Existe um arquivo público, atualizado todo dia pelo Registro.br, que lista todos os 9.125 sistemas autônomos brasileiros com a razão social, o CNPJ e os blocos de endereços associados a cada um. Ele não tem senha, não tem cadastro e não aparece em nenhum painel — é um arquivo de texto num endereço de FTP. Se a sua empresa tem ASN, ela está lá. Este artigo mostra o que esse arquivo revela sobre o mercado brasileiro, o que ele não diz, e como conferir o registro da sua operação em um minuto.

Neste artigo

O arquivo, e o que exatamente ele contém

O endereço é ftp.registro.br/pub/numeracao/origin/. Dentro, um arquivo por dia, mais um atalho para a versão mais recente. A cópia usada neste artigo tem data de 29 de agosto de 2026 e 863 KB.

O próprio diretório traz um 00README que define o conteúdo em três linhas: é uma compilação da informação pública de whois sobre origem de prefixos por ASN, vinda do registro do NIC.br; os arquivos são codificados em UTF-8, com campos separados por barra vertical, e um ASN por linha.

O formato declarado é ASN|OrgName|OrgID|prefixos.... Na prática brasileira, o OrgID é o CNPJ da organização. Uma linha real, para dar concretude:

AS174|COGENT BRASIL TELECOMUNICAÇÕES LTDA.|29.484.413/0001-70|2804:5330::/32

Ou seja: número do sistema autônomo, razão social como consta no registro, CNPJ e a lista de blocos. Tudo aberto.

O que o arquivo NÃO diz — e por que isso importa

Antes de qualquer conclusão, uma distinção que muda a leitura de tudo. O README fala em informação de origem de prefixo disponível no whois do registro. Isso é o que está declarado no cadastro — não é o que está sendo anunciado em BGP neste momento.

São coisas diferentes e a confusão entre elas produz conclusão errada nos dois sentidos: um bloco pode constar no registro e não estar anunciado (alocado e ainda não usado), e um prefixo pode circular na Internet sem corresponder ao que o registro diz. Este artigo trata do primeiro plano — o cadastral. Para saber o que está efetivamente na tabela de rotas, o caminho é outro: looking glass, coletores de rotas e as ferramentas de validação de origem.

Feita a ressalva, o plano cadastral é exatamente o que interessa a quem cuida da regularidade da empresa — e é o que se pode conferir de graça, hoje, em um minuto.

9.125 ASNs: o retrato do Brasil

Contando linha a linha o arquivo de 29 de agosto de 2026:

  • 9.125 sistemas autônomos registrados no Brasil
  • 13.005 blocos IPv4 e 8.944 blocos IPv6 associados a eles
  • 9.101 registros trazem o CNPJ no formato completo; 24 não
  • 88 ASNs não têm nenhum bloco associado no arquivo

O número de 9.125 ASNs diz algo sobre o formato do mercado brasileiro de acesso: é um país com milhares de operadores independentes, e não com meia dúzia. Cada um desses números foi pedido, justificado e mantido por alguém — e a maioria pertence a provedores regionais. Quem ainda está reunindo os requisitos para chegar lá encontra o caminho no material sobre recursos de numeração no Registro.br e do ASN.

96% já têm IPv6, e 1.213 só têm IPv6

O dado que mais surpreende no arquivo é o do IPv6. Dos 9.125 ASNs, 8.844 têm pelo menos um bloco IPv6 associado — 96%. Contra 7.824 com bloco IPv4, ou 85%.

A leitura mais direta é que a alocação de IPv6 no Brasil já é praticamente universal no plano cadastral. E o desdobramento seguinte é ainda mais revelador: 1.213 ASNs têm bloco IPv6 e nenhum bloco IPv4. São operações que nasceram sem IPv4 próprio — porque não havia mais o que alocar quando elas chegaram.

Do outro lado, apenas 193 ASNs, ou 2%, têm IPv4 e nenhum IPv6 associado. É um grupo pequeno, e é o grupo que ficou para trás: quem está aí opera hoje sem o recurso que 96% do mercado já tem no cadastro.

Uma ressalva honesta, coerente com a seção anterior: ter bloco IPv6 alocado não significa ter IPv6 funcionando para o assinante. O arquivo mede alocação, não implantação. Mas a alocação é o pré-requisito — e ela, no Brasil, praticamente já aconteceu.

Sete em cada dez têm um único bloco IPv4

A distribuição de IPv4 desenha o perfil do operador típico. São 13.005 blocos para 9.125 ASNs — média de 1,4 bloco por sistema autônomo. Mas a média esconde a forma: 6.297 ASNs, ou 69%, têm exatamente um bloco IPv4.

Sete em cada dez sistemas autônomos brasileiros operam com um único bloco IPv4. Isso é o retrato do provedor regional — o que cresce sobre uma alocação só e resolve a escassez com NAT, e para quem cada endereço IPv4 é recurso contado. É também a explicação econômica de por que a adoção de IPv6 avançou tanto no cadastro brasileiro: não foi entusiasmo técnico, foi ausência de alternativa.

Como conferir o registro da sua empresa

O arquivo é texto puro e a busca não exige ferramenta nenhuma além do que já existe em qualquer computador.

  1. Baixe ftp.registro.br/pub/numeracao/origin/nicbr-asn-blk-latest.txt.
  2. Procure pelo seu número de ASN no começo da linha, ou pelo CNPJ da empresa.
  3. Confira, na linha encontrada, três coisas: se a razão social está atualizada, se o CNPJ é o correto, e se todos os blocos que a empresa possui aparecem.

Três situações merecem providência. Se a razão social estiver desatualizada — porque a empresa mudou de nome e ninguém avisou o registro. Se o CNPJ estiver errado ou ausente, o que ocorre em 24 dos registros do arquivo. E se algum bloco não aparecer, ou aparecer um que não é mais seu, situação comum depois de transferência ou reorganização societária.

Vale a conexão com um tema vizinho: quando o provedor é vendido ou muda de sócio, a atualização de cadastro costuma ser lembrada na junta comercial e esquecida em todo o resto. O mesmo raciocínio que se aplica à outorga Anatel vale aqui: o registro fica no nome de quem estava antes até que alguém o corrija.

Por que o cadastro correto vale mais do que parece

É um arquivo público, consultável por qualquer pessoa, que associa número de ASN, razão social, CNPJ e blocos de endereços. Quem quiser saber quem responde por um prefixo brasileiro chega ali em segundos — e é isso que o torna relevante além da formalidade.

Um registro desatualizado tem consequências práticas: dificulta o contato em caso de incidente de segurança envolvendo os seus endereços, atrapalha acordos de troca de tráfego, e cria divergência entre o que a empresa declara em uma frente e o que consta em outra. Manter coerência entre os cadastros — Anatel, Receita, Registro.br — é parte do mesmo trabalho, e ele aparece detalhado nas obrigações das prestadoras de pequeno porte. Para quem está estruturando a operação agora, o conjunto está reunido em como legalizar um provedor de internet.

Há ainda o lado da segurança: é pelo contato associado ao ASN que se avisa um operador quando há abuso partindo dos endereços dele. Manter esse dado certo é parte da mesma disciplina técnica pela qual responde o responsável técnico junto ao CFT.

O custo de conferir é um minuto, uma vez por ano. O custo de descobrir a divergência no meio de um incidente é outro.

Fonte: Registro.br — compilação pública de origem de prefixos por ASN, arquivo nicbr-asn-blk-latest.txt com data de 29 de agosto de 2026, e o 00README do mesmo diretório, que define o formato. Números apurados por contagem direta sobre o arquivo, em 31 de agosto de 2026.

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