Trocar tráfego direto com outras redes, em vez de comprar tudo como trânsito, é uma das poucas decisões que mexem ao mesmo tempo no custo e na qualidade de um provedor. No Brasil isso acontece nas localidades do IX.br. Fomos contar quantas são e cruzar com a base da Anatel: são 39 localidades, em 26 das 27 unidades da federação — e 65,5% dos provedores independentes do país não operam em nenhuma cidade que tenha uma. O contraste mais nítido está no Sul: o Paraná tem cinco pontos, Santa Catarina tem um.
Neste artigo
- O que foi medido, e como
- Onde estão os 39 pontos
- Dois sentidos de “PoP” — e por que isso muda a leitura
- O alcance: 39 municípios de 5.571
- Presença não é adesão: só 20,9% estão conectados
- O contraste do Sul: 5 pontos contra 1
- O que isso muda para o provedor
- Como conferir — e o que não deu para conferir
- O que estes números não dizem
O que foi medido, e como
Duas fontes públicas, cruzadas por município.
A primeira é a lista de localidades do IX.br, o projeto de pontos de troca de tráfego do NIC.br, consultada em 2 de setembro de 2026. A segunda é a base de Acessos de Banda Larga Fixa da Anatel, no mês de junho de 2026 — o último mês fechado, pelo critério que já explicamos ao medir o mercado de provedores no PR e em SC: o mês mais recente sempre tem declarante faltando.
O recorte de “provedor independente” é o mesmo daquele artigo: prestadoras de pequeno porte fora dos grupos econômicos nomeados pela Anatel. São 10.394 CNPJs em junho de 2026.
O cruzamento é simples e a pergunta também: o provedor declara acesso em algum município que tenha localidade do IX.br?
Onde estão os 39 pontos
A distribuição por estado é bem mais desigual do que o número total sugere:
- Paraná — 5: Cascavel, Curitiba, Foz do Iguaçu, Londrina e Maringá. É o estado com mais pontos do país.
- Rio Grande do Sul — 4: Caxias do Sul, Lajeado, Porto Alegre e Santa Maria.
- São Paulo — 4: Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e São Paulo.
- Bahia, Paraíba e Pernambuco — 2 cada: Feira de Santana e Salvador; Campina Grande e João Pessoa; Caruaru e Recife.
- Os demais 20 estados e o Distrito Federal — 1 cada.
E há uma ausência: o Amapá é a única unidade da federação sem nenhuma localidade do IX.br. Vinte e seis das vinte e sete têm ao menos uma — a cobertura por estado é quase completa. O problema não é o mapa dos estados; é a distância dentro deles.

Dois sentidos de “PoP” — e por que isso muda a leitura
Antes dos números, um acerto de vocabulário que evita ler o dado errado. A sigla PoP — point of presence, ponto de presença — é usada no setor de telecom com dois sentidos bem diferentes, e este artigo trata de um só.
- O PoP do provedor. No dia a dia de quem opera uma rede de telecom, “PoP” é o imóvel do próprio provedor onde ficam os equipamentos que atendem uma região: o rack, a fonte, o nobreak, o OLT, o roteador de borda. Uma empresa tem vários — um por bairro, por distrito, por cidade atendida.
- A localidade do IX.br. É o ponto de troca de tráfego, onde redes de operadores diferentes se encontram para trocar tráfego entre si. Não é do provedor: é o lugar neutro onde ele encontra os outros.
Ter dez PoPs próprios não aproxima ninguém de um ponto de troca. São camadas distintas da mesma rede, e o número deste artigo — 39 — é de localidades do IX.br, não de pontos de presença de provedores.
E quantos PoPs de provedor existem no Brasil? Ninguém sabe, e não é modo de dizer. Nenhuma das três bases públicas usadas aqui registra isso: o IX.br lista localidades e participantes; a base de acessos da Anatel registra município, tecnologia e faixa de velocidade, nunca a instalação; o arquivo do Registro.br traz ASN, titular e blocos de endereços, nunca imóveis. Não há base pública que conte os pontos de presença das empresas de telecom no país — então qualquer número que apareça por aí sobre isso é estimativa, não medição.
O alcance: 39 municípios de 5.571
Em junho de 2026 havia acesso de banda larga fixa declarado em 5.571 municípios. Os pontos de troca de tráfego estão em 39 deles — 0,70%.
Traduzido para empresas, entre os 10.394 provedores independentes:
- 3.587 (34,5%) declaram acesso em pelo menos uma cidade que tem localidade do IX.br;
- 6.807 (65,5%) não declaram em nenhuma.
Ou seja: para dois em cada três provedores independentes, chegar a um ponto de troca de tráfego significa contratar transporte até outra cidade. É a diferença entre “existe um PoP no meu estado” e “existe um PoP onde eu opero”.
Mas esse número mede onde a empresa opera, não se ela está conectada. E as duas coisas, medidas separadamente, contam histórias diferentes — como se vê a seguir.
Presença não é adesão: só 20,9% estão conectados
Cruzando as listas de participantes das 39 localidades com o arquivo de numeração do Registro.br (que liga cada ASN ao CNPJ do titular) e com a base da Anatel, dá para sair da geografia e medir a adesão real.
São 3.768 sistemas autônomos conectados ao IX.br, dos quais 3.500 (92,9%) constam na base brasileira do Registro.br — o restante é estrangeiro ou não consta. Levando isso aos 10.394 provedores independentes:
- 2.169 (20,9%) estão conectados a alguma localidade do IX.br com ASN próprio;
- 8.222 (79,1%) não estão.
A distância explica menos do que parece. Separando os dois grupos:
- dos 3.587 que operam em cidade com PoP, 1.093 estão conectados — 30,5%;
- dos 6.807 que não operam, 1.076 estão conectados — 15,8%.
Estar na cidade certa quase dobra a taxa de conexão. Mas repare no outro lado da mesma conta, que é o achado: dos 2.169 conectados, 1.076 — quase metade — não operam em nenhuma cidade com PoP. Eles contrataram transporte e se conectaram assim mesmo.
E o espelho disso: entre os que já estão na cidade do ponto de troca, 69,5% não se conectam. Se a distância fosse o obstáculo dominante, esse número seria pequeno. Não é.
A leitura honesta: a distância é um fator, não a explicação. O que separa quem peera de quem não peera passa por ter ASN e bloco próprios, por porte, por decisão comercial — coisas que este levantamento não mede.


O contraste do Sul: 5 pontos contra 1
O par Paraná–Santa Catarina mostra o efeito com clareza, porque os dois estados têm perfil parecido de mercado e resultados muito diferentes aqui:
- Paraná — 846 provedores independentes, 326 (38,5%) em cidade com localidade do IX.br. Cinco pontos, e três deles no interior: Cascavel, Londrina e Maringá.
- Santa Catarina — 470 independentes, 64 (13,6%) em cidade com localidade. Um único ponto, em Florianópolis, e o mercado catarinense é fortemente interiorano.
- Para referência: São Paulo 49,8% e Rio Grande do Sul 34,1%.
E aqui a adesão inverte o quadro. Medindo quem está de fato conectado, e não quem está perto, Santa Catarina lidera: 163 dos seus 470 independentes, 34,7% — a maior taxa entre os estados grandes, com um único ponto e a menor proximidade geográfica do país. Para comparar: SP 33,6% (733 de 2.183), RS 32,3% (239 de 740), PR 26,5% (224 de 846), MG 25,0% e CE 24,3%.
Ou seja: o estado com menos provedores perto de um ponto de troca é o que tem mais provedores conectados a um. O provedor catarinense contrata transporte e vai — e isso não se via olhando só o mapa.
É tentador ligar a distribuição dos pontos ao fato de que, no mesmo levantamento de junho, o Paraná tem a maior fatia de provedores independentes entre os estados do Sul (48,6%, contra 41,4% de SC). Mas não afirmamos causa. Pontos de troca de tráfego podem ter surgido onde já havia muitos provedores, e não o contrário. O que os números mostram é a coincidência dos dois mapas — quem quiser afirmar direção precisa de outro estudo.


O que isso muda para o provedor
1. A conta de peering começa no transporte, não na porta. Se você é um dos 65,5%, o primeiro número do orçamento não é o do IX.br: é o do circuito até a cidade onde ele está. Comparar só o preço da porta com o preço do trânsito leva à decisão errada.
2. Interior com ponto próprio muda o jogo. Cascavel, Londrina, Maringá, Caxias do Sul, Lajeado, Santa Maria, Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Feira de Santana, Campina Grande e Caruaru são localidades fora de capital. Para quem opera perto delas, a distância deixa de ser o item dominante.
3. Trocar tráfego é assunto de quem tem ASN. Participar de ponto de troca pressupõe sistema autônomo e bloco próprio — o que já tratamos em o que é ASN e nos recursos de numeração no Registro.br e do ASN. Aqueles textos explicam o que é e como obter; este mede onde dá para usar.
4. Ter ASN traz dever legal junto. Vale lembrar que o administrador de sistema autônomo é o obrigado a guardar registros de conexão — e essa obrigação mudou em 2026, passando a incluir a porta lógica de origem. Rede própria vem com responsabilidade própria.
Como conferir — e o que não deu para conferir
A lista de localidades é pública e está no site do IX.br. A base da Anatel também. O cruzamento é por nome de município e UF, normalizando acentos.
Nota de correção (02/09/2026, 22h). A primeira versão deste artigo dizia que a lista de participantes do IX.br não era obtível — a página retornava “0 participantes” mesmo em navegador real, e nós declaramos isso em vez de estimar. Horas depois a listagem voltou a responder, e refizemos o levantamento. A seção acima, com a adesão medida, é o resultado. Mantemos o registro do erro porque ele é instrutivo: “não consegui obter” não é o mesmo que “não existe”, e a diferença entre os dois é uma nova tentativa.
Para refazer a adesão, o caminho é o cruzamento de três bases por chave exata: a lista de participantes do IX.br dá o ASN; o arquivo de numeração do Registro.br liga ASN a CNPJ; e a base da Anatel diz quais CNPJs são provedores independentes. Sem o arquivo do Registro.br não haveria como fazer a ponte — casar por nome de empresa produziria número, não medida.
O que estes números não dizem
“Conectado” aqui significa ter ASN próprio no IX.br. Um provedor pode trocar tráfego por meio de terceiro — trânsito, revenda, ASN de parceiro — sem aparecer como participante. Esses casos contam como “não conectado” neste levantamento, e não temos como medi-los.
A ponte é o CNPJ do titular do ASN. Se o ASN está no nome de outra empresa do grupo, o cruzamento não casa. Medimos também pela raiz do CNPJ (8 dígitos) e a diferença foi de 3 empresas em 10.394 — pequena, mas existe.
Não medimos distância real. Um provedor a 30 km de Curitiba conta como “fora”, e um provedor num município enorme conta como “dentro”. Município é a unidade da base, não a régua da fibra.
Não medimos custo. Não há preço de porta, de transporte nem de trânsito neste levantamento. A conclusão sobre orçamento é de estrutura, não de valor.
É um retrato de junho de 2026, com a lista de localidades consultada em setembro. Novas localidades entram; confira antes de decidir.
Base declaratória. Os acessos são o que as prestadoras informaram à Anatel.
Fontes: IX.br — participantes e seletor de localidades (a lista das 39 localidades aparece no seletor desta página; a rota /localidades/atuais é montada por JavaScript e não devolve a lista a quem consulta por fora do navegador) (NIC.br), consulta em 02/09/2026; e Anatel — Acessos de Banda Larga Fixa, junho de 2026. Cruzamento próprio, CNPJ a CNPJ.
