O índice de conectividade da Anatel mudou de metodologia em 2024 — e o arquivo de dados não avisa

A Anatel publica um índice de conectividade município por município, com cinco anos de série e oito indicadores — inclusive um de concentração do mercado de banda larga fixa em cada cidade. Chama-se Índice Brasileiro de Conectividade (IBC), está em dados abertos, e é o tipo de material que um provedor usaria para decidir onde investir.

Há uma armadilha, e ela é grande: a metodologia mudou em 2024. Quem baixar o arquivo e montar a série de 2021 a 2025 vai ver a concentração da banda larga fixa “subir” 34% de um ano para o outro, a do celular “cair” 29% e a densidade móvel “saltar” 45%. Nada disso é movimento de mercado.

A Anatel avisa — mas o aviso está na página do painel, não no arquivo de dados. Quem consome o CSV não vê.

Neste artigo

O que é o IBC, e o que ele mede

O IBC é um índice sintético que resume a conectividade de cada município numa nota. O arquivo aberto traz 5.570 municípios × 5 anos = 27.850 linhas, em quatro CSVs — municípios e unidades da federação, cada um em versão original e normalizada (esta em escala de 0 a 100).

As colunas são: IBC, Cobertura Pop. 4G5G, Densidade SMP, HHI SMP, Densidade SCM, HHI SCM, Adensamento de Estações, Fibra e Cobertura de área agricultável.

Os dois “HHI” são o que há de mais interessante ali para quem opera. HHI é o índice Herfindahl-Hirschman, medida clássica de concentração de mercado: quanto maior, menos competitivo. Ter isso por município, para banda larga fixa, é uma régua de competição local que raramente se encontra pronta — e complementa o que já mostramos sobre a diferença entre os provedores no papel e os que realmente atendem em cada cidade.

Os dados vêm de três fontes: Anatel, IBGE e Ministério da Agricultura e Pecuária. Sete das oito variáveis são calculadas pela Anatel; a exceção é a de cobertura em área agrícola, elaborada pela associação ConectarAgro em conjunto com a Universidade Federal de Viçosa.

Tabela com a mediana dos indicadores do indice de conectividade da Anatel de 2021 a 2025
A mediana de cada indicador ano a ano, com o degrau que aparece em 2024.

A quebra que aparece nos dados

Baixamos o arquivo e calculamos a mediana de cada indicador, ano a ano. O resultado tem um degrau em 2024 que não passa despercebido:

  • Densidade SMP: 47,42 → 51,20 → 53,65 → 77,66 → 79,13;
  • HHI SMP: 5.627 → 5.780 → 5.926 → 4.199 → 4.327;
  • HHI SCM: 4.384 → 4.346 → 4.253 → 5.718 → 5.845;
  • Cobertura de área agricultável: vazia em 2021, 2022 e 2023; 0,63 em 2024 e 62,99 em 2025.

⚠️ Três indicadores viram de direção no mesmo ano, e um só passa a existir ali. Some-se um detalhe que sozinho já acenderia o alerta: a última coluna muda de escala entre 2024 e 2025 — de fração para percentual.

E há um sinal interno que confirma que não é mercado: a contagem de municípios com HHI de banda larga abaixo de 1.500 — o patamar em que um mercado é considerado desconcentrado — pula de 44 em 2023 para 321 em 2024. Ao mesmo tempo, a mediana sobe. Mais municípios muito competitivos e o conjunto mais concentrado é o retrato de uma régua que mudou, não de um mercado que mudou.

O que a Anatel diz — e onde ela diz

Fomos à página do painel, e a explicação está lá, em duas linhas:

IBC a partir de 2024 — Em 2024 a metodologia do IBC foi alterada, com inserção de nova variável e mudanças no cálculo, ponderação e normalização dos indicadores. Confira o Relatório Metodológico para mais detalhes.”

A página mantém, separadamente, o Relatório Metodológico da versão nova e o Relatório Metodológico (2021 a 2023) da anterior — sinal de que a própria Agência trata as duas como versões distintas.

📌 O problema não é a mudança: é onde o aviso está. O arquivo de dados abertos — os quatro CSVs dentro do ZIP — não traz nenhuma marca de versão, nenhuma coluna indicando a metodologia aplicada, nenhum README. Quem baixa o ZIP direto, como fizemos, recebe cinco anos numa mesma tabela, como se fossem comparáveis. É o mesmo tipo de lacuna que já apontamos quando a Agência abriu suas bases: publicar o dado é um passo, sinalizar a ruptura de série é outro — e vale lembrar que a Anatel está a 0,9 ponto de cumprir a meta de dados abertos de 2027.

O que mudou, item por item

O Relatório Metodológico, de 59 páginas, lista as alterações. As que importam para ler a série:

  • Banda larga móvel — passou a considerar acessos 4G e 5G, com limite teórico de 0 a 150 acessos por município;
  • Banda larga fixa — passou a considerar apenas acessos do tipo “internet” e a contar somente os de velocidade contratada de ao menos 100 Mbps; limites de 0% a 40% de densidade;
  • Backhaul de fibra — saiu de 2 para 3 categorias: 0 pontos sem fibra, 0,5 ponto com uma empresa e 1 ponto com duas ou mais;
  • Cobertura populacional — mantida apenas a de 4G ou superior, porque a de 3G ou superior tinha correlação próxima de 1 com ela;
  • Adensamento de ERBs — limite superior fixado em 20 ERBs;
  • Nova variável — “percentual de área passível de uso agrícola com cobertura 4G e 5G”, calculada a partir do SICAR, do Ministério da Agricultura, sobreposto à mancha de espalhamento espectral da Anatel;
  • Competitividade — o relatório é explícito: “Não fazer alterações nas variáveis de índice de competitividade. Não foram identificadas alterações necessárias tanto no índice de competitividade de telefonia móvel nem no índice de competitividade de banda larga fixa.”

A tensão que não conseguimos resolver

Coloque os dois fatos lado a lado:

  • o relatório diz que as variáveis de competitividade não foram alteradas;
  • o dado mostra o HHI de banda larga fixa saltando 34% e o de móvel caindo 29% exatamente no ano da mudança.

⭐⭐ A hipótese mais econômica — e é hipótese nossa, não afirmação — é que a fórmula do HHI de fato não mudou, mas a base de acessos que a alimenta sim. Se a versão nova passou a considerar apenas acessos do tipo “internet” e apenas os de 100 Mbps ou mais, o conjunto de acessos sobre o qual se calculam as participações de mercado ficou menor e diferente — e um mercado medido sobre menos acessos tende a parecer mais concentrado.

⚠️ Mas não conseguimos confirmar isso no relatório, que não explicita qual base de acessos alimenta o cálculo do índice de competitividade. Registramos o fato medido e a tensão com o texto oficial; a causa fica em aberto.

📌 O que muda na prática, independentemente da causa: quem ler no relatório que “a competitividade não mudou” e concluir que a série do HHI é comparável vai errar. Ela não é.

Tabela com o peso de cada variavel do indice brasileiro de conectividade na versao de 2024
O peso de cada variável na nota final do município, na versão 2024 do índice.

Quanto pesa cada coisa, e quem decidiu

A nota final é média ponderada. Os pesos da versão 2024, arredondados:

  • Presença de fibra óptica — 16% — o índice premia a presença de rede FTTH no município, e agora distingue quem tem uma empresa de quem tem duas ou mais;
  • Densidade de acessos móveis — 15% e percentual de população coberta — 15%;
  • Densidade de acessos de banda larga fixa — 14%;
  • Adensamento de ERBs — 13% e estágio da conectividade rural — 13%;
  • Competitividade — 14% no total, divididos em 7% para o SMP e 7% para o SCM.

E a origem dos pesos merece ser dita: eles não saem de um modelo econométrico. Vieram de uma pesquisa tipo survey, com questionários aplicados a servidores da Anatel e a representantes do setor, que atribuíram notas de importância a cada variável. É um julgamento coletivo declarado — o que é legítimo e transparente, mas convém saber ao usar o índice como argumento.

📌 Repare que competição vale 14% e infraestrutura de fibra, 16%. Um município com muitos acessos e um só fornecedor pontua bem em quase tudo e perde só nos 7% do SCM. O IBC mede conectividade, não concorrência — e o SCM que ele conta é o mesmo serviço cuja outorga de SCM na Anatel autoriza a operação — e é por isso que o HHI isolado, coluna a coluna, costuma ser mais útil ao provedor do que a nota final.

O que fazer com isso

  • Não monte série de 2021 a 2025. Compare dentro de cada bloco: 2021-2023 de um lado, 2024-2025 do outro.
  • Para comparar municípios no mesmo ano, a série serve bem. A ruptura é temporal, não entre cidades — e é assim que o índice rende mais: ranking dentro do ano.
  • Use as colunas, não só a nota. Para decisão de investimento, o HHI do SCM e a presença de fibra dizem mais do que o IBC consolidado.
  • Cuidado com a coluna de área agrícola: ela não existe antes de 2024 e muda de escala entre 2024 e 2025. Normalize antes de qualquer conta.
  • Ao citar o índice, diga a versão. São dois relatórios metodológicos distintos, e a Agência os mantém separados justamente por isso.

O que este artigo não diz

  • Não afirmamos a causa do salto do HHI. Levantamos a hipótese da mudança da base de acessos e declaramos que o relatório não a confirma nem a nega.
  • Não lemos as 59 páginas do Relatório Metodológico — trabalhamos com o resumo das alterações, a tabela de pesos e as seções sobre normalização. Detalhes de cálculo de cada variável podem alterar a leitura.
  • Não lemos o Relatório Metodológico da versão 2021-2023, que a Agência mantém publicado à parte.
  • As medianas apresentadas são nossas, calculadas sobre o arquivo de indicadores originais por município. A versão normalizada, de 0 a 100, tem outra leitura e não foi analisada aqui.
  • Não avaliamos a qualidade do índice nem se ele mede bem o que se propõe. O artigo trata de comparabilidade temporal, que é problema anterior a esse.
  • Não verificamos o município a município. Todos os números são medianas nacionais do conjunto de 5.570 municípios.

Onde conferir

Fontes: as primárias usadas neste artigo, todas conferidas no arquivo oficial.

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