12 provedores no papel, 2 na pratica

Quem abre a base de acessos da Anatel e conta quantas prestadoras declaram em cada município encontra um mercado disputadíssimo: a mediana é de 12 prestadoras por município, e não existe um único município brasileiro com menos de três. O número é verdadeiro e não serve para nada. Aplicando um corte de 200 acessos — o mínimo para chamar de operação, e não de presença —, a mediana cai de 12 para 2, e 1.994 municípios (35,8% do país) ficam com no máximo um provedor de verdade. Este artigo mostra a diferença entre os dois mapas, quem são os dez que somem no meio do caminho, e por que a oportunidade que isso sugere é menor do que parece.

Neste artigo

No papel: 12 prestadoras por município

Em junho de 2026, 5.571 municípios têm acesso de banda larga fixa declarado. Contando CNPJs distintos que declararam pelo menos um acesso em cada um:

  • mediana de 12 prestadoras por município
  • o mínimo do país é 3 — não há município com uma ou duas
  • o máximo é 940
  • 993 municípios têm 20 ou mais

Lido assim, o Brasil inteiro é um mercado competitivo, inclusive na cidade de dois mil habitantes. Qualquer pessoa que conheça o interior sabe que isso não descreve a realidade — e a base tem como mostrar por quê.

Na prática: 2

A diferença está em separar quem atende de quem apenas consta. Refazendo a mesma contagem, mas exigindo pelo menos 200 acessos da prestadora naquele município:

  • mediana cai de 12 para 2 prestadoras
  • 1.994 municípios (35,8%) ficam com uma ou nenhuma
  • municípios com 20 ou mais caem de 993 para 91

Com um corte intermediário, de 50 acessos, a mediana fica em 3 e 790 municípios ficam com uma ou nenhuma. O sentido não muda com o corte escolhido: a maior parte das prestadoras que “estão” num município não opera ali.

Gráfico da mediana conforme o corte
Mediana de prestadoras por município conforme o corte de acessos exigido. Fonte: Anatel, dados abertos.

Quem são os dez que somem

Não é mistério, e o nome de cada um está na base. Contando em quantos municípios cada empresa aparece com menos de 200 acessos, contra em quantos aparece com operação de verdade:

  • Oi — 5.392 municípios com presença residual · 106 com operação real
  • Claro — 5.296 · 147
  • Hughes (satélite) — 4.953 · 80
  • Starlink — 4.530 · 974
  • Telebras — 3.196 · 2
  • Viasat — 2.179 · 1
  • Sencinet — 2.065 · zero

São dois fenômenos somados. O satélite cobre o país inteiro por natureza, então aparece em quase todo município com um punhado de assinantes — e a Starlink é a exceção que confirma a régua, porque em 974 municípios ela já passou dos 200 acessos. E há o resíduo de incumbente: a Oi consta em 5.392 municípios e opera em 106, o que é o retrato da rede de cobre desativada que caiu 95,8% desde 2016, deixando dezenas de contratos por cidade.

Tabela de presença residual e operação real
Presença residual contra operação real, por empresa. Fonte: Anatel, dados abertos.

1.994 municípios com no máximo um provedor

Distribuindo os 5.571 municípios pelo número de prestadoras com operação real:

  • 649 (11,6%)nenhuma prestadora acima de 200 acessos
  • 1.345 (24,1%) — exatamente uma
  • 1.291 (23,2%) — duas
  • 820 (14,7%) — três
  • 446 (8,0%) — oito ou mais

Um em cada quatro municípios brasileiros é atendido, de fato, por um único provedor. Em outro em cada nove, ninguém passou dos 200 acessos. Para quem avalia expansão, é aqui que a base deixa de ser estatística e vira lista de endereços: os nomes estão todos lá, com CNPJ e município.

Gráfico da distribuição de provedores por município
Municípios por número de prestadoras com operação real. Fonte: Anatel, dados abertos.

A parte que desinfla a oportunidade

E é aqui que a leitura precisa parar de animar. Esses 1.994 municípios somam 1.385.684 acessos — 2,4% do Brasil. A mediana de acessos neles é de 526, contra 1.717 num município qualquer.

Ou seja: 36% dos municípios do país abrigam 2,4% do mercado. Eles estão sem concorrência porque são pequenos, e são pequenos o bastante para que a conta de levar rede até lá seja difícil — que é a razão de estarem sem concorrência. Não é um mercado esquecido; é um mercado que já foi avaliado por alguém e recusado.

Isso não anula a oportunidade, mas muda o tipo de pergunta. Não é “onde ninguém chegou”, e sim “onde ninguém chegou e a minha estrutura de custo é diferente da de quem desistiu” — proximidade de backbone, rede já passando perto, contrato público ancorando a operação. A base responde a primeira metade da pergunta; a segunda é da empresa.

Como fazer essa conta para o seu município

Três passos, com o arquivo de acessos de banda larga fixa do painel de Acessos da Anatel:

1. Filtre pelo Código IBGE, não pelo nome. Os 5.571 municípios aparecem com apenas 5.297 nomes distintos — há homônimos em estados diferentes, e agrupar por nome funde cidades que nada têm a ver.

2. Some por CNPJ dentro do município e só então aplique o corte. A base tem uma linha por combinação de tecnologia, faixa e tipo de pessoa: contar linhas em vez de somar por CNPJ multiplica o número de “concorrentes”.

3. Escolha o corte e diga qual usou. Usamos 200 acessos, e o número muda com ele — com 50, são 790 municípios com uma ou nenhuma; com 200, 1.994. O corte é uma escolha editorial, não um dado, e por isso está declarado aqui.

O que sai disso: quem realmente opera na sua cidade e nas vizinhas, com quantos clientes cada um, em qual tecnologia — a mesma base que mostra que o pequeno porte tem 59% do mercado e que a mediana contratada é de 500 Mbps.

O que estes números não dizem

O corte de 200 acessos é arbitrário. Escolhemos por ser o menor número que ainda descreve uma operação com estrutura local. Com outro corte, os totais mudam — o sentido, não.

Presença residual não é irrelevante para o cliente. Quem depende do satélite numa área sem fibra é atendido de verdade, mesmo que a operadora tenha 30 assinantes no município. O corte serve para medir concorrência entre operações, não para dizer que aquele acesso não existe.

Município não é mercado. Uma cidade grande pode ter bairros com um provedor só, e municípios vizinhos podem formar uma área única de operação. A base permite descer a esse detalhe; este artigo não desceu.

É junho de 2026. Base declaratória, mês fechado — o mês mais recente está sempre incompleto porque a coleta ainda está aberta.

Fonte: Anatel — Dados Abertos, painel de Acessos de Banda Larga Fixa, junho de 2026. Contagem de CNPJs distintos por Código IBGE, com e sem corte de 200 acessos. Apuração própria.

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