A propaganda do setor fala em giga. A base da Anatel, que registra a velocidade contratada de cada acesso, diz outra coisa: em junho de 2026, a mediana do que o brasileiro contrata é de 500 Mbps, e apenas 4,4% dos acessos — 2.547.117 de 57,9 milhões — são de 1 Gbps ou mais. O mercado não convergiu para o giga; convergiu para a faixa dos 500 a 600 Mbps, onde estão mais de um terço de todos os contratos do país. Este artigo mostra a distribuição real, quem vende mais rápido, e por que a faixa oficial da Anatel não serve mais para essa conta.
A base traz a velocidade contratada de cada acesso desde 2021. Ponderando por número de acessos — não por plano ofertado —, a distribuição andou assim:
dezembro de 2021 — p10 10 Mbps · p25 50 · mediana 120 · p75 250 · p90 300
dezembro de 2023 — p10 34 · p25 100 · mediana 300 · p75 500 · p90 600
junho de 2026 — p10 70 · p25 300 · mediana 500 · p75 600 · p90 760
A mediana saiu de 120 para 500 Mbps em quatro anos e meio. Mas o número que diz mais sobre o mercado é o p10: a velocidade abaixo da qual está o décimo mais lento dos acessos subiu de 10 para 70 Mbps, sete vezes. O piso subiu mais rápido, proporcionalmente, do que o topo — o que aconteceu no Brasil não foi o topo puxar, foi a base sair do lugar.
Só 4,4% do mercado é giga
Distribuindo os 57,9 milhões de acessos de junho de 2026 por velocidade contratada:
abaixo de 100 Mbps — 6.255.109 acessos (10,8%)
100 a 299 Mbps — 7.871.393 (13,6%)
300 a 599 Mbps — 20.717.562 (35,8%)
600 a 999 Mbps — 20.488.972 (35,4%)
1 Gbps ou mais — 2.547.117 (4,4%)
71,2% do mercado está entre 300 e 999 Mbps. O giga, que domina o material de divulgação, é a menor das cinco faixas — menor até que a de quem ainda contrata menos de 100 Mbps.
Para quem monta grade de planos, isso muda a pergunta. A disputa real não está no plano de vitrine: está na faixa em que sete de cada dez clientes brasileiros estão, e onde 100 Mbps a mais ou a menos decide a comparação.
Acessos por velocidade contratada, em junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
As velocidades que o mercado escolheu
Os números não estão espalhados: eles se concentram em poucos degraus comerciais. As velocidades mais contratadas do país em junho de 2026:
600 Mbps — 19,0% de todos os acessos
500 Mbps — 14,6%
700 Mbps — 6,9%
300 Mbps — 6,1%
350 Mbps — 5,7%
100 Mbps — 5,4%
Um terço do Brasil inteiro (33,6%) está em apenas dois degraus: 500 e 600 Mbps. Em dezembro de 2021 os dois mais vendidos eram 200 Mbps (14,5%) e 100 Mbps (10,1%); em dezembro de 2023, 500 Mbps (15,5%) e 300 Mbps (12,0%). O degrau padrão do mercado subiu, mas continua sendo um degrau — não uma curva contínua.
Percentis da velocidade contratada, ponderados por acessos. Fonte: Anatel, dados abertos.
O independente vende 440; a grande vende 500
Separando por grupo econômico, a comparação contraria uma impressão comum no setor:
provedores independentes — mediana de 440 Mbps (34.324.328 acessos)
os quatro grupos grandes — mediana de 500 Mbps (23.555.825 acessos)
A diferença é pequena, mas o sentido é o inverso do que se costuma dizer. A explicação mais provável está na geografia: o independente atende também o município pequeno e a área rural, onde parte da base ainda é rádio ou plano de entrada — e essa cauda puxa a mediana para baixo. Nas cidades onde os dois competem em fibra, a diferença tende a desaparecer, e a base não permite afirmar mais do que isso sem descer a município.
Vale lembrar que os independentes são maioria do mercado desde junho de 2021 — a comparação aqui é entre o maior bloco e o segundo maior, não entre um grande e um pequeno.
O rádio sobrevive — a 10 Mbps
Mostramos que o rádio não morreu: são 1,9 milhão de acessos em pé. A velocidade completa esse quadro, e o completa para pior. Mediana por meio de acesso, em junho de 2026:
Cabo coaxial — 600 Mbps
Fibra — 500 Mbps
Satélite — 100 Mbps
Cabo metálico — 20 Mbps
Rádio — 10 Mbps
O rádio entrega, na mediana, um cinquentavos do que a fibra entrega. Ele resiste em número de acessos porque atende onde não há alternativa, não porque compete em produto. As duas leituras precisam andar juntas: quem disser só “o rádio não morreu” está certo e incompleto; quem disser só “rádio é 10 Mbps” está certo e também incompleto.
O coaxial aparecer acima da fibra é o outro detalhe que salta. Ele está concentrado em área urbana densa das operadoras grandes, onde os planos vendidos são mais rápidos — enquanto a fibra cobre o país inteiro, inclusive onde o plano de entrada é de 100 Mbps.
Mediana da velocidade contratada por meio de acesso. Fonte: Anatel, dados abertos.
A régua oficial parou em 2013
Um aviso para quem for refazer a conta. A base tem um campo chamado “Faixa de Velocidade”, e ele é a escolha óbvia — e errada. As faixas são: até 512 kbps, 512 kbps a 2 Mbps, 2 a 12 Mbps, 12 a 34 Mbps e “maior que 34 Mbps”.
Em junho de 2026, 94,9% de todos os acessos do Brasil estão na última faixa. Ela junta, no mesmo balde, o plano de 35 Mbps e o de 1 Gbps. A classificação foi desenhada para o mercado de uma década atrás e nunca foi refeita: em dezembro de 2013 ela funcionava, com 41,8% em “512 kbps a 2 Mbps” e só 1,4% acima de 34 Mbps.
O campo que serve é “Velocidade”, com o valor em Mbps, presente nos arquivos a partir de 2021. É por ele que este artigo foi feito — e é por isso que a série aqui começa em 2021, e não em 2007 como a de meio de acesso. Os arquivos estão no painel de Acessos da Anatel.
O que estes números não dizem
Velocidade contratada não é velocidade entregue. A base registra o plano declarado pela prestadora, não medição de desempenho. Um acesso de 600 Mbps contratados pode entregar menos.
Não é preço. A base não traz valor. Duas operações com a mesma mediana de velocidade podem ter ticket completamente diferente, e a comparação entre independentes e grandes acima não diz nada sobre receita.
A mediana esconde o interior da faixa. “300 a 599 Mbps” reúne 20,7 milhões de acessos com produtos bem diferentes entre si.
A série começa em 2021. Antes disso só existe a faixa larga demais, então não há como estender esta medição para trás sem trocar de régua no meio — o que produziria uma curva falsa.
Fonte: Anatel — Dados Abertos, painel de Acessos de Banda Larga Fixa, campo “Velocidade”, recortes de 2021 a 2026. Percentis ponderados por número de acessos. Dezembro de cada ano, exceto 2026, medido em junho — o último mês fechado.