A frase que se ouve em todo evento do setor é que o rádio acabou e todo mundo migrou para a fibra. A primeira metade é falsa. Montamos a série de 20 anos da base da Anatel, de dezembro de 2007 a junho de 2026, separando os acessos pelo meio físico que os entrega — e o desenho é outro: o rádio caiu 17,9% desde o pico de 2018 e segue com 1.908.293 acessos, mais do que tinha em 2016. Quem realmente acabou foi o par de cobre: de 13.802.792 acessos em 2016 para 578.296 hoje, uma queda de 95,8%. Este artigo mostra as quatro curvas, as duas datas em que a fibra assumiu, e por que a coluna que quase todo mundo usa para essa conta é a errada.
A fibra saiu de 43 mil acessos para 46,7 milhões em 19 anos — multiplicou por mais de mil. Mas o que interessa a quem opera não é a curva que subiu, e sim o que aconteceu com as outras três, porque elas são muito diferentes entre si.
Acessos de banda larga fixa por meio de acesso, em dezembro de cada ano. Fonte: Anatel, dados abertos.
O cobre: de 13,8 milhões a 578 mil
O par metálico — o ADSL das operadoras de telefonia — sustentou 71,9% da banda larga brasileira em 2007 e ainda crescia em 2016, quando bateu o pico de 13.802.792 acessos. Daí em diante a queda foi contínua e rápida: 10,3 milhões em 2019, 4,2 milhões em 2021, 578.296 em junho de 2026. Hoje o cobre é 1,0% do mercado.
Levou nove anos e meio para uma tecnologia sair de maioria absoluta para resíduo estatístico. Vale como referência de velocidade: quando um meio de acesso começa a perder base num mercado em crescimento, a saída dele é medida em anos, não em décadas — e quem tem rede legada tem esse relógio contra si.
As duas datas em que a fibra assumiu
A fibra não passou todo mundo de uma vez. Passou em duas etapas, e a série mensal dá o mês de cada uma:
Outubro de 2019 — a fibra passa o cabo coaxial: 9.725.024 contra 9.614.953. Foi apertado: em novembro o coaxial retomou a frente por um mês (9.624.062 contra 9.618.111) e a partir de dezembro a fibra não perdeu mais.
Janeiro de 2020 — a fibra passa o par de cobre: 10.670.811 contra 10.006.668. Em dezembro de 2019 o cobre ainda liderava, por 139 mil acessos.
Ou seja: a fibra virou o maior meio de acesso do Brasil em janeiro de 2020, dois meses antes da pandemia — e um ano e meio antes de os provedores independentes virarem maioria do mercado, o que aconteceu em junho de 2021. A tecnologia mudou primeiro; a estrutura do mercado veio atrás.
Variação de cada meio de acesso do seu pico até junho de 2026. Fonte: Anatel, dados abertos.
O rádio não morreu — e quase ninguém diz isso
Esta é a curva que contraria o discurso. O rádio foi a tecnologia com que a maioria dos provedores regionais começou, e a narrativa corrente é que ele desapareceu na migração para fibra. Os números:
2016 — 1.970.812 acessos
2018 — 2.324.161 (o pico)
2021 — 1.792.577
2024 — 2.015.857
junho de 2026 — 1.908.293
Do pico até hoje a queda é de 17,9% — e o patamar atual é maior que o de 2016. Nos últimos cinco anos a curva não cai: oscila entre 1,8 e 2,0 milhão. O rádio perdeu participação, e muito — de 7,4% do mercado em 2016 para 3,3% hoje —, porque o mercado dobrou de tamanho em volta dele. Perder participação num mercado que cresce não é a mesma coisa que perder cliente, e tratar as duas como sinônimo é o erro mais comum na leitura desses dados.
Para quem opera, isso tem consequência direta: há praticamente dois milhões de acessos entregues por rádio em pé, quase todos de provedor regional, em geral onde a fibra não fecha conta. Continua sendo um mercado, e ele depende de espectro — que é onde entra a pergunta de quais empresas têm faixa para operar banda larga por rádio em cada estado.
Acessos entregues por rádio, em dezembro de cada ano. Fonte: Anatel, dados abertos.
O coaxial, o sobrevivente do meio
O cabo coaxial — a rede de TV a cabo reaproveitada para internet — teve trajetória diferente das outras duas. Cresceu até 9.589.685 acessos em dezembro de 2019 e desde então recua devagar: 7.695.594 em junho de 2026, queda de 19,8% em seis anos e meio.
Comparado com o cobre, que perdeu 95,8% em período semelhante, o coaxial está resistindo. A diferença é de capacidade: o coaxial entrega centenas de megabits e o ADSL não entrega, então a pressão para substituir um é muito maior que para substituir o outro. Ainda assim, a direção é a mesma, e a rede coaxial é do grupo das grandes, não do provedor regional — que hoje tem 59% do mercado e é quase todo fibra.
A régua certa: “Meio de Acesso”, não “Tecnologia”
Um aviso para quem for refazer esta conta, porque ele custa horas. A base tem duas colunas que parecem servir, e só uma serve.
A coluna “Tecnologia” muda de vocabulário duas vezes ao longo da série. Em 2007 os valores são xDSL e Cable Modem; em 2019 aparecem Fibra e HFC; em 2021 em diante são FTTH, HFC, ADSL2 e ETHERNET. Montar a série por essa coluna produz curvas que começam e terminam do nada, porque o rótulo mudou — não a rede.
A coluna “Meio de Acesso” é estável nos 20 anos: Cabo Metálico, Cabo Coaxial, Fibra, Rádio, Satélite. É por ela que este artigo foi feito. Os arquivos estão em anatel.gov.br/dadosabertos/paineis_de_dados/acessos, e o recorte de 2007-2010 é trimestral — os demais são mensais, e misturar os dois abre buracos silenciosos na série.
A regra geral que fica, e que já nos pegou em outra conta desta mesma base: antes de montar série longa, verifique se a coluna que você vai usar quer dizer a mesma coisa no começo e no fim. Campo que muda de vocabulário no meio do caminho não avisa — ele só devolve um gráfico bonito e errado.
O que estes números não dizem
Meio de acesso não é velocidade. Fibra até o prédio com cabo metálico no último trecho e fibra até a casa contam de formas diferentes na base, e a experiência do cliente não se deduz da coluna.
“Rádio” reúne coisas diferentes. Enlace ponto a ponto, ponto-multiponto e acesso fixo sem fio em faixas variadas entram todos no mesmo balde. O total de 1,9 milhão é sólido; qualquer conclusão sobre qual rádio, não.
É acesso declarado, não cobertura. A base conta contratos ativos informados pela prestadora, não domicílios passados nem área atendida.
O último mês está sempre incompleto em base declaratória — por isso 2026 é medido em junho, e não no mês mais recente disponível.
Fonte: Anatel — Dados Abertos, painel de Acessos de Banda Larga Fixa, recortes de 2007-2010 a 2026, campo “Meio de Acesso”. Série anual em dezembro, exceto 2026 (junho); as datas de virada foram apuradas na série mensal de 2019 e 2020.