O arquivo público do Registro.br com os 9.125 ASNs do Brasil — e o que ele revela sobre o mercado

Existe um arquivo público, atualizado todo dia pelo Registro.br, que lista todos os sistemas autônomos brasileiros (9.125 em 29 de agosto de 2026; 9.140 em 12 de outubro) com a razão social, o CNPJ e os blocos de endereços associados a cada um. Ele não tem senha, não tem cadastro e não aparece em nenhum painel — é um arquivo de texto num endereço de FTP. Se a sua empresa tem ASN, ela está lá. Este artigo mostra o que esse arquivo revela sobre o mercado brasileiro, o que ele não diz, e como conferir o registro da sua operação em um minuto.

Neste artigo

O arquivo, e o que exatamente ele contém

O endereço é ftp.registro.br/pub/numeracao/origin/. Dentro, um arquivo por dia, mais um atalho para a versão mais recente. A cópia usada neste artigo tem data de 29 de agosto de 2026 e 863 KB.

O próprio diretório traz um 00README que define o conteúdo em três linhas: é uma compilação da informação pública de whois sobre origem de prefixos por ASN, vinda do registro do NIC.br; os arquivos são codificados em UTF-8, com campos separados por barra vertical, e um ASN por linha.

O formato declarado é ASN|OrgName|OrgID|prefixos.... Na prática brasileira, o OrgID é o CNPJ da organização. Uma linha real, para dar concretude:

AS174|COGENT BRASIL TELECOMUNICAÇÕES LTDA.|29.484.413/0001-70|2804:5330::/32

Ou seja: número do sistema autônomo, razão social como consta no registro, CNPJ e a lista de blocos. Tudo aberto.

O que o arquivo NÃO diz — e por que isso importa

Antes de qualquer conclusão, uma distinção que muda a leitura de tudo. O README fala em informação de origem de prefixo disponível no whois do registro. Isso é o que está declarado no cadastro — não é o que está sendo anunciado em BGP neste momento.

São coisas diferentes e a confusão entre elas produz conclusão errada nos dois sentidos: um bloco pode constar no registro e não estar anunciado (alocado e ainda não usado), e um prefixo pode circular na Internet sem corresponder ao que o registro diz. Este artigo trata do primeiro plano — o cadastral. Para saber o que está efetivamente na tabela de rotas, o caminho é outro: looking glass, coletores de rotas e as ferramentas de validação de origem.

Feita a ressalva, o plano cadastral é exatamente o que interessa a quem cuida da regularidade da empresa — e é o que se pode conferir de graça, hoje, em um minuto.

Gráfico com a quantidade de sistemas autônomos e blocos IPv4 e IPv6 no Brasil
Os números do arquivo público do Registro.br, atualizado diariamente.

Cruzando com a Anatel: quantos ASNs são provedores?

O arquivo do Registro.br não diz quem é provedor de internet — ele lista quem tem sistema autônomo, e isso inclui universidade, banco, órgão público e datacenter. Para descobrir quantos são prestadoras de fato, é preciso cruzar com outra base: a de acessos de banda larga fixa da Anatel. Fizemos isso, casando pelo CNPJ.

  • o arquivo do Registro.br traz 8.854 CNPJs distintos (um mesmo CNPJ pode ter mais de um ASN);
  • a base da Anatel registra 11.988 CNPJs prestando banda larga fixa em junho de 2026;
  • 5.491 CNPJs estão nas duas.

Isso responde duas perguntas de uma vez, e as duas respostas surpreendem:

1. Só 62% de quem tem ASN é provedor de banda larga. Os outros 3.363 CNPJs — 38% — têm sistema autônomo e não aparecem como prestadoras na base de acessos. São universidades, bancos, órgãos públicos, datacenters e empresas que operam rede própria sem vender acesso. Ter ASN não é sinônimo de ser provedor.

2. Menos da metade dos provedores tem ASN. Do outro lado do cruzamento, apenas 5.491 das 11.988 prestadoras — 45,8% — têm sistema autônomo próprio. Mais da metade dos provedores brasileiros de banda larga opera sem ASN, dependendo dos blocos e do roteamento de quem lhes vende trânsito.

Separando por porte, a diferença aparece: entre as classificadas como pequeno porte, 45,8% têm ASN; entre as de grande porte, 6 das 8.

O que isso significa na prática. Não ter ASN não é irregularidade — é uma escolha de arquitetura, e para operação pequena costuma ser a escolha certa. Mas ela define o que a empresa pode fazer sozinha: sem sistema autônomo próprio, trocar de operadora de trânsito significa renumerar clientes, e não há como anunciar as próprias rotas em mais de um caminho. É o que separa quem pode fazer multihoming de quem depende de um fornecedor.

Nota metodológica. O cruzamento usa o arquivo do Registro.br de 2 de setembro de 2026 — três dias depois do que gerou os números da seção seguinte — contra a base de acessos da Anatel de junho de 2026. São fotografias de datas diferentes, e o casamento é por CNPJ: uma empresa cujo ASN esteja registrado em CNPJ de outra unidade do mesmo grupo não é capturada. Por isso os percentuais são piso, não medida exata.

9.125 ASNs: o retrato do Brasil

Contando linha a linha o arquivo de 29 de agosto de 2026:

O que o arquivo traz Número
Sistemas autônomos (ASNs) registrados no Brasil 9.125
Blocos IPv4 associados 13.005
Blocos IPv6 associados 8.944
Registros com CNPJ no formato completo 9.101 (24 não)
ASNs sem nenhum bloco associado 88
Fonte: arquivo público do Registro.br de 29 de agosto de 2026. Contagem nossa, linha a linha.

O número de 9.125 ASNs diz algo sobre o formato do mercado brasileiro de acesso: é um país com milhares de operadores independentes, e não com meia dúzia. Cada um desses números foi pedido, justificado e mantido por alguém — e a maioria pertence a provedores regionais. Quem ainda está reunindo os requisitos para chegar lá encontra o caminho no material sobre recursos de numeração no Registro.br e do ASN.

Gráfico comparando sistemas autônomos brasileiros com bloco IPv6 e com bloco IPv4
1.213 sistemas autônomos nasceram sem IPv4 próprio — não havia mais o que alocar quando chegaram.

96% já têm IPv6, e 1.213 só têm IPv6

O dado que mais surpreende no arquivo é o do IPv6. Dos 9.125 ASNs, 8.844 têm pelo menos um bloco IPv6 associado — 96%. Contra 7.824 com bloco IPv4, ou 85%.

A leitura mais direta é que a alocação de IPv6 no Brasil já é praticamente universal no plano cadastral. E o desdobramento seguinte é ainda mais revelador: 1.213 ASNs têm bloco IPv6 e nenhum bloco IPv4. São operações que nasceram sem IPv4 próprio — porque não havia mais o que alocar quando elas chegaram.

Do outro lado, apenas 193 ASNs, ou 2%, têm IPv4 e nenhum IPv6 associado. É um grupo pequeno, e é o grupo que ficou para trás: quem está aí opera hoje sem o recurso que 96% do mercado já tem no cadastro.

Uma ressalva honesta, coerente com a seção anterior: ter bloco IPv6 alocado não significa ter IPv6 funcionando para o assinante. O arquivo mede alocação, não implantação. Mas a alocação é o pré-requisito — e ela, no Brasil, praticamente já aconteceu.

Sete em cada dez têm um único bloco IPv4

A distribuição de IPv4 desenha o perfil do operador típico. São 13.005 blocos para 9.125 ASNs — média de 1,4 bloco por sistema autônomo. Mas a média esconde a forma: 6.297 ASNs, ou 69%, têm exatamente um bloco IPv4.

Sete em cada dez sistemas autônomos brasileiros operam com um único bloco IPv4. Isso é o retrato do provedor regional — o que cresce sobre uma alocação só e resolve a escassez com NAT, e para quem cada endereço IPv4 é recurso contado. É também a explicação econômica de por que a adoção de IPv6 avançou tanto no cadastro brasileiro: não foi entusiasmo técnico, foi ausência de alternativa.

Atualização de 13/10/2026: o mesmo arquivo, seis semanas depois

Recontamos tudo, com o mesmo método, no arquivo nicbr-asn-blk-20261012.txt, de 12 de outubro de 2026. A integridade foi conferida pelo SHA-256 publicado ao lado dele. Os números mudaram pouco, mas mudaram numa direção só:

Medida 29/08/2026 12/10/2026 Diferença
ASNs no arquivo 9.125 9.140 +15
Com pelo menos um bloco IPv6 8.844 (96%) 8.859 (96,9%) +15
Com pelo menos um bloco IPv4 7.824 (85%) 7.823 (85,6%) −1
Só com IPv6 1.213 1.229 +16
Com exatamente um bloco IPv4 6.297 (69%) 6.287 (68,8%) −10
Blocos IPv4 no total 13.005 13.048 +43
Contagem direta nos dois arquivos públicos do Registro.br (mesmo método das seções acima).

A leitura: o saldo de ASNs novos veio todo sem IPv4 próprio. Os 15 a mais vieram com IPv6, o número de ASNs com IPv4 ficou parado (−1) e o grupo “só IPv6” cresceu 16. Quem tinha IPv4 continuou somando blocos (+43, por transferência ou divisão de blocos). Quem chega agora não ganha bloco novo. Seis semanas é pouco tempo para falar em tendência, mas a direção é a mesma do resto do artigo.

Nota de método: o diretório guarda só os arquivos das últimas semanas. O de 29 de agosto já não está lá, então a coluna de agosto repete os números publicados acima e não foi recontada hoje.

Como conferir o registro da sua empresa

O arquivo é texto puro e a busca não exige ferramenta nenhuma além do que já existe em qualquer computador.

  1. Baixe ftp.registro.br/pub/numeracao/origin/nicbr-asn-blk-latest.txt.
  2. Procure pelo seu número de ASN no começo da linha, ou pelo CNPJ da empresa.
  3. Confira, na linha encontrada, três coisas: se a razão social está atualizada, se o CNPJ é o correto, e se todos os blocos que a empresa possui aparecem.

Três situações merecem providência. Se a razão social estiver desatualizada — porque a empresa mudou de nome e ninguém avisou o registro. Se o CNPJ estiver errado ou ausente, o que ocorre em 24 dos registros do arquivo. E se algum bloco não aparecer, ou aparecer um que não é mais seu, situação comum depois de transferência ou reorganização societária.

Vale a conexão com um tema vizinho: quando o provedor é vendido ou muda de sócio, a atualização de cadastro costuma ser lembrada na junta comercial e esquecida em todo o resto. O mesmo raciocínio que se aplica à outorga Anatel vale aqui: o registro fica no nome de quem estava antes até que alguém o corrija.

Passo a passo em 3 etapas: Baixe ftp.registro.br/pub/numeracao/origin/nicbr-asn-blk-latest.txt; Procure pelo seu número de ASN no começo da linha, ou pelo CNPJ da empresa; Confira, na linha encontrada, três coisas
O passo a passo da seção “Como conferir o registro da sua empresa”, em 3 etapas.

Por que o cadastro correto vale mais do que parece

É um arquivo público, consultável por qualquer pessoa, que associa número de ASN, razão social, CNPJ e blocos de endereços. Quem quiser saber quem responde por um prefixo brasileiro chega ali em segundos — e é isso que o torna relevante além da formalidade.

Um registro desatualizado tem consequências práticas: dificulta o contato em caso de incidente de segurança envolvendo os seus endereços, atrapalha acordos de troca de tráfego, e cria divergência entre o que a empresa declara em uma frente e o que consta em outra. Manter coerência entre os cadastros — Anatel, Receita, Registro.br — é parte do mesmo trabalho, e ele aparece detalhado nas obrigações das prestadoras de pequeno porte. Para quem está estruturando a operação agora, o conjunto está reunido em como legalizar um provedor de internet.

Há ainda o lado da segurança: é pelo contato associado ao ASN que se avisa um operador quando há abuso partindo dos endereços dele. Manter esse dado certo é parte da mesma disciplina técnica pela qual responde o responsável técnico junto ao CFT.

O custo de conferir é um minuto, uma vez por ano. O custo de descobrir a divergência no meio de um incidente é outro.

Fonte: Registro.br — compilação pública de origem de prefixos por ASN, arquivo nicbr-asn-blk-latest.txt com data de 29 de agosto de 2026, e o 00README do mesmo diretório, que define o formato. Números apurados por contagem direta sobre o arquivo, consultado em 31 de agosto de 2026. O cruzamento da seção “Cruzando com a Anatel” usa o mesmo arquivo em sua versão de 2 de setembro de 2026 (9.127 ASNs — dois a mais que na de 29 de agosto, o que mostra que o arquivo realmente muda) contra a Anatel — Dados Abertos, Acessos de Banda Larga Fixa, competência de junho de 2026, casando por CNPJ.

Conteúdo técnico e regulatório sobre telecomunicações, engenharia e conectividade, produzido e revisado pela Transmitter Engenharia.

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