Se você olhar a base de acessos da Anatel e somar tudo que está marcado como “Pequeno Porte”, vai concluir que o provedor regional tem 72,4% da banda larga fixa em Santa Catarina e 63,4% no Paraná. É o número que circula. E ele está inflado: dentro desse rótulo estão UNIFIQUE, VERO, Brasil TECPAR e LIGGA — grupos que sozinhos somam centenas de milhares de acessos. Descontando os grupos econômicos nomeados, o provedor independente fica com 41,4% em SC e 48,6% no PR. São 31 pontos de diferença em Santa Catarina, e uma inversão: o Paraná passa à frente. Este artigo mostra a conta, mês a mês, com o arquivo aberto.
Neste artigo
- O que foi medido, e por que em junho
- “Pequeno Porte” é classificação regulatória, não tamanho
- Paraná e Santa Catarina, lado a lado
- Onde o independente é mais forte — e não é onde parece
- A mediana é de 356 acessos no PR e 468 em SC
- O dado que não muda: todos os municípios
- O que isso muda para quem opera
- Como refazer esta conta
- O que estes números não dizem
O que foi medido, e por que em junho
A fonte é a base pública de Acessos de Banda Larga Fixa da Anatel, que traz uma linha por combinação de CNPJ, município, tecnologia e faixa de velocidade, com os acessos de cada mês. Usamos o arquivo de 2026, que vai até julho. É a mesma base que já usamos para medir quantos provedores vendem também voz ou TV.
Mas a conta é de junho, não de julho — e isso é deliberado. Base declaratória tem o último mês sempre incompleto, porque nem todo mundo já declarou. Dá para ver contando quem declarou:
- Paraná — 849 CNPJs em abril, 864 em maio, 867 em junho, e 820 em julho.
- Santa Catarina — 496, 493, 490 em junho, e 485 em julho.
Julho tem 47 declarantes a menos no PR. Quem usar julho vai anunciar uma queda de 160 mil acessos no estado que não aconteceu: é gente que ainda não entregou. Junho é o último mês fechado.
“Pequeno Porte” é classificação regulatória, não tamanho
Aqui está o ponto que estraga a maioria das leituras dessa base. A coluna Porte da Prestadora tem só dois valores, “Pequeno Porte” e “Grande Porte”, e ela reflete o enquadramento regulatório — não o tamanho da operação.
Na prática, isso quer dizer que estão marcadas como “Pequeno Porte”, em junho de 2026:
- UNIFIQUE, com 701.592 acessos em SC — sozinha, 30% de tudo que o estado tem sob esse rótulo;
- LIGGA TELECOM, com 348.693 no PR;
- VERO (180.238) e Brasil TECPAR (104.120), em SC.
A própria base permite separar: a coluna Grupo Econômico nomeia os grupos que a Agência acompanha e marca todo o resto como “OUTROS”. Em Santa Catarina, 470 dos 484 CNPJs de pequeno porte estão em “OUTROS”; no Paraná, 846 de 861. É esse conjunto que corresponde ao provedor regional independente — e é ele que medimos daqui para frente.
Paraná e Santa Catarina, lado a lado
Com os dois recortes na mesma tabela, a diferença fica evidente. O rótulo dá uma leitura; o independente dá outra.
Duas leituras merecem destaque. Primeira: em SC a diferença entre o rótulo e o independente é de 31 pontos (72,4% contra 41,4%) — é o efeito de ter a UNIFIQUE dentro da conta. No PR a diferença é de 15 pontos (63,4% contra 48,6%), porque a LIGGA pesa menos no total do estado.
Segunda: a ordem se inverte. Pelo rótulo, SC parece muito à frente do PR. Pelo independente, o Paraná fica em 48,6% e Santa Catarina em 41,4%. Quem descreve o mercado do Sul com o número do rótulo descreve o estado errado.

Onde o independente é mais forte — e não é onde parece
Fizemos a mesma conta para os 27 estados, e o resultado desmonta uma segunda ideia comum.
Pelo rótulo “Pequeno Porte”, os líderes são Rio Grande do Norte (87,9%), Ceará (87,2%), Piauí (85,7%) e Paraíba (85,0%) — o Nordeste na frente, com o Sul lá atrás. É a leitura que se costuma repetir.
Descontando os grupos nomeados, a ordem muda de lugar: RN cai de 87,9% para 35,3% e CE cai de 87,2% para 41,0%, enquanto RS fica em 51,3% e PR em 48,6%. Entre os estados grandes, é no Sul que o provedor independente tem a maior fatia do próprio mercado — o contrário do que o rótulo sugere.
Para referência, o extremo oposto é São Paulo, com 23,8%: o estado tem 2.183 provedores independentes, o maior número do país, e ainda assim eles ficam com menos de um quarto dos acessos, porque a base do estado é gigante e concentrada.

A mediana é de 356 acessos no PR e 468 em SC
Média engana quando há um gigante na amostra, então vale olhar a distribuição inteira. Entre os independentes, em junho de 2026:
- Paraná — 846 CNPJs, média de 2.302 acessos, mediana de 356. 55,7% têm até 500 acessos. Só 6 passam de 50 mil.
- Santa Catarina — 470 CNPJs, média de 2.863, mediana de 468. 51,1% têm até 500 acessos. Só 2 passam de 50 mil.
A distância entre média e mediana conta a história: a média é seis vezes a mediana nos dois estados. O mercado independente não é formado por empresas de porte médio — é formado por muitas operações de algumas centenas de acessos e um punhado de empresas de dezenas de milhares.
Os maiores independentes de cada estado, em junho: no PR, Direct Internet (124.575), Ampernet (123.664) e IRED TELECOM (83.027); em SC, Mhnet Telecom (106.171), Ateky Internet (57.879) e P4 NET TELECOM (38.300).
Sobre tecnologia, os dois estados são de fibra, com uma diferença real: no pequeno porte do PR o FTTH é 90,4% dos acessos; em SC é 84,1%, com 10,8% em Ethernet — quase o triplo da participação paranaense nessa tecnologia.

O dado que não muda: todos os municípios
Há um número que não se move em nenhum dos recortes. Em junho de 2026, considerando o país inteiro, os provedores de pequeno porte declararam acessos em 5.571 de 5.571 municípios com qualquer acesso declarado. Todos.
No Paraná são 399 municípios e em Santa Catarina, 295 — em ambos os casos, o total de municípios do estado. Não há município paranaense ou catarinense com banda larga fixa declarada onde não haja provedor de pequeno porte.
Vale dizer o que esse número é e o que não é: ele mostra presença, não participação de mercado nem qualidade de atendimento. Mas presença universal é um fato incomum, e é o argumento mais sólido do setor quando se discute política pública de conectividade.
O que isso muda para quem opera
1. Cuidado ao citar “pequeno porte” em pleito ou defesa. Se o argumento depende do peso do segmento, use o recorte de grupo econômico. Alguém do outro lado vai notar que a UNIFIQUE está na conta, e o argumento inteiro cai junto.
2. O comparativo com o vizinho provavelmente está errado. Quem se compara com “a média do pequeno porte de SC” está se comparando com uma média puxada por uma empresa de 700 mil acessos. A mediana — 468 acessos — descreve muito melhor a realidade da maioria.
3. O enquadramento como PPP tem consequência regulatória própria. Estar na faixa de pequeno porte muda obrigações e prazos; é o que está detalhado no guia das obrigações das prestadoras de pequeno porte. O rótulo serve para isso — não para medir mercado.
4. Declare no mês certo. Os 47 declarantes que faltavam no Paraná em julho não sumiram: atrasaram. Quem não declara vira “queda do estado” em relatório de terceiro, e a base é a mesma que alimenta a declaração de informações no DICI.
5. Fibra já é o padrão, e Ethernet ainda pesa em SC. Com 84,1% de FTTH e 10,8% de Ethernet, quem opera em Santa Catarina ainda tem base legada relevante para migrar — e isso é decisão de investimento, não de regulação.
Como refazer esta conta
O arquivo é público e não exige cadastro. Três cuidados que fizeram diferença aqui:
1. Não use o último mês. Confira o número de CNPJs declarantes por mês antes de escolher. Se o último mês tem menos declarantes que o anterior, ele está incompleto — e qualquer variação que você calcular vai medir atraso de declaração, não mercado.
2. Separe o rótulo do grupo econômico. Filtrar só por Porte da Prestadora = Pequeno Porte mistura provedor de 300 acessos com grupo de 700 mil. O campo Grupo Econômico, com o valor “OUTROS”, é o que isola o independente.
3. Conte CNPJ, não linha. A base tem várias linhas por empresa — uma por município, tecnologia e faixa de velocidade. Contar linhas dá um número muito maior e sem significado.
O que estes números não dizem
CNPJ não é necessariamente empresa. Contamos CNPJs declarantes. A base não permite identificar dono comum entre os independentes, porque 470 dos 484 CNPJs catarinenses estão agrupados sob “OUTROS”. Se houver grupos informais com vários CNPJs, o número de operações independentes é menor do que o de CNPJs.
É um retrato de um mês. Junho de 2026. Não é tendência, não é série histórica, e não projeta nada para os meses seguintes.
Acesso não é receita nem cliente. A base conta acessos declarados. Um cliente pode ter mais de um acesso, e acesso não diz nada sobre preço, margem ou inadimplência.
É base declaratória. Os números são o que as prestadoras informaram. Erro de declaração entra na conta como se fosse mercado — e é por isso que a checagem do número de declarantes por mês, feita acima, é obrigatória.
Não medimos qualidade nem cobertura efetiva. “Ter acesso declarado no município” não significa atender o município inteiro.
Fonte: Anatel — Acessos de Banda Larga Fixa, arquivo de 2026, mês de junho. Apuração própria sobre o arquivo completo, CNPJ a CNPJ.
