12 empresas concentram 374 mil atos de espectro móvel — o mapa da radiofrequência no Brasil em 903 mil registros

A Anatel publica em dados abertos a lista completa dos atos de autorização de uso de radiofrequência do setor de telecomunicações: 903.351 registros, com CNPJ, serviço, faixa, largura de banda e município de cada um. Baixamos e contamos. O resultado desenha o mapa do espectro brasileiro com uma clareza que nenhum relatório resume: 12 empresas concentram 374 mil atos de telefonia móvel, enquanto 10.394 entidades dividem os 410 mil atos do Serviço Limitado Privado. E há 756 entidades com espectro de banda larga fixa — o universo de quem usa rádio licenciado para levar internet.

Neste artigo

O arquivo: 903 mil atos, com CNPJ e município

Na área de dados abertos da Anatel, seção de outorga e licenciamento, está o pacote atos_rf_telecom.zip. São 9,9 MB compactados que viram 205 MB de CSV — vale saber antes de abrir no editor de planilha.

Cada linha é um ato de autorização de uso de radiofrequência, com: tipo de identificação e CNPJ ou CPF do titular, nome da entidade, Fistel, código e nome do serviço, caráter do ato, número, datas de emissão, publicação, validade e vigência, número do processo no SEI, largura de banda, frequência em MHz, tipo de área de prestação e, quando municipal, a UF e o município com código IBGE.

Uma precisão necessária antes dos números: ato não é empresa nem é licença única. Um mesmo ato aparece repetido por município de área de prestação, então a contagem de linhas mede alcance geográfico, não quantidade de outorgas. Por isso, ao longo deste artigo, separamos sempre atos de entidades distintas.

Gráfico da distribuição dos 903.351 atos de radiofrequência por serviço
Dois serviços respondem por 87% de tudo — e são o oposto um do outro quando se olha quem está por trás.

Onde está o espectro, por serviço

Distribuição dos 903.351 atos:

  • 410.620 — Limitado Privado
  • 374.295 — Telefonia Móvel
  • 47.780 — Banda Larga Fixa por radioenlace
  • 36.734 — Telefonia Fixa por radioenlace
  • 33.440 — Banda Larga Fixa
  • 293 — Serviço Limitado Especializado
  • 187 — Telefonia Móvel por radioenlace
  • 2 — Serviço Especial de Radiochamada

Dois serviços respondem por 87% de tudo: Limitado Privado e Telefonia Móvel. Mas eles são o oposto um do outro quando se olha quem está por trás.

Gráfico do número de entidades distintas com espectro por serviço de telecomunicações
Escala logarítmica: a diferença entre 12 e 10.394 entidades não cabe numa régua comum.

12 empresas contra 10.394

Contando os CNPJ e CPF distintos em cada serviço, o mapa muda de figura:

  • Limitado Privado — 10.394 entidades para 410.620 atos
  • Banda Larga Fixa por radioenlace — 597 entidades para 47.780 atos
  • Banda Larga Fixa — 190 entidades para 33.440 atos
  • Serviço Limitado Especializado — 14 entidades
  • Telefonia Móvel — 12 entidades para 374.295 atos
  • Telefonia Fixa por radioenlace — 4 entidades para 36.734 atos

É o contraste que resume o setor. Doze CNPJ concentram 374 mil atos de espectro móvel — uma média de mais de 31 mil atos por empresa, resultado de operar em faixa nacional com cobertura município a município. Do outro lado, 10.394 entidades dividem o Limitado Privado, com média de 39 atos cada.

Não é uma denúncia: telefonia móvel é serviço de rede nacional, com leilão de faixa e obrigação de cobertura, e concentração é característica estrutural dele. O dado serve para dimensionar em que mercado cada um está — e para entender por que as regras de outorga Anatel tratam de forma diferente quem opera em escala nacional e quem opera em um punhado de municípios.

756 entidades com espectro de banda larga

Somando as duas categorias de banda larga fixa — a comum e a por radioenlace —, chega-se a 756 entidades distintas com ato de radiofrequência para levar internet.

É um número que merece leitura cuidadosa. Ele não é o total de provedores do Brasil: a maioria dos ISPs opera em fibra, e fibra não exige autorização de radiofrequência. Esses 756 são especificamente quem usa espectro licenciado — tipicamente enlaces de transporte entre POPs, ou acesso via rádio em área onde a fibra não chegou.

Para comparar com outra base que já examinamos: o Brasil tem 9.125 sistemas autônomos registrados no Registro.br. A diferença de ordem de grandeza entre 9.125 ASNs e 756 detentores de espectro de banda larga diz onde está a infraestrutura do setor — e por que o debate sobre recursos de numeração no Registro.br e do ASN alcança muito mais gente do que o debate sobre espectro.

Gráfico de entidades novas com espectro de banda larga por ano
Entrada de novas entidades no espectro de banda larga, por ano do primeiro ato. Retomada a partir de 2023.

Quem entrou nos últimos anos

Olhando o primeiro ato de cada entidade de banda larga, por ano de emissão, dá para ver o fluxo de entrada:

  • 2023 — 35 entidades novas, 42 com ato emitido no ano
  • 2025 — 32 novas, 49 no ano
  • 2024 — 23 novas, 37 no ano
  • 2026 (até agosto) — 15 novas, 29 no ano
  • 2022 — 12 novas · 2020 — 10 · 2021 — 8 · 2019 — 6

Quem está avaliando entrar nesse grupo — ou já opera e vai precisar de enlace licenciado — encontra o caminho completo do que precisa estar em ordem antes em como legalizar um provedor de internet.

O padrão mostra retomada a partir de 2023, depois de um período fraco entre 2019 e 2022. E o volume total de atos emitidos por ano reforça: 178 mil em 2023, 161 mil em 2021, 95 mil em 2022, 78 mil em 2024, 66 mil em 2025 e 36 mil até agosto de 2026.

A armadilha do arquivo: duas datas na mesma coluna

Quem for repetir este levantamento precisa saber de um detalhe que quase estragou o nosso. A coluna de data de emissão do ato tem dois formatos misturados:

  • 502.625 registros no formato aaaa-mm-dd
  • 282.517 registros no formato dd/mm/aaaa
  • 118.209 vazios ou em outro formato

Um parser que assuma um único formato — e é o que se faz por reflexo — extrai o ano da posição errada em mais da metade das linhas. No nosso primeiro cálculo apareceram “anos” como 9-30 e 9-29, que é o sintoma exato desse problema. Como o script não quebra, o erro passa silenciosamente para o resultado.

Há também 2 registros com data no ano de 2031, provavelmente preenchimento equivocado. São irrelevantes no total, mas servem de lembrete: base pública grande tem sujeira, e vale sempre olhar os extremos antes de publicar uma média.

O que o provedor faz com isso

Três usos práticos, e todos partem do mesmo arquivo.

Descobrir quem tem espectro no seu município. O arquivo traz UF, município e código IBGE. Filtrar pela sua cidade mostra quais entidades têm ato de radiofrequência ali, em qual serviço e em qual faixa — informação de concorrência que normalmente se obtém por boato.

Conferir os próprios atos. Buscar pelo CNPJ da empresa lista os atos em nome dela, com faixa, largura de banda, validade e o número do processo no SEI. É conferência de cadastro que ninguém faz até precisar.

Verificar validade antes que ela vire problema. A coluna de data de validade permite montar um alerta simples de vencimento. Ato de radiofrequência vencido não avisa — e a consequência aparece na fiscalização, não no calendário. É o tipo de controle que se soma às demais obrigações das prestadoras de pequeno porte e que costuma passar pela mesa do responsável técnico junto ao CFT.

Fonte: Anatel — dados abertos, pacote Atos de Radiofrequência de Telecomunicações (arquivo atos_rf_telecom_mosaico.csv, 903.351 registros). Números apurados por contagem direta sobre o arquivo, em 1º de setembro de 2026.

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