A Anatel mede a velocidade que chega ao aparelho do usuário separando as duas bandas do Wi-Fi, e publica o resultado por município e por prestadora. Quase ninguém olha esse número. Ele responde, sozinho, boa parte das reclamações de velocidade que chegam ao suporte.
Em julho de 2026, comparando as duas bandas no mesmo município e na mesma prestadora, com pelo menos 500 medições em cada: a de 5 GHz entregou mais download em 1.314 dos 1.314 casos. Cem por cento, sem uma única exceção.
A diferença típica é de quatro vezes: mediana de 59,70 Mbps no 2,4 GHz contra 262,96 Mbps no 5 GHz — 187,8 Mbps de diferença dentro da mesma casa, na mesma conexão.
Neste artigo
- O indicador que quase ninguém abre
- Quatro vezes, e sem exceção
- O teto do 2,4 GHz é mais baixo que o piso do 5 GHz
- O cliente contrata 500 e a banda entrega 60
- Por que isso não vira descumprimento
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
O indicador que quase ninguém abre
A base de indicadores do RQUAL traz dois tipos de linha: os Indicadores IQS, que têm valor de referência e compõem o selo, e os Informativos, que só medem e publicam. É no segundo grupo que está a medição de Wi-Fi, com quatro indicadores próprios:
- INF4-DL_2.4 e INF4-UP_2.4 — download e upload na banda de 2,4 GHz;
- INF4-DL_5 e INF4-UP_5 — download e upload na banda de 5 GHz.
São 364.311 linhas para cada um, em toda a série, com resultado em Mbps por município, por prestadora e por mês. Em julho de 2026, a medição de download cobre 1.136 municípios na banda de 2,4 GHz e 1.047 na de 5 GHz.
📌 Este é um dado que descreve a casa do cliente, não a rede da prestadora — e é justamente por isso que interessa a quem atende esse cliente.

Quatro vezes, e sem exceção
Comparar medianas nacionais não bastaria: municípios diferentes têm redes diferentes. Por isso a comparação foi feita par a par — mesmo município, mesma prestadora, mesmo mês —, o que elimina a diferença de infraestrutura entre lugares.
E, como o número de medições varia muito entre os pares, testamos o resultado exigindo amostras cada vez maiores:
- sem filtro — 2.074 pares — 5 GHz maior em 97,1% — razão de 3,72×;
- com 100+ medições em cada banda — 1.572 pares — 99,9% — 3,98×;
- com 500+ medições — 1.314 pares — 100,0% — 4,0×;
- com 1.000+ medições — 1.181 pares — 100,0% — 4,0×.
⭐⭐⭐ O resultado fica mais forte conforme a amostra aumenta, não mais fraco. É o oposto do que se espera de um artefato de medição: se a diferença fosse ruído, ela se dissolveria ao exigir mais dados. Aqui ela converge para um número exato — quatro vezes — e para a unanimidade.
O mesmo vale para o upload, com folga menor: mediana de 54,64 Mbps no 2,4 GHz contra 190,84 Mbps no 5 GHz.

O teto do 2,4 GHz é mais baixo que o piso do 5 GHz
A comparação que melhor traduz o problema para quem atende cliente não é a das medianas, e sim a das pontas da distribuição, em julho de 2026:
- 2,4 GHz — décimo percentil 26,75 Mbps · mediana 55,36 · nonagésimo percentil 161,97;
- 5 GHz — décimo percentil 104,79 Mbps · mediana 258,54 · nonagésimo percentil 302,35.
⭐⭐ Leia os dois extremos juntos: os 10% melhores resultados de 2,4 GHz (161,97 Mbps) ficam abaixo do resultado típico de 5 GHz (258,54 Mbps). E o décimo percentil do 5 GHz — o pior cenário dessa banda — já é o dobro da mediana do 2,4 GHz.
👉 Não é uma questão de ajustar a rede. O melhor caso de uma banda não alcança o caso comum da outra. Quem está em 2,4 GHz tem um teto, e o teto é baixo.
O cliente contrata 500 e a banda entrega 60
Agora o número que fecha o raciocínio. Ao analisar a base de acessos, mostramos que a velocidade mediana contratada no Brasil é de 500 Mbps.
⚠️ Coloque os dois fatos lado a lado: o plano mediano é de 500 Mbps e o Wi-Fi mediano de 2,4 GHz entrega 59,70 Mbps. O cliente paga por um serviço e mede, no aparelho dele, pouco mais de um oitavo disso — sem que haja nada de errado na rede da prestadora.
📌 É aqui que nasce a reclamação que o suporte não consegue resolver pelo telefone. O técnico testa e a entrega está correta; o cliente testa e vê um décimo. Os dois estão certos: estão medindo em pontos diferentes.
E o Regulamento Geral de Direitos do Consumidor, aprovado pela Resolução nº 765/2023, exige que a velocidade seja declarada na oferta. O art. 21, § 3º, inciso VI determina que, no registro da Oferta, sejam informadas as “velocidades de conexão, tanto de download quanto de upload”. O que se registra é a velocidade do serviço; o que o cliente experimenta é o que sobra depois do Wi-Fi.
Por que isso não vira descumprimento
⚠️ Um alerta importante para não se ler este artigo como acusação. Os indicadores INF4 são classificados pela Anatel como Informativos e não têm valor de referência — conferimos linha a linha: os campos de referência superior e inferior estão vazios em todas as 364.311 linhas de cada um.
👉 Não existe piso a cumprir na medição de Wi-Fi. Nenhuma prestadora é penalizada por um resultado baixo em 2,4 GHz, e esse número não entra na composição do selo de qualidade que tem efeito sobre a multa de fidelidade — diferentemente do cumprimento de velocidade, que tem piso e exige filtro de representatividade para ser lido corretamente.
📌 O valor do dado é outro: ele é diagnóstico, não régua. Serve para explicar ao cliente, com número oficial, por que a conta não fecha na casa dele.
O que fazer com isso
- Trate a banda como primeira pergunta do atendimento de lentidão. Antes de abrir chamado técnico, saber se o aparelho está em 2,4 ou 5 GHz separa dois problemas completamente diferentes.
- Não venda plano alto sem checar o que o Wi-Fi do cliente alcança. Acima de 200 Mbps, a banda de 2,4 GHz raramente entrega — o nonagésimo percentil dela é 161,97 Mbps.
- Use o número oficial na conversa. “A Anatel mede as duas bandas e a de 5 GHz entrega quatro vezes mais” é mais convincente que “o senhor precisa chegar perto do roteador”.
- Cheque o seu município no arquivo. O dado é por município e por prestadora — se a sua cidade está medida, o número do seu cliente está lá.
- Nomes de rede separados por banda ajudam o diagnóstico. Quando as duas bandas têm o mesmo nome, nem o cliente nem o atendente sabem em qual o aparelho entrou.
O que este artigo não diz
- Não medimos a causa da diferença. Interferência, distância, paredes, quantidade de aparelhos e capacidade do roteador influenciam, e a base não traz nenhuma dessas variáveis. Registramos a diferença, não o motivo dela.
- Os indicadores INF4 são informativos e a coluna de erro amostral deles tem comportamento diferente dos indicadores com valor de referência: a mediana do campo é 100 e há linhas com uma única medição. Foi por isso que a comparação foi feita par a par e com filtro crescente de amostra, e não pela média nacional bruta.
- Isto não mede o Wi-Fi de todos os provedores. O painel cobre as prestadoras que estão no RQUAL — sete em julho de 2026 —, e o provedor de pequeno porte é dispensado.
- Não sabemos qual aparelho fez cada medição, nem a que distância do roteador. O resultado descreve o conjunto das medições, não um cenário controlado.
- Um mês não é tendência. Analisamos julho de 2026, o mais recente da série.
- Não comparamos com a velocidade contratada de cada cliente, que a base de qualidade não traz. A comparação com os 500 Mbps é entre medianas de bases diferentes, e está declarada como tal.
Onde conferir
Fontes: a base de medição e o regulamento que trata da oferta.
- Indicadores de Qualidade (RQUAL) — os indicadores INF4 por banda, município e prestadora: anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados/qualidade/indicadores_rqual.zip
- Detalhamento dos Indicadores — a página oficial que descreve o que cada indicador mede: informacoes.anatel.gov.br/paineis/qualidade/detalhamento-dos-indicadores
- Resolução nº 765, de 6 de novembro de 2023 (RGC) — art. 21, § 3º, inciso VI, sobre a informação de velocidades de download e upload no registro da Oferta: informacoes.anatel.gov.br/legislacao/resolucoes/2023/1900-resolucao-765
- E a velocidade que o país de fato contrata, da base de acessos: mediana de 500 Mbps.
