O Brasil está em 58% de IPv6. Esse número esconde uma diferença que importa muito mais para quem opera rede: as dez maiores redes do país já estão em 82% — e da milésima em diante, a média cai para 32%.
O gradiente é perfeito e não tem exceção: quanto menor a rede, menos IPv6. E há um número que dimensiona o atraso: 2.360 redes brasileiras estão abaixo de 10% de IPv6, e elas atendem 17,4 milhões de usuários.
Nada disso é estimativa nossa: sai do mesmo experimento que mede a adoção nacional, aberto por sistema autônomo.
Neste artigo
- O dado, e por que ele confere
- O gradiente: 82% no topo, 32% na cauda
- As 1.333 redes em praticamente zero
- Isso não é ruído de amostra — conferimos
- Por que a média nacional é 58%, e não 82%
- O que o atraso custa
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
O dado, e por que ele confere
A fonte é a mesma do artigo anterior — o APNIC Labs —, agora no recorte por sistema autônomo (ASN). O arquivo do Brasil traz, para cada rede: usuários estimados, usuários com IPv6, o percentual de IPv6 daquela rede e o número de medições. A janela é de 60 dias e a data, 7 de setembro de 2026.
São 6.973 ASNs brasileiros, somando 164.074.173 usuários estimados, dos quais 95.067.697 com IPv6 — 57,94%.
⭐ E esse 57,94% é a primeira validação: a série diária nacional, calculada por outro caminho, marcava 58,27% no mesmo dia. Dois recortes independentes da mesma medição batem com 0,3 ponto de diferença — é o tipo de conferência que se faz antes de confiar num número, não depois.

O gradiente: 82% no topo, 32% na cauda
Ordenando as redes por número de usuários e agrupando:
- 10 maiores — 66,1 milhões de usuários (40,3% do total) — 81,98% de IPv6;
- 11ª à 50ª — 18,1 milhões (11,1%) — 58,46%;
- 51ª à 200ª — 15,1 milhões (9,2%) — 47,86%;
- 201ª à 1.000ª — 27,8 milhões (17,0%) — 40,89%;
- 1.001ª em diante — 5.973 redes, 36,9 milhões (22,5%) — 31,64%.
⭐⭐ Cada degrau desce. Não há um grupo intermediário que quebre a linha, nem um bolsão de pequenos adiantados. A adoção de IPv6 no Brasil é, hoje, função do tamanho da rede.
No topo da lista aparecem os nomes esperados, e todos já resolveram o problema: Claro S/A com 92,06%, TIM com 90,06%, Claro NXT com 81,50%, Telefônica com 86,45% na maior de suas redes, V.tal com 79,18%. Entre os regionais de maior porte, Brisanet aparece com 65,34% e Unifique com 69,87% — acima da média nacional, e ainda assim vinte pontos abaixo das operadoras.

As 1.333 redes em praticamente zero
A distribuição por faixa de adoção mostra onde o problema se concentra:
- 1.333 redes abaixo de 1% de IPv6 — 7,77 milhões de usuários (4,7%);
- 1.027 redes entre 1% e 10% — 9,62 milhões (5,9%);
- 1.467 redes entre 10% e 30% — 17,10 milhões (10,4%);
- 1.891 redes entre 30% e 60% — 33,22 milhões (20,2%);
- 986 redes entre 60% e 80% — 43,55 milhões (26,5%);
- 269 redes com 80% ou mais — 52,81 milhões (32,2%).
⭐⭐⭐ Somando as duas primeiras faixas: 2.360 redes brasileiras estão abaixo de 10% de IPv6, e elas atendem 17,4 milhões de usuários — 10,6% da base do país.
📌 E a outra ponta explica o país: apenas 269 redes — 3,9% dos ASNs — respondem por quase um terço dos usuários brasileiros e estão todas acima de 80%. São elas que sustentam a média nacional.
Isso não é ruído de amostra — conferimos
Rede pequena tende a ter poucas medições, e poucas medições produzem percentuais loucos — foi exatamente assim que o “recorde” nacional de 2023 se revelou artefato. Então a primeira coisa que fizemos foi checar a amostra antes de acreditar no gradiente.
- Nenhum dos 6.973 ASNs tem menos de 154 medições — a base já vem filtrada;
- entre as 1.333 redes abaixo de 1%, a mediana da amostra é 1.772 medições, e 891 delas têm mais de mil;
- e refazendo todo o gradiente apenas com redes de 100 medições ou mais, os cinco degraus dão exatamente os mesmos números.
⭐ O “praticamente zero” dessas redes é real. Não é uma rede pouco medida: é uma rede que não entrega IPv6.
Por que a média nacional é 58%, e não 82%
Junte as duas pontas e a conta fecha sozinha. As dez maiores redes puxam para 82%; as quase seis mil da cauda puxam para 32%. O 58% nacional é a média ponderada desse cabo de guerra — e o peso da cauda não é pequeno: 22,5% dos usuários brasileiros estão em redes fora das mil maiores.
📌 Isso muda a leitura do número nacional. Quando se diz que “o Brasil está em 58% de IPv6”, não se está descrevendo uma transição pela metade em todo lugar. Está-se somando um país que já terminou com outro que quase não começou — e o segundo é, em boa medida, o do provedor regional.
Vale lembrar o peso desse segundo país: o pequeno porte já tem 59% da banda larga fixa do Brasil. Quem lidera em acessos está atrás em IPv6.
O que o atraso custa
- CGNAT e o registro obrigatório. Cada conexão que não fecha em IPv6 passa pelo tradutor — e o CGNAT trouxe obrigação regulatória própria: guardar o IP não basta mais, a porta lógica virou obrigação;
- Custo de IPv4. Quem não entrega IPv6 depende de comprar ou alugar endereço num mercado escasso — e os critérios do Registro.br para obter recurso de numeração, blocos IP e ASN, estão em os requisitos do Registro.br para blocos IP e ASN;
- Atendimento. Serviço que exige conexão direta — jogo, câmera, VPN, servidor em casa — é mais difícil de sustentar atrás de tradução;
- Comparação pública. O dado é aberto e por rede. Qualquer um pode olhar a sua.
O que fazer com isso
- Meça a sua rede antes de discutir a média nacional. O arquivo é público e traz cada ASN brasileiro com o percentual de IPv6 e o tamanho da amostra.
- Se você está abaixo de 10%, saiba que tem 2.359 companhias — e que a distância para a mediana do setor não é pequena.
- Compare-se com o seu grupo de porte, não com a Claro. Entre a 201ª e a 1.000ª rede, a média é 40,89%; da 1.001ª em diante, 31,64%.
- Trate como projeto de rede, não de marketing. A curva nacional avança cerca de 3 pontos ao ano há uma década: é troca de equipamento e reengenharia, não campanha.
O que este artigo não diz
- ASN não é empresa. Um mesmo grupo pode operar várias redes — a Telefônica aparece três vezes entre as dez maiores, com percentuais diferentes (86,45%, 74,16% e 72,44%). Todos os agrupamentos deste artigo são por ASN, não por empresa, e um ranking por grupo econômico daria números diferentes.
- “Usuários” é estimativa. O APNIC infere a população de cada rede a partir do seu experimento de medição; não é base de assinantes declarada à Anatel.
- Mede quem navega, não quem contrata. O experimento observa usuários reais acessando a internet — não a existência de IPv6 configurado na rede que ninguém usou naquela janela.
- Não medimos por serviço nem por região, e não cruzamos com a base de outorgas da Anatel: os ASNs aqui incluem provedores, operadoras, satélite, universidades, governo e empresas com rede própria.
- Não é dado da Anatel nem do NIC.br — é o experimento do APNIC Labs, cujo reuso é permitido com atribuição.
- Os percentuais dos nomes citados valem para o ASN indicado e para a janela de 60 dias encerrada em 7 de setembro de 2026.
Onde conferir
Fontes: as primárias usadas neste artigo.
- APNIC Labs — usuários e IPv6 por ASN do Brasil, com percentual por rede e número de medições: stats.labs.apnic.net/cgi-bin/v6pop?c=BR
- APNIC Labs — estimativa de população de usuários por ASN, em JSON: stats.labs.apnic.net/cgi-bin/aspop?c=BR&f=j
- APNIC Labs — série diária nacional de IPv6, usada para conferir o total: data1.labs.apnic.net/v6stats/v6economy/BR.json
- Registro.br — o retrato dos ASNs brasileiros, que já analisamos: os 9.125 ASNs do Brasil e o que eles revelam sobre o mercado
