Todo mundo no setor sabe que o provedor independente virou maioria na banda larga fixa brasileira. Quase ninguém sabe quando — e a data importa, porque ela explica o mecanismo. Baixamos a série completa da Anatel, de 2007 até hoje, e a virada tem mês: junho de 2021, quando os independentes chegaram a 50,1% dos acessos. Um mês antes, em maio de 2021, a fibra tinha passado dos 50% do mercado pela primeira vez. As duas viradas coladas não são coincidência. E há uma segunda descoberta, menos agradável: a série anterior a 2015 não serve para essa conta, e quem a publicar sem conferir vai divulgar número errado — nós quase publicamos.
Separando os acessos entre os quatro grupos incumbentes — Claro, Vivo, Oi e TIM, somadas as empresas que cada um absorveu — e todo o resto, a linha do tempo mensal mostra o cruzamento:
dezembro de 2019 — independentes com 31,8%
dezembro de 2020 — 39,5%
maio de 2021 — 46,3%
junho de 2021 — 50,1% · a virada
dezembro de 2021 — 51,7%
junho de 2026 — 59,3%
O salto de maio para junho de 2021, de 46,3% para 50,1%, é grande demais para ser crescimento orgânico de um mês — e não é. Fomos ver o que se moveu: a Oi perdeu 1.318.050 acessos naquele mês, enquanto o conjunto dos independentes ganhou 1.550.718. É o desinvestimento da Oi, em recuperação judicial, transferindo base de clientes. Real, e não um erro de contagem — mas é honesto dizer que a virada não foi só conquista: parte dela foi entregue.
Fatia dos provedores independentes nos acessos de banda larga fixa. Fonte: Anatel, dados abertos.
Um mês antes, a fibra passou o cabo e o cobre
No mesmo período, a outra fronteira era tecnológica. O FTTH passou a metade do mercado em maio de 2021, com 50,8% — exatamente um mês antes da virada de mercado:
janeiro de 2021 — FTTH com 44,7%
abril de 2021 — 49,0%
maio de 2021 — 50,8%
dezembro de 2021 — 57,8%
junho de 2026 — 76,7%
A proximidade das duas datas descreve a mesma história por dois ângulos. A rede de cobre e a de cabo coaxial eram das incumbentes; a fibra ponto a ponto foi construída, na maior parte, por quem não tinha rede legada para defender. Quando a fibra passou a ser a tecnologia majoritária, quem a construiu passou a ser a maioria do mercado — com um mês de diferença.
De onde veio o ganho: 79% mercado novo, 21% tirado das grandes
Entre dezembro de 2019 e dezembro de 2021, os independentes ganharam 11.061.831 acessos. A pergunta que decide a interpretação é de onde eles vieram:
o mercado total cresceu 8.750.435 acessos no período — 79% do ganho
os quatro grupos grandes perderam 2.311.396 acessos — 21% do ganho
Ou seja: a maior parte do avanço veio de cliente que não tinha banda larga fixa e passou a ter, não de cliente arrancado da concorrência. Isso é coerente com o que a base mostra hoje no mapa municipal — o independente cresceu onde a incumbente não estava, e não principalmente em cima dela.
Os 21% restantes também não são desprezíveis, e eles têm nome: quase toda a perda das grandes no período é da Oi. As outras três não recuaram de forma relevante nesses dois anos.
Composição do ganho dos independentes entre dezembro de 2019 e dezembro de 2021. Fonte: Anatel, dados abertos.
De 2.195 para 10.423 empresas
O outro eixo da mudança é o número de empresas declarando acesso:
dezembro de 2015 — 2.195 prestadoras independentes
Aqui está o achado que quase virou um artigo errado. A base traz o campo “Porte da Prestadora”, e o caminho óbvio é usá-lo para montar a série histórica. Não funciona, por dois motivos que só aparecem quando se olha empresa por empresa.
Primeiro: o porte é retroativo. Comparando o arquivo de 2007-2010 com o de 2026, nenhum CNPJ muda de classificação — zero, entre os 393 presentes nos dois. A Anatel aplica a classificação de hoje ao passado inteiro. “Pequeno porte em 2010” não existe na base: o que existe é “empresa que hoje é de pequeno porte, em 2010”.
Segundo, e pior: CNPJs de operadora grande carregam o rótulo de pequeno porte. A NET São Paulo, com 1.729.995 acessos em 2013, está classificada como pequeno porte. A GVT, com 2.532.709 acessos no mesmo ano, também. São CNPJs que depois foram absorvidos por Claro e Telefônica. Usando o campo porte, a série de “pequeno porte” oscila de forma absurda — 33,3% em 2013, 23,1% em 2014, 38,6% em 2015, 18,5% em 2017 —, e cada oscilação dessas é uma fusão societária sendo lida como movimento de mercado.
Trocando para o campo Grupo Econômico, a série melhora muito, mas ainda tem dois degraus: entre 2010 e 2011 e entre 2013 e 2014. Os dois têm a mesma causa — CNPJs da NET permaneciam em “OUTROS” até serem reetiquetados para o grupo da Claro. Em 2014, “OUTROS” perde 2,36 milhões de acessos e o grupo da Claro ganha 3,68 milhões, sem que um único cliente tenha trocado de fornecedor.
A conclusão que sobra é limitada, e é ela que vale: a série é confiável a partir de meados da década de 2010, quando os rótulos estabilizam. De 2017 em diante ela é monótona e sem degraus — 19,8%, 25,0%, 31,8%, 39,5%, 51,7% —, e é sobre esse trecho que este artigo fala.
CNPJs de operadora grande classificados como pequeno porte na base. Fonte: Anatel, dados abertos.
1. Use Grupo Econômico, não Porte da Prestadora, pelo motivo da seção anterior.
2. Antes de comparar dois anos, veja o que mudou por grupo. A pergunta “qual grupo variou mais entre estes dois meses” custa três linhas de código e é o que separa fusão de mercado. Foi ela que nos impediu de publicar a virada em 2013.
3. Atenção à periodicidade. O arquivo de 2007-2010 é trimestral; os seguintes são mensais. Montar a série sem notar isso produz um gráfico com buracos silenciosos.
4. O nome do grupo muda de grafia entre arquivos — “TELEFÔNICA” com acento nos antigos e “TELEFONICA” sem, no atual. Agrupar por texto exato separa a mesma empresa em duas.
Para quem opera, o uso prático não é histórico: é olhar o próprio município e ver quem cresceu e quem encolheu ali, mês a mês, com nome e CNPJ. A base permite, e é a mesma que usamos para medir se entrar em voz e TV faz o provedor crescer.
O que estes números não dizem
“Independente” aqui é uma definição nossa: tudo que não está nos quatro grupos incumbentes. Isso põe no mesmo balde a empresa de 300 clientes e grupos regionais com mais de um milhão de acessos, que de pequenos não têm nada.
A data da virada depende da definição. Somar ou não a Algar, por exemplo, move o mês. O que não muda com definição razoável é o sentido e a ordem de grandeza: o cruzamento acontece em 2021, não antes nem depois.
Acesso não é receita nem cobertura. A série conta acessos declarados. Não diz faturamento, área atendida nem qualidade.
Parte da virada foi transferência, não conquista. Está dito na terceira seção e vale repetir: 21% do ganho do período veio de perda das grandes, quase toda da Oi em recuperação judicial.
Fonte: Anatel — Dados Abertos, painel de Acessos de Banda Larga Fixa, recortes de 2007-2010 a 2026. Série anual medida sempre em dezembro, exceto 2026, medido em junho — o último mês fechado.