A Anatel publicou o PERT 2025-2029, o plano que diagnostica as lacunas de conectividade do país. Dentro dele há um número que funciona como mapa de expansão para provedor regional: 925 municípios ainda não têm backhaul de fibra — e 683 deles não têm nem sequer um compromisso de atendimento.
A diferença entre os dois números é o que importa. Em 242 municípios alguém já está obrigado a chegar, por leilão ou por sanção convertida em investimento. Nos outros 683, ninguém está. Se a fibra chegar, será porque alguém decidiu ir.
Neste artigo
- Os números do backhaul, e o que eles não dizem
- A diferença entre 925 e 683
- As outras lacunas medidas
- De onde pode vir o dinheiro: o Fust depois de 2020
- O aviso: redes comunitárias entram no cardápio
- O país que já melhorou — e onde o provedor aparece
- O que fazer com isso
- O que este artigo não diz
- Onde conferir
Os números do backhaul, e o que eles não dizem
O PERT é o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações, criado em 2019, com atualizações anuais e revisões quinquenais. Esta é a revisão do ciclo 2025-2029.
No capítulo de infraestrutura, o Sumário Executivo registra, com base no Painel de Dados da Anatel:
“em 2025, 4.645 municípios já contam com Backhaul (infraestrutura) em fibra ótica, o que representa 83% do total. […] Restam 925 municípios sem fibra, sendo 683 sem compromissos de atendimento.”
⚠️ Antes de usar esse número, entenda o que ele mede. Backhaul é o transporte que leva capacidade até o município — não é backbone nacional, e não é rede de acesso ao assinante. Município com backhaul de fibra pode continuar sem oferta decente na ponta; e município sem backhaul não é necessariamente município sem internet, porque há atendimento por rádio e por satélite.
📌 O que o dado entrega, então, é uma coisa só — e é muita: onde o transporte de alta capacidade ainda não chegou por fibra. É o insumo que define se dá para vender 500 Mega naquela cidade.

A diferença entre 925 e 683
O plano diz “sem compromissos de atendimento”, e essa expressão tem lastro concreto. Compromisso de atendimento é obrigação assumida por uma prestadora perante a Agência — tipicamente em edital de licitação de radiofrequências (os compromissos de abrangência do leilão de 5G são o exemplo maior) ou em sanção convertida em obrigação de fazer.
⭐ É por isso que a distinção vale dinheiro. Nos 242 municípios que têm compromisso, uma operadora nacional vai chegar — com data. Investir ali é disputar com quem está obrigado a construir. Nos 683 restantes, não há prazo de ninguém: são exatamente as praças que o plano descreve como “áreas de menor viabilidade econômica”.
⚠️ E “sem compromisso” não quer dizer “sem concorrente”. Já mostramos que o número de prestadoras registradas num município costuma ser muito maior do que o de prestadoras que efetivamente operam nele — doze no papel, dois na prática. Antes de tratar um dos 683 como praça vazia, olhe quem já está lá de fato.
As outras lacunas medidas
O mesmo capítulo traz o resto do diagnóstico:
- 25.811 localidades rurais sem atendimento móvel e 2.289 aldeias indígenas fora da área de cobertura, além de trechos de rodovias federais e estaduais sem conectividade;
- cobertura 4G em mais de 95% da população; 5G em todas as capitais e em mais de 1.700 municípios, mas com difusão “ainda incipiente” em áreas rurais e menos densas;
- o país tem mais de 267 milhões de acessos móveis e pouco mais de 50 milhões de acessos fixos em banda larga. A densidade nacional de banda larga fixa é de 24,8 acessos por 100 habitantes;
- ⭐ na banda larga fixa, a região Sul tem densidade superior à do Sudeste — é o único serviço em que isso acontece, e é coerente com a força do provedor regional naquela região.
E, na parte de escolas, dois números que descrevem um mercado inteiro: no Norte, apenas 21,6% das escolas atingem parâmetros adequados para uso pedagógico da internet, contra 55% no Sul; e 14,3% das escolas com até 100 alunos não possuem qualquer conexão.

De onde pode vir o dinheiro: o Fust depois de 2020
O PERT sugere, para as áreas de baixo retorno, mecanismos de financiamento via Fust e simplificação regulatória. Vale saber como o Fust ficou depois da reforma.
A Lei nº 14.109, de 2020, reescreveu o art. 5º da Lei nº 9.998/2000 e revogou todos os catorze incisos que listavam as finalidades. O caput passou a dizer apenas:
“Os recursos do Fust serão aplicados em programas, projetos, planos, atividades, iniciativas e ações aprovados pelo Conselho Gestor.”
⭐ Traduzindo: a finalidade deixou de estar na lei e passou a estar na decisão do Conselho Gestor. Não adianta procurar na lei o inciso que autoriza levar fibra ao seu município — ele foi revogado. O que decide é o que o Conselho aprova, e é por isso que planos como o PERT importam: eles alimentam a fila de prioridades.
Dois dispositivos que sobreviveram e continuam úteis: o § 2º — “do total dos recursos do Fust, dezoito por cento, no mínimo, serão aplicados em educação, para os estabelecimentos públicos de ensino” (o § 1º e o § 3º foram revogados, este não); e o § 4º, com redação de 2020, que permite o uso dos recursos diretamente pela União, pelos Estados e pelos Municípios para a transformação digital dos serviços públicos, “inclusive à construção de infraestrutura necessária para conectividade”.
📌 Junte o § 2º com o dado das escolas e aparece a conta: há reserva legal mínima de 18% para educação e há 14,3% das escolas pequenas sem conexão alguma. Dinheiro reservado por lei e lacuna medida por plano — o encontro dos dois é contrato, e quem executa é provedor. Como o Fust não constrói, ele financia, é preciso conhecer a porta de entrada antes de contar com o recurso.
O aviso: redes comunitárias entram no cardápio
No capítulo de projetos, o PERT lista o “fortalecimento de redes comunitárias” — iniciativas em que “a própria comunidade planeja, implementa e mantém a rede” — e diz que elas “ganham relevância em áreas de baixo retorno financeiro”, sugerindo financiamento via Fust e simplificação regulatória.
⚠️ Leia isso ao lado dos 683. As áreas que o plano indica para rede comunitária são as mesmas em que o provedor regional avalia entrar. Não é uma ameaça, é uma sinalização de política pública — e sinalização de política pública costuma virar edital.
⭐ A leitura estratégica é nossa: quem quiser essas praças tem duas escolhas — chegar antes, ou chegar junto, como parceiro técnico da rede comunitária. O que não funciona é descobrir a política depois do edital publicado.
O país que já melhorou — e onde o provedor aparece
O plano também registra o avanço, com fonte externa. Pelos dados da Ookla, o Brasil saiu de uma mediana de download móvel de 17,34 Mbps em maio de 2020, na 83ª posição mundial, para 222 Mbps em maio de 2025, na 6ª posição. Na rede fixa, 201 Mbps em julho de 2025, o que coloca o país em 27º lugar.
Na dimensão de preço, aplicando as cestas do ITU ICT Price Baskets 2024, o plano conclui que a razão preço/PIB per capita das ofertas de entrada fica abaixo de 2% no Brasil, tanto na banda larga fixa quanto na móvel — dentro da meta de acessibilidade da Broadband Commission.
📌 Vale dizer o óbvio que o plano não diz: os 201 Mbps de mediana fixa e a acessibilidade de preço não foram construídos pelas concessionárias. Foram construídos por quem levou fibra ao interior — e a conta de quem investiu está no retrato econômico das prestadoras de pequeno porte, que respondem por dois terços do Capex do setor.
O que fazer com isso
- Cruze a sua área de interesse com os 925. O PERT não lista os municípios no Sumário Executivo, mas o Painel de Dados de Infraestrutura da Anatel, que ele cita como fonte, permite ver município a município.
- Separe os 683 dos 242. Praça com compromisso tem prazo de terceiro; praça sem compromisso não tem. São decisões de investimento diferentes.
- Confira quem já opera de fato antes de chamar de praça vazia — registro não é operação.
- Olhe as escolas da sua região. Há reserva legal mínima de 18% do Fust para educação pública e há 14,3% das escolas pequenas sem conexão.
- Acompanhe o Conselho Gestor do Fust, não a lei. Depois de 2020, a finalidade do recurso está no que o Conselho aprova.
- Arrume a documentação do seu transporte. Quem cresce em backhaul entra no radar do procedimento de fiscalização — vale conhecer as cinco inconsistências que a Anatel procura no backbone.
O que este artigo não diz
Não temos a lista dos 925 municípios. O Sumário Executivo traz o total e o mapa, não a relação nominal. Quem precisa da lista tem de ir ao painel de infraestrutura da Agência.
Não conferimos os 683 contra os compromissos um a um. Reproduzimos a contagem do plano; não cruzamos com os editais de radiofrequência nem com as obrigações de fazer vigentes.
O total de 5.570 municípios é do IBGE, não do PERT. O plano informa o percentual de 83% e os valores absolutos; a soma de referência é conhecimento externo, e a citamos para dar escala.
Lemos o Sumário Executivo, não o plano completo. O PERT tem versão integral, e ela detalha metodologia e projetos além do que está aqui.
Não avaliamos os dados da Ookla. São medições de terceiro, citadas pelo plano; não temos como auditar a amostra.
Não afirmamos que haverá edital de rede comunitária. O plano sugere mecanismos; sugestão em plano não é chamada pública.
Onde conferir
Fontes: Anatel — PERT 2025-2029 — Sumário Executivo, de onde vêm os 4.645 municípios com backhaul de fibra (83% do total), os 925 sem fibra e os 683 sem compromissos de atendimento; as 25.811 localidades rurais sem atendimento e as 2.289 aldeias indígenas fora da cobertura; a cobertura 4G acima de 95% da população e o 5G em mais de 1.700 municípios; os mais de 267 milhões de acessos móveis e os pouco mais de 50 milhões de acessos fixos em banda larga, com densidade de 24,8 acessos de SCM por 100 habitantes e o destaque de o Sul superar o Sudeste em banda larga fixa; os dados da Ookla de 17,34 Mbps e 83º lugar em 2020 contra 222 Mbps e 6º em 2025 no móvel, e 201 Mbps com 27º lugar no fixo; a conclusão sobre preço/PIB per capita abaixo de 2% pelas cestas do ITU ICT Price Baskets 2024; os 21,6% de escolas do Norte em parâmetro adequado contra 55% no Sul e os 14,3% das escolas de até 100 alunos sem conexão; e a proposta de fortalecimento de redes comunitárias com financiamento via Fust e simplificação regulatória. O próprio plano indica como fonte dos números de backhaul o Painel de Dados de Infraestrutura da Anatel. Presidência da República — Lei nº 9.998, de 17 de agosto de 2000, que institui o Fust: art. 5º, caput, na redação da Lei nº 14.109/2020 (aplicação conforme aprovação do Conselho Gestor, com os catorze incisos revogados), § 2º (mínimo de 18% em educação, dispositivo que não traz marca de revogação no texto compilado) e § 4º, na redação de 2020 (uso direto por União, Estados e Municípios, inclusive para construção de infraestrutura de conectividade). A distinção entre os 683 e os 242 municípios como duas decisões de investimento diferentes, a leitura de que a finalidade do Fust migrou da lei para o Conselho Gestor e o alerta sobre a coincidência entre as áreas de rede comunitária e as praças sem compromisso são nossos. Documentos lidos em 9 de setembro de 2026.
