Em 7 de setembro de 2026, 58,27% dos usuários brasileiros medidos conseguiam usar IPv6. Em outubro de 2013, quando a série começa, eram 0,03%.
A curva importa para quem opera rede por um motivo prático: cada ponto de IPv6 é pressão a menos sobre o IPv4 — sobre o CGNAT, sobre o custo de comprar bloco e sobre a obrigação de guardar registro de porta lógica.
Há um detalhe na série que precisa ser dito antes de qualquer gráfico: o máximo histórico aparente do Brasil é 74,55%, em setembro de 2023 — e ele não existiu. Naqueles dias a amostra do experimento caiu de um milhão de medições para pouco mais de cem. Quem usar o número bruto sem olhar o tamanho da amostra publica um pico que nunca aconteceu.
Neste artigo
- De onde vem o dado, e o que ele mede
- A curva: de 0,03% a 58,27%
- O pico de 74,55% que não existiu
- “Capaz” e “prefere”: a diferença que sobra
- O que aconteceu com as recomendações de 2012
- O que muda para o provedor
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
De onde vem o dado, e o que ele mede
A medição é do APNIC Labs, o braço de pesquisa do registro regional de endereços da Ásia-Pacífico, e é a referência mundial para adoção de IPv6 por país. O arquivo do Brasil é público, em JSON, e traz uma série diária de 4.656 dias — de 8 de outubro de 2013 a 7 de setembro de 2026. O carimbo de atualização do arquivo que baixamos é de 10 de setembro de 2026, às 6h.
Cada dia traz cinco leituras: o valor bruto e médias móveis de 10, 30, 60 e 90 dias. E, em todas elas, três campos que fazem toda a diferença: seen (quantas medições houve), capable e preferred.
📌 O campo seen é o que separa leitura séria de gráfico bonito, como se vê adiante.

A curva: de 0,03% a 58,27%
Tomando o valor bruto em marcos da série:
- out/2013 — 0,03% (o começo da medição);
- abr/2014 — 0,15%;
- jan/2016 — 7,54%;
- jan/2018 — 19,76%;
- jan/2020 — 32,28%;
- jan/2022 — 39,13%;
- jan/2024 — 46,46%;
- jan/2026 — 53,87%;
- set/2026 — 58,27%.
⭐ É um crescimento longo e sem sobressaltos — cerca de 3 pontos por ano na última década, sem nenhum salto que sugira virada de chave. IPv6 no Brasil não foi um evento; foi acúmulo.
📌 E o ritmo recente é o mais rápido em anos: de janeiro a setembro de 2026 foram 4,4 pontos, contra os cerca de 3 pontos anuais do período anterior.

O pico de 74,55% que não existiu
Se você ordenar a série pelo valor bruto, o topo do Brasil aparece em 20 de setembro de 2023, com 74,55% — dezesseis pontos acima do valor de hoje, três anos depois. Seria a notícia do artigo, se fosse verdade.
Fomos olhar o entorno, dia a dia, com o tamanho da amostra ao lado:
- 14/09/2023 — 45,99%, com 1.001.771 medições;
- 15/09 — 47,46%, com 500.856;
- 16/09 — 55,81%, com 86 medições;
- 17/09 — 72,06%, com 68;
- 19/09 — 42,98%, com 114;
- 20/09 — 74,55%, com 110;
- 22/09 — 40,91%, com 66;
- 25/09 — 48,95%, com 17.001;
- 26/09 — 48,20%, com 521.087 — a coleta normalizada.
⚠️⚠️ A amostra caiu de um milhão para algumas dezenas por nove dias. Com 66 medições, cada usuário vale 1,5 ponto percentual — e o número passa a oscilar entre 40% e 74% de um dia para o outro. Não houve salto de IPv6: houve falha de coleta.
⭐ E há um contraprova dentro do próprio arquivo: a média de 30 dias, no mesmo período, seguiu suave — 46,96% no dia 14 e 51,34% no dia 26, sem nenhum pico. A média móvel resistiu porque diluiu os dias de amostra pequena.
📌 A regra que fica, e vale para qualquer série pública: quando o dado traz o tamanho da amostra, ele traz porque importa. Na série brasileira inteira há 39 dias com menos de mil medições, de 4.656 — pouco mais de 0,8%, mas são justamente eles que produzem os recordes falsos.
“Capaz” e “prefere”: a diferença que sobra
O experimento separa dois números. Em 7 de setembro de 2026: capable 58,27% e preferred 57,24%.
Ao longo de toda a série, preferred é sempre menor ou igual a capable — o que descreve bem a diferença: um grupo consegue usar IPv6; um subconjunto dele efetivamente usa quando o destino oferece os dois caminhos. Hoje essa diferença no Brasil é de cerca de um ponto, o que indica que quase todo mundo que tem IPv6 disponível de fato o utiliza.
⚠️ Ressalva de método: a página de documentação do formato aponta para um endereço de definições que hoje responde 404. A leitura acima é a que o próprio dado sustenta — a relação constante entre os dois campos —, e não uma citação de definição oficial.
O que aconteceu com as recomendações de 2012
Vale olhar de onde isso partiu. O Comitê Gestor da Internet no Brasil tem uma sequência de resoluções sobre o tema, todas do começo da década passada: criação de comissão de trabalho para tratar da implementação do IPv6 (2010), formação de grupo de trabalho (2012), recomendação para implantação do protocolo (2012), ações para fomentar a adoção (2013), campanha publicitária (2014) e recomendação de suporte a IPv6 em equipamentos (2014).
⭐⭐ Ponha as duas coisas lado a lado. Quando saiu a última dessas resoluções, em abril de 2014, o Brasil estava em 0,15%. Hoje está em 58,27%. Foram doze anos para atravessar essa distância — e nenhum dos documentos é norma obrigatória: são recomendações.
📌 A leitura é nossa e é sóbria: a transição aconteceu, mas no ritmo de quem substitui equipamento e refaz rede quando já ia fazer de qualquer jeito. Quem esperava que recomendação acelerasse o relógio tem doze anos de evidência em contrário.
O que muda para o provedor
Não é assunto acadêmico. Três consequências diretas:
- CGNAT. Cada assinante que fecha a conexão em IPv6 é uma sessão a menos no tradutor. E o CGNAT tem custo regulatório próprio: guardar o IP não basta mais, a porta lógica virou obrigação;
- Custo de IPv4. Bloco IPv4 virou ativo escasso e caro, e rede que entrega IPv6 nativo depende menos de comprar endereço — os critérios para obter bloco estão em os requisitos do Registro.br para obter recurso de numeração: blocos IP e ASN;
- Rede interna. Roteamento, endereçamento e monitoração precisam suportar as duas pilhas — e o que a norma obriga na rede do provedor, e o que é convenção de fabricante, já tratamos ao discutir o OSPF na rede do provedor.
📌 E se a pergunta for “quem são os provedores brasileiros e onde eles estão”, o retrato saiu do arquivo público do Registro.br: são 9.125 ASNs.
O que fazer com isso
- Use a média de 30 dias, não o valor do dia. O arquivo já traz as duas; o bruto oscila com a amostra.
- Ao citar qualquer número de adoção, cite a data e a amostra. É o que separa o dado do gráfico.
- Não espere ponto de virada. A curva é linear há uma década; planeje IPv6 como migração contínua, não como projeto com data.
- Meça a sua própria rede. O percentual nacional não diz nada sobre a sua base — e o mesmo experimento publica dados por ASN, o que permite olhar rede por rede.
O que este artigo não diz
- Não medimos IPv6 por provedor. A fonte publica arquivos por ASN dentro de cada país, mas não os analisamos aqui — é trabalho para outro artigo, e exige cuidado ao nomear empresas.
- Não é medição oficial brasileira. É o experimento do APNIC Labs, referência internacional, com dado reutilizável mediante atribuição. Não é dado da Anatel nem do NIC.br.
- Não sabemos a causa da falha de coleta de setembro de 2023. Constatamos a queda de amostra e o efeito nos percentuais; a origem não está no arquivo.
- As definições de “capable” e “preferred” foram descritas pela relação observável entre os campos: a página oficial de definições apontada pelo próprio arquivo responde 404.
- Os marcos anuais usam o valor bruto do dia 1º (ou o dia mais próximo disponível). Médias móveis dariam números levemente diferentes — em janeiro de 2020, por exemplo, 32,28% no bruto e 31,64% na média de 30 dias.
Onde conferir
Fontes: as primárias usadas neste artigo.
- APNIC Labs — série diária de IPv6 do Brasil, em JSON, com valor bruto, médias móveis e tamanho da amostra: data1.labs.apnic.net/v6stats/v6economy/BR.json
- APNIC Labs — painel de uso de IPv6 no Brasil, com os mesmos dados em gráfico: stats.labs.apnic.net/ipv6/BR
- Formato dos dados, que descreve os arquivos por país, por ASN e por região: data1.labs.apnic.net/ipv6-data-format.html
- ⚠️ Nota de fonte: os endereços das resoluções do CGI.br mudaram de formato. Os links catalogados no padrão antigo (
/resolucoes/documento/<id>) respondem 404; o padrão que funciona hoje é/resolucoes/documento/<ano>/<número>. Conferimos um a um antes de publicar. - Resoluções do CGI.br sobre IPv6 — a recomendação de implantação do protocolo (2012) e a de suporte em equipamentos (2014), entre outras: CGI.br/RES/2012/007 e CGI.br/RES/2014/008
