A MikroTik lançou duas versões do RouterOS em agosto de 2026, e elas contam histórias opostas. Uma corrige uma falha de segurança e vem com uma recomendação explícita do fabricante para que todos atualizem. A outra é uma correção de emergência publicada sete dias depois da versão que ela conserta — e um dos defeitos deixava túneis WireGuard sem funcionar. Para o provedor que roda MikroTik no núcleo da rede, a decisão de atualizar não é a mesma nos dois casos, e este artigo separa uma coisa da outra a partir do que está escrito nas notas de versão oficiais.

Neste artigo

Duas versões, dois motivos diferentes para atualizar

As duas versões que aparecem no canal de downloads da MikroTik em agosto de 2026 são:

  • RouterOS 7.21.5, do ramo long-term, com notas datadas de 3 de julho de 2026
  • RouterOS 7.24.1, dos ramos stable, testing e development, com notas datadas de 21 de agosto de 2026

São ramos distintos e públicos distintos. O long-term recebe correções e praticamente nenhuma função nova — é o ramo de quem prioriza previsibilidade. O stable acompanha o desenvolvimento e recebe funcionalidade nova junto com as correções. Um provedor com o núcleo da rede em MikroTik costuma estar no primeiro; laboratórios e redes menores, no segundo.

O sinal de exclamação que a MikroTik usa — e o que ele significa

As notas de versão da MikroTik listam cada mudança com um marcador. A maioria começa com *). Mas o primeiro item do 7.21.5 começa com !), e o texto explica por quê:

“corrigida uma falha de segurança em um serviço; o usuário doméstico com a configuração padrão não é afetado, mas recomendamos a atualização para todos os usuários, independentemente disso.”

Duas coisas nessa frase merecem atenção do provedor. A primeira é que a ressalva de que o usuário doméstico com configuração padrão não é afetado não se aplica a você: rede de provedor não roda configuração padrão. A segunda é que a própria fabricante recomenda a atualização para todos, o que é uma sinalização mais forte do que a redação contida sugere.

Vale registrar o que a nota não diz: ela não nomeia o serviço afetado nem descreve o vetor. Não há como, a partir dela, avaliar exposição — e isso é deliberado, porque descrever a falha antes de os usuários atualizarem entregaria o caminho a quem quisesse explorá-la. Na prática, a decisão tem de ser tomada sem esse detalhe.

7.24 e 7.24.1: sete dias entre uma e outra

A cronologia do ramo stable é o dado mais instrutivo do mês. O 7.24 tem notas de 14 de agosto de 2026. O 7.24.1 tem notas de 21 de agosto. Sete dias.

E o conteúdo do 7.24.1 explica o intervalo. Três correções trazem, entre parênteses, a marcação “introduzido na v7.24”:

  • o comportamento de habilitar e desabilitar peers no WireGuard;
  • a busca de argumentos do comando find no console;
  • e, do ramo anterior, a estabilidade no RB3011, marcada como introduzida na v7.22.

Ou seja: quem atualizou para o 7.24 na semana do lançamento passou sete dias com defeitos que o próprio fabricante corrigiu em seguida. Não é crítica ao processo da MikroTik — versão nova traz regressão, é assim em todo software. É argumento para uma política interna que quase nenhum provedor pequeno tem escrita: não subir versão nova de imediato em equipamento de produção, salvo quando a atualização corrige uma falha que já afeta você.

O defeito do WireGuard que derruba o túnel em silêncio

Entre as correções do 7.24.1, uma merece destaque pelo modo como falha. A nota descreve a correção do tratamento do estado de desabilitar e reabilitar um peer de WireGuard, o que podia deixar o túnel não funcional.

Repare no cenário: não é o túnel que cai sozinho. É o túnel que para de funcionar depois de alguém desabilitar e reabilitar o peer — uma operação corriqueira de manutenção, feita justamente quando se está mexendo na configuração para resolver outra coisa. O administrador desabilita, reabilita, e o túnel não volta. A tendência natural é procurar o erro na configuração que acabou de ser mexida, não numa regressão da versão.

A mesma versão corrige ainda o tratamento de chaves privadas do WireGuard, incluindo chaves vazias. Para quem usa WireGuard para interligar POPs ou dar acesso remoto à rede de gerência, os dois itens são motivo suficiente para sair do 7.24.

Os equipamentos citados por nome

Boa parte das notas é genérica, mas algumas nomeiam o equipamento afetado — e é nessas que a triagem fica objetiva. Do 7.24.1:

  • RB3011 — correção de estabilidade, com o defeito introduzido na v7.22
  • Série CRS8xx — duas correções de bridge, uma de flag de host e outra de MLAG
  • hAP be lite — correção de estabilidade no wifi
  • Chips de switch Marvell Prestera — correção de possível travamento do tráfego de recepção na CPU
  • Chips 98DX224S, 98DX226S, 98DX2528 e 98DX3236 — correção de estabilidade durante laço de camada 2

Do 7.21.5, o long-term, aparecem ainda correções para RB2011 (tabela MAC, defeito introduzido na v7.21) e para dispositivos com CPUs Alpine, incluindo a possibilidade rara de todas as portas do switch oscilarem ao mesmo tempo.

Esse é o momento em que o inventário escrito da rede deixa de ser burocracia e vira ferramenta: sem saber quais modelos estão em produção e em qual versão, nenhuma dessas linhas ajuda a decidir nada.

Stable ou long-term: qual ramo o provedor deveria seguir

A escolha do ramo é uma decisão de risco, e ela conversa com o restante da regularidade da operação — do que a outorga Anatel exige em continuidade do serviço até o que se declara à agência sobre a rede. A resposta que as notas de agosto sugerem é direta, e ela vem do próprio conteúdo das duas listas. O long-term 7.21.5 corrige coisas do dia a dia de operação — BGP, ISIS, OSPF, bridge com espionagem de DHCPv4, LTE, rotas em VRF. O stable 7.24.1 corrige regressões recentes e traz funcionalidades novas de aplicação e contêiner.

Para quem tem cliente pendurado no equipamento, o ramo long-term entrega o que interessa: correção sem novidade. Reservar o stable para laboratório e para o equipamento que não derruba ninguém é a divisão que a diferença entre as duas listas recomenda sozinha. E manter essa disciplina técnica documentada faz parte do que se espera de quem responde formalmente pela rede — papel do responsável técnico junto ao CFT.

Como decidir se você atualiza esta semana

Três perguntas resolvem, e elas seguem a mesma lógica de triagem que vale para aviso de qualquer fabricante.

Você está no 7.24? Se sim, atualize para o 7.24.1. Não é preferência: você está com defeitos que o fabricante já corrigiu, entre eles o do WireGuard. É o caso mais claro do mês.

Você está no long-term, em versão anterior à 7.21.5? Então há uma correção de segurança entre você e a versão atual, com recomendação expressa da MikroTik para atualizar. Programe a janela.

Você está no long-term 7.21.5 e não tem nenhum dos equipamentos citados? Não há urgência criada por agosto. Fique onde está e reavalie no próximo lançamento.

Um pré-requisito atravessa as três respostas: saber o que existe na rede. O inventário de marca, modelo e versão é o mesmo que sustenta a coerência dos recursos de numeração no Registro.br e do ASN e das demais declarações da empresa — quem mantém um só cadastro atende a tudo; quem mantém vários acaba sem nenhum confiável.

Uma observação sobre o alcance deste texto: ele descreve o que está publicado nas notas de versão da MikroTik, e nada além. As notas não trazem identificador CVE nem nota de gravidade — diferentemente dos avisos de outros fabricantes —, então não é possível medir a gravidade da falha de segurança do long-term a partir delas. Manter a operação em ordem nesse nível é parte do conjunto de deveres que acompanha a operação regular, tema que reunimos nas obrigações das prestadoras de pequeno porte e no guia sobre como legalizar um provedor de internet.

Fonte: MikroTik — notas de versão oficiais do RouterOS 7.24.1 (21 de agosto de 2026), 7.24 (14 de agosto de 2026) e 7.21.5 (3 de julho de 2026), e o canal oficial de downloads. Consultado em 31 de agosto de 2026.

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