cidade sem 5G e tem plano 5G aparece ali, servido pela antena do município vizinho ou por nada. Os 271 são o caso oposto — antena autorizada e no ar sem cliente 5G contado no município, o que acontece em cidade recém-ativada ou onde o parque de aparelhos ainda não acompanhou.
Daí a razão de usar as duas: quem publicar só a base de acessos superestima a cobertura, porque conta cliente que não é atendido ali; quem publicar só a de estações subestima, porque ignora quem é atendido pela antena vizinha. O número honesto de “sem 5G” é a interseção — o município que falha nos dois testes.
113 mil estações: o 5G foi montado em cima do 4G
A base de estações do Serviço Móvel Pessoal traz 3.294.210 linhas, mas a unidade não é a linha: cada estação aparece várias vezes, uma por faixa de frequência e setor. Contando estação distinta, são 113.347 estações licenciadas no país — destas, 158 não informam geração, e os percentuais abaixo são sobre as 113.189 que informam:
104.947 (92,7%) operam 4G
71.356 (63,0%) operam 3G
59.229 (52,3%) operam 5G
54.442 (48,1%) ainda operam 2G
A soma passa de 100% porque a mesma estação acumula gerações — e é exatamente esse o achado. Das 59.229 estações com 5G, apenas 1.587 são sítios novos, que só têm 5G. Todas as outras 57.642 são antenas que já existiam e ganharam mais uma geração.
Isso explica o mapa da seção anterior melhor do que qualquer argumento: o 5G avançou onde já havia torre, energia, transporte e licença. Onde não havia, ele não chegou — porque quase ninguém construiu sítio novo para ele. E explica também por que o 2G ainda está em quase metade das estações: desligar geração antiga custa, e o que se fez foi empilhar.
Estações licenciadas do Serviço Móvel Pessoal por geração, junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
Brisanet e Unifique: provedor regional com 5G próprio
O 5G não é só das três grandes. Contando estações 5G licenciadas por operadora:
Vivo — 22.025
Claro — 17.501
TIM — 16.535
Brisanet — 2.218
Unifique — 692
Algar — 202
Dois provedores regionais que nasceram em fibra têm hoje mais estações 5G licenciadas que a Algar, operadora móvel histórica. E no Ceará a comparação fica mais clara ainda: são 740 estações 5G da Vivo contra 736 da Brisanet — praticamente empate no estado de origem dela, à frente de TIM (579) e Claro (547).
A distribuição da Brisanet segue o mapa do Nordeste: Ceará 736, Rio Grande do Norte 316, Pernambuco 253, Paraíba 243, Piauí 192 e Bahia 167. É o mesmo movimento que os números de participação do pequeno porte na banda larga fixa mostram na rede fixa, agora aparecendo no espectro. Vale lembrar que esse avanço tem limite regulatório: a Anatel discute um teto de 30% do espectro por município, regra que alcança inclusive a venda da operação.
Estações 5G licenciadas por operadora, junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
O mapa por estado, de Roraima ao Ceará
A fatia de municípios sem 5G varia muito mais entre estados do que a média nacional sugere. Onde falta mais:
Roraima — 86,7% dos municípios sem 5G (13 de 15)
Tocantins — 84,2% (117 de 139)
Amazonas — 74,2% (46 de 62)
Minas Gerais — 72,7% (620 de 853)
Mato Grosso — 71,6% (101 de 141)
Piauí — 71,0% (159 de 224)
E onde falta menos: Ceará com apenas 2,2% (4 municípios de 184), Santa Catarina 16,9% (50 de 295), Rio Grande do Norte 18,6% (31 de 167) e Rio de Janeiro 35,9% (33 de 92).
Minas Gerais no grupo dos piores não é contradição: são 853 municípios, a maioria pequena. A conta é por município, não por população — e é essa conta que interessa a quem opera rede fixa em cidade pequena, porque descreve o concorrente que existe ou não existe ali.
Os dez maiores municípios sem 5G, medidos por acessos móveis de pessoas, são Coari (AM, 47.509), Tabatinga (AM, 40.558), Portel (PA, 39.400), Paraíba do Sul (RJ, 38.112), Juruti (PA, 37.263), Sapezal (MT, 37.198), Santo Antônio de Pádua (RJ, 35.828), São Gabriel da Cachoeira (AM, 35.798), Sena Madureira (AC, 35.255) e Novo Progresso (PA, 34.440).
Fatia de municípios sem 5G em cada estado, junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
A armadilha: o município de 2 mil habitantes com 106 mil acessos
Esse ranking saiu diferente na primeira tentativa, e vale contar por quê. Ordenando os municípios sem 5G pelo total de acessos móveis, o primeiro colocado era Poloni, no interior de São Paulo, com 106.193 acessos — numa cidade de cerca de duas mil pessoas.
A base separa o tipo de produto, e a explicação está lá: 100.287 desses 106.193 acessos são M2M, máquina falando com máquina — 94,4%. São chips de telemetria, rastreador, maquinário e medidor registrados no CNPJ de quem os contratou, não pessoas morando ali. Em 12 municípios do país o M2M supera os acessos humanos, e no total nacional o M2M é de 34.044.631 acessos contra 219.835.213 humanos.
Por isso todo ranking deste artigo usa voz e dados de pessoas, com o M2M fora. Quem somar a coluna inteira vai publicar cidade de dois mil habitantes como grande mercado móvel — e o erro não aparece sozinho, porque o número é real: ele só não mede o que se pensa que mede.
Como conferir o seu município
As duas bases são públicas e ficam em anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados — estações em outorga_e_licenciamento/estacoes_smp.zip e acessos móveis em acessos/acessos_telefonia_movel.zip. Quatro cuidados que mudam o resultado:
1. A unidade é a estação, não a linha. São 3,29 milhões de linhas para 113,3 mil estações. Contar linha infla o número em 29 vezes.
2. Use o Código IBGE, nunca o nome. Os 5.570 municípios aparecem com apenas 5.297 nomes distintos — há homônimos em estados diferentes, e agrupar por nome funde cidades que não têm nada a ver uma com a outra.
3. Dois terços das linhas de estação vêm sem o Código IBGE, o que parece perda de dado. Não é: conferimos estação por estação e nenhuma das 113.347 fica sem localidade — toda estação tem outra linha, da mesma estação, com o município preenchido. Descartar as linhas vazias sem checar isso teria feito parecer que faltava informação onde não falta.
4. Separe o M2M, pelo motivo da seção anterior.
O que a consulta entrega para quem opera rede fixa: se existe 5G no seu município e de quem é a antena, quantos acessos móveis humanos existem ali, e quais cidades vizinhas já têm 5G — que é a informação que falta na hora de avaliar concorrência de internet fixa via rádio 5G na sua área. Para o outro lado dessa conta — quem já tem espectro para operar banda larga por rádio em cada estado — o mapa é outro, e também sai de base pública.
O que estes números não dizem
Estação licenciada não é cobertura medida. A base diz que existe autorização e licenciamento para aquela estação, não qual é a área efetivamente coberta nem a qualidade do sinal. Um município com uma estação 5G pode ter 5G em uma rua.
Nem toda antena aparece como sítio próprio. O compartilhamento de infraestrutura entre operadoras existe e a base registra a estação sob quem a licenciou — a contagem por operadora é de licenciamento, não de propriedade física da torre.
Acesso não é pessoa. Uma pessoa pode ter dois chips e uma empresa pode ter mil. Os números de acesso descrevem linhas ativas declaradas, não população atendida.
É uma fotografia de junho de 2026. O 5G licenciado cresceu todo ano desde 2023, e este mapa muda. A base de estações é atualizada continuamente; a de acessos, mensalmente — e nela o mês mais recente está sempre incompleto, porque a coleta ainda está aberta.
Fonte: Anatel — Dados Abertos, base de Estações do Serviço Móvel Pessoal (arquivo estacoes_smp.zip, situação “Licenciada”) e painel de Acessos de Telefonia Móvel, primeiro semestre de 2026. Todos os números se referem a junho de 2026.