**Por [Redação Transmitter]**
**19 de maio de 2026**
Em uma sessão que evidenciou as profundas tensões estruturais, regulatórias e trabalhistas que permeiam o setor de telecomunicações brasileiro, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados realizou nesta segunda-feira (19/05/2026) uma audiência pública de alto nível. O debate, proposto a partir do Requerimento 22/2026, de autoria do deputado Bohn Gass, teve como epicentro os **"Desafios relevantes relacionados à organização, segurança e integridade das redes de telecomunicações instaladas no país"**.
O evento, realizado no Plenário 12 do Anexo II e durando 1 hora e 23 minutos, reuniu um painel de exceção que raramente é visto sentado à mesma mesa. De um lado, os presidentes e líderes das principais agências reguladoras do país, a Anatel e a Aneel. Do outro, os representantes máximos das centrais sindicais, federações de trabalhadores e das associações da indústria e de provedores de internet.
O que se seguiu foi um choque de visões sobre o que realmente significa a "integridade" de uma rede. Para os órgãos reguladores e o setor empresarial, a integridade é sinônimo de física, de sinais ópticos, de manutenção de ativos e de combate ao vandalismo. Para os representantes dos trabalhadores, a integridade da rede começa pela integridade e dignidade do trabalhador que sobe no poste, enfrentando condições precárias, terceirizações em cascata e um arcabouço regulatório de segurança que, na prática, não é cumprido.
Abaixo, o *Transmitter* apresenta a análise definitiva, completa e detalhada de tudo o que foi discutido no plenário, os pontos de convergência, os atritos regulatórios entre energia e telecomunicações, e as perspectivas para o futuro da infraestrutura crítica do Brasil.
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## 1. O Contexto do Debate: Por que a Comissão de Trabalho?
A primeira grande questão que permeou o debate foi a própria sede da discussão. Historicamente, temas de telecomunicações são debatidos na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) ou na Comissão de Viação e Transportes (CVT). No entanto, o deputado **Bohn Gass**, ao levar o tema para a Comissão de Trabalho (CTRAB), fez uma manobra política e temática brilhante: trouxe à tona que a crise da infraestrutura das redes de telecomunicações brasileiras é, fundamentalmente, uma crise do trabalho.
O Brasil vive um momento de transição acelerada de redes, com a expansão do 5G e a universalização da fibra óptica (FTTH) para além das grandes metrópoles. Essa expansão, no entanto, tem um custo humano e logístico altíssimo. As ruas das cidades brasileiras testemunham diariamente o "bainha de gato" de fios, quedas frequentes de energia e internet, e acidentes fatais envolvendo técnicos de telecomunicações.
O **REQ 22/2026** foi concebido para responder a uma pergunta central: *Como podemos exigir integridade física e de dados de uma rede de telecomunicações crítica quando a mão de obra que a instala e a mantém é submetida a níveis inaceitáveis de precarização?*
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## 2. Antecedentes Históricos e Regulatórios
Para compreender a complexidade das declarações proferidas na audiência, é imperioso revisitar o cenário regulatório brasileiro nas últimas décadas.
### 2.1 O Legado da Privatização e a Expansão Descontrolada
Com a privatização do Sistema Telebrás em 1998, o Brasil adotou um modelo baseado em concessionárias e autorizatárias. A expansão da telefonia celular ocorreu de forma vertiginosa. Contudo, a expansão da infraestrutura física (cabos, postes, dutos) foi feita de maneira muitas vezes descoordenada.
As operadoras passaram a compartilhar os mesmos postes das concessionárias de energia elétrica, mas sem um alinhamento perfeito de padrões. Isso gerou o fenômeno da "bainha de gato", onde cabos de cobre, coaxiais e, mais tarde, fibras ópticas foram sendo empilhados nos postes sem respeito aos espaçamentos mínimos exigidos por normas técnicas.
### 2.2 A Resolução Anatel nº 726/2020 e o "Pole Guardião"
Um dos marcos regulatórios mais importantes citados durante o debate foi a **Resolução da Anatel nº 726/2020**. Esta norma, fruto de um longo processo de consulta pública, buscou organizar o uso dos postes de telecomunicações, estabelecendo regras claras para o compartilhamento de infraestrutura passiva.
A norma criou a figura do *Pole Guardião*, exigindo que os postes de propriedade das concessionárias de telecomunicações fossem devidamente inventariados, padronizados e que qualquer nova instalação de cabo deveria respeitar limites de carga e vento. A intenção era frear o caos visual e estrutural. No entanto, como apontado durante a audiência, a norma esbarrou na resistência prática das empresas e na falta de fiscalização em nível municipal.
### 2.3 A Intersecção com o Setor Elétrico: O Papel da Aneel
A integridade das redes de telecom não depende apenas das operadoras de TI, mas pesadamente do setor elétrico. A presença de **Pedro Mello Lombardi**, da Aneel, foi fundamental para evidenciar que a maioria dos postes urbanos no Brasil pertence a concessionárias de energia (como Enel, Energisa, Equatorial, CPFL, etc.).
A Resolução Normativa nº 414 da Aneel, que estabelece as Condições Gerais de Fornecimento de Energia Elétrica, e as resoluções sobre o compartilhamento de postes (como a famosa Resolução nº 592/2013 que tratava de "Postes Padrão"), sempre geraram atritos. As empresas de energia frequentemente alegam que o excesso de cabos de telecomunicações compromete a integridade do poste, causando tombamentos e riscos à população durante tempestades.
### 2.4 O Contexto Trabalhista: A Terceirização e a "Pejotização"
Do ponto de vista do trabalho, o setor de telecomunicações foi um dos mais impactados pela Reforma Trabalhista de 2017 e pela aprovação da Lei da Terceirização. A instalação de fibras (o "last mile") é predominantemente realizada por mão de obra terceirizada, muitas vezes através de longas cadeias de subcontratação.
Os trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, metas de produtividade irreais (como "passar" dezenas de quilômetros de fibra por dia) e exposição a riscos elétricos fatais. A ausência de um piso salorial nacional unificado para a categoria e a exiguidade dos treinamentos de segurança formam o caldo de cultura que resultou no requerimento do deputado Bohn Gass.
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## 3. Os Posicionamentos: Um Panorama Geral da Audiência
A audiência foi aberta pelo presidente da Comissão de Trabalho, que cedeu a palavra ao autor do requerimento. O deputado **Bohn Gass** abriu os trabalhos com uma crítica contundente ao modelo atual de expansão de redes no Brasil.
Em seguida, os convidados tiveram o espaço para suas exposições. A mesa ficou claramente dividida em três blocos de interesse:
1. **O Bloco Regulador:** Buscando equilibrar o desenvolvimento do mercado com a segurança técnica.
2. **O Bloco Trabalhista:** Denunciando a precarização e exigindo regulamentação da profissão e responsabilização das empresas manteneduras (as *telcos* de grande porte).
3. **O Bloco Empresarial:** Destacando os investimentos massivos do setor privado, os desafios do vandalismo (roubo de cabos e equipamentos) e a necessidade de agilidade regulatória.
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## 4. A Visão do Regulador: Anatel e o Equilíbrio de Forças
O presidente da **Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)**, **Carlos Manuel Baigorri**, teve a árdua tarefa de representar a agência no centro do fogo cruzado. Baigorri, que tem uma trajetória longa na agência e experiência técnica profunda, focou sua intervenção na necessidade de modernizar a infraestrutura sem penalizar o avanço da conectividade.
### 4.1 A Fala de Carlos Manuel Baigorri (Anatel)
Baigorri iniciou reconhecendo que o Brasil alcançou patamares impressionantes de conectividade nos últimos anos, impulsionados pelo investimento privado, especialmente no programa de privatização da Telebrás e, mais recentemente, no leilão do 5G. No entanto, admitiu que o crescimento veio acompanhado de custos estruturais.
O presidente da Anatel abordou a integridade das redes sob três prismas:
* **Integridade Física e Organização Espacial:** Baigorri ressaltou que a Anatel tem trabalhado incansavelmente para mitigar o problema dos postes sobrecarregados e das "bainhas de gato". Citou o programa de regularização de postes, destacando que a agência impôs multas severas a operadoras que descumpriam os prazos de adequação. No entanto, apontou uma limitação clara: a Anatel regula as operadoras de telecomunicações, mas não tem poder de polícia sobre os postes de propriedade das distribuidoras de energia elétrica ou sobre a organização urbanística dos municípios.
* **Integridade dos Dados e Cibersegurança:** Embora o foco da audiência fosse a infraestrutura física, Baigorri fez questão de lembrar que a integridade de uma rede hoje é também a sua capacidade de resistir a ataques cibernéticos. Ele destacou as resoluções recentes da Anatel que obrigam as operadoras a adotarem arquiteturas de redes mais seguras, especialmente com a entrada em operação do 5G standalone.
* **O Desafio do Vandalismo:** Um ponto de destaque na fala de Baigorri foi o custo do vandalismo. Segundo dados trazidos por ele, o roubo de cabos de cobre (embora em menor escala hoje), a vandalismos em equipamentos de rua (como os *closures* ópticos) e os furtos de baterias de sites de radiocomunicação representam um sangramento financeiro e operacional para o setor. "Quando vandalizam um *closure* de fibra óptica em uma comunidade, não é apenas a operadora que perde. É o Estado que perde, a saúde que perde, a educação que perde, porque a conectividade é crítica," enfatizou o presidente da Anatel.
Baigorri também tocou na ferida trabalhista de forma cautelosa, reconhecendo que as condições de trabalho adequadas impactam diretamente na qualidade da instalação da rede. Uma rede instalada às pressas por um profissional sem treinamento adequado é uma rede fadada a apresentar falhas de integridade no futuro.
### 4.2 A Visão da Aneel e a Fala de Pedro Mello Lombardi
A participação de **Pedro Mello Lombardi**, da **Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)**, trouxe o elemento de complexidade que é a dependência do setor de telecomunicações em relação ao setor elétrico.
Lombardi focou sua explanação na segurança física das redes urbanas. Ele alertou que a integridade das redes de telecomunicações é inseparável da integridade dos postes de energia elétrica. A Aneel tem uma preocupação constante com o excesso de carga nos postes, o que pode levar ao seu tombamento durante eventos climáticos severos, cada vez mais frequentes no Brasil.
* **A Questão do Compartilhamento:** Lombardi explicou que a Aneel incentiva o compartilhamento de infraestrutura passiva para evitar a multiplicação de postes nas vias públicas. Contudo, ressaltou que as distribuidoras de energia exigem que as operadoras de telecomunicações respeitem rigorosamente os projetos estruturais dos postes. A instalação não autorizada ou irregular de cabos ópticos tem sido um problema crônico.
* **Risco de Vida:** O representante da Aneel trouxe dados alarmantes sobre acidentes envolvendo redes de energia e telecomunicações. Muitos dos acidentes fataes ocorrem porque técnicos de telecomunicações, muitas vezes terceirizados, interagem com postes de energia sem desligamento prévio ou sem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados. Lombardi sugeriu que uma regulamentação conjunta mais rígida entre Anatel e Aneel, com padronização de procedimentos de segurança, é urgente.
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## 5. O Grito dos Trabalhadores: Precariedade e o Risco nas Alturas
Se os reguladores falaram sobre a rede como um ativo técnico, os representantes dos trabalhadores falaram sobre a rede como resultado do esforço humano. As falas de **Ricardo Patah (UGT)**, **José Roberto Silva (Contcop)** e **Rogério Soares (Fenattel)** foram as mais incisivas e emocionadas da audiência, levantando questões que muitas vezes escapam aos relatórios técnicos das agências reguladoras.
### 5.1 Ricardo Patah (UGT) e a Crítica à Cadeia Produtiva
O presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), **Ricardo Patah**, não poupou críticas ao modelo de negócios das grandes operadoras de telecomunicações. Patah focou sua intervenção na desconstrução da ideia de que a terceirização é apenas uma ferramenta de gestão moderna.
* **Responsabilização das Mantenedoras:** Patah argumentou veementemente que as grandes operadoras (as "mantenedoras") criam um véu de invisibilidade sobre as condições de trabalho ao contratar empresas integradoras, que por sua vez subcontratam outras menores. Quando ocorre um acidente fatal, a responsabilidade recai sobre a pequena empresa de instalação, que frequentemente não tem capital para arcar com as indenizações, enquanto a operadora principal se exime da culpa.
* **A Integridade Humana como Base:** "Não existe integridade de rede sem integridade física e mental do trabalhador", teria sintetizado Patah. Ele apontou que as metas de produtividade impostas aos técnicos de campo são irracionais. Um trabalhador que precisa instalar fibra em dezenas de pontos por dia, sob sol escaldante ou em áreas de risco, inevitavelmente fará um serviço de baixa qualidade, comprometendo a durabilidade da rede.
* **Demanda por Regulamentação:** A UGT defendeu a aprovação de regras mais estritas que limitem a cascata de terceirização no setor e exijam que as operadoras principais respondam solidariamente por acidentes de trabalho nas redes de suas franquias ou de suas prestadoras de serviço.
### 5.2 José Roberto Silva (Contcop) e a Valorização Profissional
**José Roberto Silva**, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Comunicações e Publicidade (Contcop), trouxe uma perspectiva histórica da categoria. Ele relembrou a época em que os técnicos das antigas estatais de telecomunicações eram considerados profissionais de elite, com excelente capacitação técnica e condições de trabalho dignas.
* **A Perda de Identidade Profissional:** Silva lamentou que, com o avanço da tecnologia, paradoxalmente a valorização do técnico diminuiu. A categoria hoje sofre com a "pejotização", onde trabalhadores são obrigados a abrir empresas (MEIs) para prestarem serviços exclusivos para uma única operadora, perdendo direitos trabalhistas como férias, 13º salário e FGTS.
* **A Falta de Padronização de Treinamentos:** O líder da Contcop apontou que a integridade das redes é ameaçada pela falta de mão de obra qualificada. Como as margens de lucro das empresas prestadoras de serviço são reduzidíssimas, corta-se o investimento em treinamento contínuo e em segurança do trabalho. Silva sugeriu a criação de uma certificação nacional obrigatória, chancelada conjuntamente por Anatel, Aneel e Ministério do Trabalho, para qualquer profissional que interaja com infraestrutura de postes.
### 5.3 Rogério Soares (Fenattel) e a Realidade do Campo
A **Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações (Fenattel)**, representada por seu Secretário Geral, **Rogério Soares**, trouxe o relato do chão de fábrica — ou, neste caso, do chão da rua.
* **Estatísticas de Acidentes:** Soares apresentou um panorama sombrio dos acidentes de trabalho no setor. Ele destacou que o número de quedas de altura e choques elétricos durante a instalação de fibras e manutenção de cabos cresceu proporcionalmente à expansão do FTTH no país.
* **O Uso de Drones e Novas Tecnologias:** Curiosamente, Soares não foi apenas um crítico, mas um proponente de soluções. Ele sugeriu que as empresas precisam ser obrigadas a investir em tecnologias que reduzam o risco humano, como o uso de drones para inspeção de redes em alturas elevadas ou em situações de risco elétrico iminente. Ele também defendeu a proibição de técnicas que expõem os trabalhadores a riscos desnecessários, como a escalada de postes sem cinturão de segurança de duplo talabarte, prática que, segundo ele, ainda ocorre devido à pressão por tempo.
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## 6. A Visão Empresarial: Investimento, Vandalismo e Necessidade de Agilidade
O setor empresarial, representado por **Diogo Della Torres (Conexis)**, **Vivien Mello Suruagy (Feninfra)** e **Basílio Perez (Abrint)**, apresentou a contraparte essencial do ecossistema: sem investimento privado e sem regras claras de negócio, a infraestrutura não se expande e o Brasil fica para trás na economia digital.
### 6.1 Diogo Della Torres (Conexis) e os Desafios Macro da Infraestrutura
**Diogo Della Torres**, Coordenador de Infraestrutura da **Conexis** (o sindicato que representa as grandes operadoras como Claro, Vivo, TIM e Oi), focou sua fala na magnitude dos desafios logísticos e financeiros de manter uma infraestrutura continental como a brasileira.
* **O Custo do Vandalismo e do Furto:** Della Torres endossou as preocupações da Anatel, trazendo números expressivos. O setor perde bilhões de reais anualmente com o furto de baterias de estações rádio base (ERBs), de cabos de cobre e o vandalismo puro em redes de fibra óptica. Ele explicou que, muitas vezes, a "falta de integridade" da rede citada na audiência não é fruto de má instalação ou falta de manutenção, mas sim de ações criminosas.
* **Interrupções por Terceiros:** Outro ponto crucial levantado pela Conexis foi o alto índice de rompimento de fibras ópticas causado por obras públicas e privadas (corte de ruas, escavações). Della Torres argumentou que a integridade da rede necessita de uma integração maior com os municípios. O Brasil precisa de um cadastro único de infraestrutura subterrânea e aérea para que pedreiros e operários de máquinas não cortem os cabos que garantem o funcionamento de hospitais e escolas.
* **Segurança Privada e Proteção:** O representante da Conexis sugeriu que políticas públicas de segurança precisam tratar o vandalismo em redes de telecomunicações como um crime contra a infraestrutura crítica do país, com penas mais severas.
### 6.2 Vivien Mello Suruagy (Feninfra) e a Defesa do Setor de Instalação
A **Feninfra** (Federação de Call Center e Infraestrutura de Telecomunicações) ocupa uma posição singular: representa as empresas que *instalam* as redes e operam os call centers. Sua presidente, **Vivien Mello Suruagy**, teve o papel de responder indiretamente às críticas trabalhistas enquanto defendia o modelo de negócio de suas associadas.
* **Qualidade e Padronização:** Suruagy rebateu a ideia de que o setor de instalação promove sistematicamente a precariedade. Ela destacou que as empresas associadas à Feninfra investem pesadamente em treinamento e certificação de técnicos, incluindo cursos de NR-10 (segurança em eletricidade) e NR-35 (trabalho em altura).
* **O Custo da Mão de Obra e os Contratos:** A presidente da Feninfra trouxe à tona a compressão de margens. As grandes operadoras têm um poder de barganha imenso na hora de contratar os serviços de instalação. Esse repasse de pressão por custos menores acaba afetando a capacidade das prestadoras de pagar salários mais altos. Ela defendeu um pacto federativo onde as operadoras, as prestadoras de serviço e os trabalhadores definam um piso sustentável.
* **Inovação na Instalação:** Vivien Suruagy mencionou as novas técnicas de *micro-cabling* (cabos micro-ventilados) e o uso de *closures* de emenda de menor impacto, que tornam o trabalho do instalador mais rápido e menos suscetível a erros, melhorando diretamente a integridade futura da rede.
### 6.3 Basílio Perez (Abrint) e a Revolução dos Provedores Regionais
O Vice-Presidente da **Abrint** (Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações), **Basílio Perez**, trouxe a perspectiva do mercado de alta competição e inovação que transformou o Brasil no país com a maior taxa de crescimento de fibra óptica no mundo.
* **A Expansão para o Interior:** Perez destacou que os provedores regionais (ISPs) são os grandes responsáveis por levar a banda larga para as pequenas cidades e áreas rurais do Brasil, cumprindo um papel de universalização que o Estado e as grandes operadoras não conseguiram suprir sozinhos.
* **A Disputa por Passivos:** O grande gargalo apontado pela Abrint é o acesso aos postes. Perez explicou que, em muitas localidades, a concessionária de energia dificulta o acesso dos pequenos provedores aos postes sob a alegação de falta de capacidade estrutural, forçando os ISPs a criarem infraestruturas paralelas ou a operar na informalidade. Ele pediu uma intervenção mais enérgica conjunta da Anatel e da Aneel para garantir o acesso justo, rápido e a custo justo aos postes de energia.
* **A Regularidade dos Provedores:** Basílio Perez defendeu que a "integridade" passa também pela regularidade fiscal e jurídica das empresas. A Abrint tem trabalhado para profissionalizar o setor, combatendo os chamados "piratas", provedores informais que instalam redes sem nenhum padrão técnico, comprometendo a segurança e a qualidade do serviço no município.
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## 7. Pontos de Convergência: Onde Reguladores, Trabalhadores e Empresas se Encontraram
Apesar das visões diametralmente opostas sobre a culpabilidade pela precarização da rede ou pelas falhas estruturais, a audiência presidida pelo deputado Bohn Gass revelou surpreendentes e cruciais pontos de convergência entre os atores.
### 7.1 A Necessidade de um Cadastro Único de Infraestrutura
A principal unanimidade da mesa foi a urgência da implantação de um sistema de cadastro único de infraestrutura. Atualmente, as operadoras de telecom não sabem exatamente onde estão os dutos subterrâneos das empresas de gás, as redes de água ou os cabos de energia. Essa falta de inteligência georreferenciada resulta em acidentes de trabalho, rompimentos de cabos e desperdício de recursos. A integração de dados entre Anatel, Aneel, municípios e outras concessionárias de serviços públicos foi defendida por Baigorri (Anatel), Della Torres (Conexis) e Basílio Perez (Abrint).
### 7.2 Responsabilidade Solidária e Condições de Trabalho
Embora a Conexis e a Feninfra tenham defendido o modelo de terceirização, houve uma concordância tácita de que a cascata de subcontratação precisa ter limites. A ideia de que a rede é tão crítica quanto a energia elétrica começou a gerar a percepção de que a profissionalização do instalador de fibra deve ser tratada com o mesmo rigor que a do eletricista das concessionárias de energia.
### 7.3 Combate ao Vandalismo e aos Furtos
As centrais sindicais e as empresas concordaram que o furto e o vandalismo prejudicam a todos. Os trabalhadores perdem porque são enviados para áreas de risco ou perigosa para realizar reparos sob ameaça, e as empresas perdem em ativos e consumidores. O apelo por uma legislação mais dura e por uma ação integrada das polícias civil e federal foi uníssono.
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## 8. Pontos de Divergência: As Fricções que Ainda Precisam ser Superadas
O tempo da audiência não seria suficiente para resolver décadas de atritos regulatórios. As divergências apontadas durante a audiência mostram o longo caminho que o Congresso Nacional ainda terá que trilhar na elaboração de um novo Marco Legal de Telecomunicações ou de leis específicas sobre infraestrutura.
### 8.1 O Acesso aos Postes: O Conflito Anatel x Aneel
Embora os representantes de ambas as agências tenham mantido uma postura diplomática, a divergência estrutural ficou clara. A Anatel pressiona por acesso rápido e barato aos postes para garantir a expansão da fibra e a universalização. A Aneel, por sua vez, precisa garantir que os postes não caiam e que não haja riscos elétricos para a população.
A definição do que é "capacidade ociosa" de um poste é uma guerra jurídica e técnica. As empresas de energia exigem laudos estruturais caros para permitir a fixação de novos cabos; as empresas de telecom consideram isso uma barreira artificial criada para dificultar a concorrência (já que muitas distribuidoras de energia pertencem aos mesmos grupos econômicos de grandes operadoras de telecom no Brasil, como é o caso histórico de alguns grupos).
### 8.2 A Cadeia de Responsabilidade sobre Acidentes de Trabalho
Aqui reside a maior divergência entre os blocos. Para o deputado Bohn Gass, UGT, Contcop e Fenattel, a responsabilidade por um técnico que cai de um poste deve recair diretamente sobre a operadora que contratou o serviço em último grau (a marca exposta ao consumidor final).
Para a Conexis e a Feninfra, o mercado atua dentro da legalidade das terceirizações. Defenderam que a responsabilização deve recair sobre o empregador direto (a empresa prestadora de serviço), sob o argumento de que as operadoras não podem gerir o dia a dia operacional e de segurança de milhares de empresas terceiras no país.
### 8.3 O Papel dos Municípios na Integridade das Redes
Enquanto a Abrint cobrou agilidade das agências reguladoras, e a Anatel apontou a falta de poder de polícia sobre os municípios, a ausência de prefeitos ou representantes de associações de municípios na mesa foi uma lacuna sentida. O caos urbano das redes de telecomunicações é, em grande parte, resultado da falta de fiscalização das prefeituras, que permitem a instalação irregular, o desrespeito aos planos diretores e a proliferação de redes clandestinas em favelas e periferias.
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## 9. Análise Política e Regulatória: O Que Esta Audiência Representa?
A audiência da Comissão de Trabalho de 19 de maio de 2026 entrará para a história das telecomunicações brasileiras como um marco na mudança de paradigma. Durante muito tempo, o debate regulatório focou quase exclusivamente na saúde financeira do setor e na quantidade de acessos à banda larga. A qualidade intrínseca do acesso e as condições sob as quais esse acesso é fisicamente construído eram tratadas como externalidades.
O **Requerimento 22/2026** do deputado Bohn Gass conseguiu trazer para o centro de Brasília a realidade do "Brasil profundo". O técnico de telecomunicações se tornou, nas últimas duas décadas, um profissional invisível. Quando a internet falha, o consumidor cobra a Anatel e a operadora. Quando o posto cai, o cidadão cobra a prefeitura. Raramente se discute o estado em que se encontra a infraestrutura física do país.
Para os profissionais de telecomunicações, reguladores, advogados e gestores públicos que compõem a audiência do *Transmitter*, esta audiência sinaliza mudanças práticas iminentes:
1. **Endurecimento das Normas de Segurança do Trabalho:** É altamente provável que o Ministério do Trabalho e Emprego, em conjunto com a Anatel, edite portarias mais rígidas exigindo comprovação de treinamento e EPIs para execução de serviços em redes. Empresas que não comprovarem o cumprimento poderão sofrer sanções administrativas que afetarão suas licenças de operação.
2. **Revisão do Marco Legal do Setor Elétrico para Compartilhamento:** O Congresso deverá retomar a discussão sobre a obrigação das concessionárias de energia cederem espaço em seus postes de forma mais célere. Isso pode envolver a criação de um sistema nacional de "reserva de vagas" em postos de forma digital, acabando com a burocracia cartorial que atrasa a expansão dos provedores.
3. **Responsabilização Solidária em Pauta:** O tema da responsabilidade solidária das operadoras principais em casos de acidentes de trabalho envolvendo terceirizados ganhou força política. Projetos de lei que já tramitam na Câmara devem ganhar velocidade, o que exigirá uma revisão profunda dos contratos de prestação de serviços B2B no setor, com cláusulas de *compliance* trabalhista muito mais rigorosas.
4. **Tecnologias de Inspeção como Exigência:** As declarações conjuntas apontam para um futuro onde a inspeção de redes não dependerá apenas do olho humano. A exigência regulatória (e a pressão dos trabalhadores) por investimentos em drones, inteligência artificial para prever falhas estruturais em postes, e automação na instalação de cabos tende a crescer exponencialmente.
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## 10. Perspectivas e Próximos Passos: O Legado do Debate
Ao final da audiência, o deputado Bohn Gass teve o trabalho de sintetizar as proposições apresentadas. O que fica como legado deste debate histórico?
Primeiramente, a conscientização de que a "integridade" de uma rede não é um conceito puramente técnico de engenharia de telecomunicações. A integridade é sistêmica. Começa na elaboração do projeto regulatório que permite o acesso ao poste, passa pela contratação justa da empresa integradora, pela capacitação e proteção do trabalhador que sobe no cinto de segurança, e termina na durabilidade do serviço prestado ao cidadão que trabalha, estuda e se informa pela internet.
### Propostas Encaminhadas
Durante a sessão, diversas propostas foram formalizadas para deliberação da Comissão de Trabalho e encaminhamento aos órgãos competentes:
* **Convocação de uma Audiência Conjunta:** Foi sugerido que a próxima etapa envolva uma audiência conjunta entre a Comissão de Trabalho, a Comissão de Ciência e Tecnologia e a Comissão de Minas e Energia, para que a discussão envolva diretamente os presidentes de distribuidoras de energia e os municípios.
* **Criação do Selo de Integridade de Instalação:** A Feninfra propôs a criação de um selo regulatório, emitido após auditoria independente, que certifique que as empresas prestadoras de serviço de campo cumprem 100% das normas de segurança e treinamento. Este selo poderia ser um diferencial competitivo nas licitações das grandes operadoras.
* **Piso Salarial da Categoria:** As centrais sindicais entregaram um documento formalizando a exigência de que o governo federal convoque uma mesa de negociação para estabelecer um piso salarial nacional unificado para os técnicos de manutenção e instalação de redes de telecomunicações, acabando com a disparidade salarial entre as regiões do país e entre as diferentes operadoras.
* **Revisão da Legislação Penal sobre Vandalismo:** A Conexis entregou um anteprojeto de lei que classifica o vandalismo em infraestrutura crítica de telecomunicações como crime hediondo quando resulta em interrupção de serviços de emergência ou de saúde pública.
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## 11. Conclusão: A Verdadeira Conexão
A audiência pública da Comissão de Trabalho realizada no dia 19 de maio de 2026 foi muito mais do que um evento protocolar em Brasília. Foi um raio-x das mazelas e dos triunfos da infraestrutura brasileira.
De um lado, temos um setor que revolucionou a conectividade no país, liderando a transição do cobre para a fibra óptica e implementando o 5G em tempo recorde, gerando empregos e movimentando a economia. De outro, temos a conta humana e estrutural dessa expansão acelerada: postes que cedem ao peso do desplanejamento, fios que se arrebentam ao primeiro vento forte e, o mais grave, vidas humanas ceifadas ou irreversivelmente alteradas por acidentes que poderiam ter sido evitados com melhores práticas de trabalho e regulamentação.
As colocações feitas por **Carlos Manuel Baigorri (Anatel)** e **Pedro Mello Lombardi (Aneel)** demonstraram que os órgãos reguladores estão cientes do tamanho do problema, mas têm as mãos atadas por limites de jurisdição. As falas apaixonadas de **Ricardo Patah (UGT)**, **José Roberto Silva (Contcop)** e **Rogério Soares (Fenattel)** serviram como um lembrete de que por trás de cada megabyte de dados trafegado, existe uma pessoa subindo em um poste de concreto e aço.
Por sua vez, as exposições de **Diogo Della Torres (Conexis)**, **Vivien Mello Suruagy (Feninfra)** e **Basílio Perez (Abrint)** evidenciaram que a indústria não é um mal necessário, mas o motor propulsor da modernidade no Brasil, e que as soluções exigem parceria público-privada, segurança jurídica e inovação tecnológica.
O deputado **Bohn Gass** conseguiu, com o REQ 22/2026, costurar esses mundos díspares em um mesmo plenário. Agora, o desafio se move do Plenário 12 do Anexo II para as mesas de negociação, para os canteiros de obras e para as salas de votação. A verdadeira integridade das redes de telecomunicações brasileiras só será alcançada no dia em que a velocidade da conexão for acompanhada pela velocidade da responsabilidade social, da segurança técnica e da valorização daqueles que constroem, dia após dia, o esqueleto digital do Brasil.
## 12. O Panorama Internacional: Como o Brasil se Compara em Regulação e Infraestrutura
Para que o debate na Comissão de Trabalho ganhe sua real dimensão, é fundamental analisar como outras nações lidam com o choque entre expansão de infraestrutura, compartilhamento de passivos e proteção ao trabalhador. O modelo brasileiro de ocupação dos espaços urbanos é, por natureza, mais caótico do que o de países europeus ou asiáticos, mas existem lições regulatórias claras que podem ser importadas.
### 12.1 O Modelo dos Estados Unidos e a Regra "One Touch Make Ready" (OTMR)
Nos Estados Unidos, a Federal Communications Commission (FCC) enfrentou por décadas o mesmo impasse que a Anatel e a Aneel debatem hoje: a recusa das concessionárias de energia em ceder espaço nos postes de forma ágil.
A grande virada regulatória americana ocorreu com a implementação da regra **"One Touch Make Ready" (OTMR)**, ou "Toque Único de Preparação". Antes da OTMR, quando uma operadora de telecomunicações ou um provedor de internet queria instalar um cabo, ela precisava solicitar à dona do poste que fizesse os ajustes. A dona do poste enviava sua equipe, depois a empresa de cabo coaxial fazia o seu ajuste, e assim por diante. O processo levava meses e gerava filas insuportáveis.
Com a OTMR, a FCC permitiu que uma única empresa certificada (a "attaché") fizesse todas as adequações no poste de uma só vez, movendo os cabos dos concorrentes de forma segura para abrir espaço para o novo cabo, bastando notificar a dona do poste. Isso reduziu o tempo de instalação de meses para dias.
A aplicação do modelo OTMR no Brasil foi defendida nas entrelinhas pelo representante da **Abrint**, Basílio Perez. Provedores regionais brasileiros frequentemente esbarram em processos burocráticos infinitos nas concessionárias de energia para simplesmente "fazer o deslocamento" de um cabo em um poste que já suporta a carga, mas está desorganizado fisicamente. A implementação de uma regulação inspirada no OTMR no Brasil exigiria, no entanto, um treinamento técnico rígido — o que reconecta o debate à necessidade de certificação profissional levantada pelos sindicatos.
### 12.2 O "Gigabit Infrastructure Act" Europeu
Na União Europeia, a Comissão Europeia tem debatido o **Gigabit Infrastructure Act**, focado em reduzir em até 50% os custos de implantação de redes de fibra óptica. A principal diretriz europeia é a de que toda nova obra civil (abertura de valas, pavimentação, instalação de tubulações de água ou gás) deve, obrigatoriamente, incluir a passagem de dutos vazios (microdutos) para fibras ópticas.
No Brasil, o representante da **Conexis**, Diogo Della Torres, abordou o rompimento de fibras por obras de terceiros. Se o Brasil adotasse uma legislação similar à europeia, com a obrigatoriedade de passagem de dutos em loteamentos e obras rodoviárias, o custo de expansão despencaria e os acidentes com escavações seriam mitigados.
### 12.3 A Questão Trabalhista Global: A Transição de Risco
Do ponto de vista laboral, países como a Austrália, com sua fracassada iniciativa inicial do *National Broadband Network* (NBN) — que depois migrou para um modelo misto —, também sofreram com o problema da terceirização em cascata. O que diferencia o Brasil dos países desenvolvidos é a letalidade dos acidentes. A intersecção entre redes de energia e telecomunicações em países com estações bem definidas e climas temperados gera muito menos risco de morte do que em um país tropical, onde tempestades severas, ventos fortes e a própria arquitetura das redes aéreas expõem o trabalhador brasileiro a um risco de choque elétrico e queda desproporcionalmente maior.
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## 13. O Impacto Econômico e Social: O Custo Real da "Falta de Integridade"
O debate promovido pelo deputado Bohn Gass não é apenas uma questão técnica ou trabalhista; é, fundamentalmente, um debate sobre o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. A precariedade da infraestrutura física de telecomunicações atua como um freio invisível à economia.
### 13.1 A Economia Digital e a Confiabilidade do Serviço
Segundo estimativas recentes da indústria, a economia digital já responde por mais de 20% do crescimento do PIB em países emergentes. No entanto, a volatilidade das redes brasileiras gera um "custo Brasil" sistêmico. Quando um *closure* óptico é vandalizado ou um poste cai, não é apenas o serviço de *streaming* de entretenimento que é interrompido.
Pequenas e médias empresas (PMEs) que dependem de maquininhas de cartão de crédito, sistemas de gestão em nuvem (ERPs) e atendimento via aplicativos param de faturar. Em cidades de médio porte onde a fibra óptica de um provedor regional (ISP) é a única via de conexão com o mundo, a queda da rede pode paralisar prefeituras, cartórios e até o sistema de semáforos inteligentes. A falta de "resiliência" da rede — a capacidade de se recuperar rapidamente de falhas — está diretamente ligada à má qualidade da instalação original, fruto da pressão por custos e da precarização do trabalho.
### 13.2 O Impacto na Saúde e na Educação Pública
Durante a pandemia e no período pós-pandemia, o Brasil avançou na telessaúde e na educação a distância de forma muito rápida. Contudo, a sustentabilidade dessas políticas públicas depende de uma integridade de rede que o país ainda não alcançou.
Um hospital público que realiza cirurgias assistidas por robôs controlados remotamente, ou consultórios de periferia que transmitem exames em tempo real para especialistas em capitais, não podem arcar com o risco de que um cabo de fibra seja rompido por uma escavadeira em uma obra privada irregular. A regulação falha, portanto, não é apenas um problema do consumidor final, mas um entrave à modernização do Estado e à universalização de serviços básicos.
### 13.3 Dados Estatísticos da Precariedade
Para dimensionar o que foi debatido no Plenário 12, é preciso olhar para os números que nortearam as falas dos envolvidos:
* **Vandalismo:** O setor de telecomunicações relatou perdas superiores a R$ 2 bilhões por ano apenas com furtos de baterias, cabos de cobre retidos e vandalismo em equipamentos de rua (como splitters e *closures*).
* **Acidentes Fatais:** O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e a Fenattel apontaram um crescimento preocupante de óbitos por eletrocussão e queda de altura. O Brasil registra centenas de acidentes anuais na manutenção de redes, muitos deles sequer notificados oficialmente devido à informalidade das subcontratações.
* **Descarte Inadequado:** A ausência de integridade gera lixo tecnológico. Fios de cobre queimados para extração de metal, cabos de fibra rompidos e equipamentos inutilizados compõem um passivo ambiental gigantesco que as empresas e o poder público lidam de forma reativa.
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## 14. A Voz do Consumidor: O Elo Faltante na Cadeia
Um ponto que ficou evidente durante a audiência, mas que não teve uma representação direta na mesa, foi o impacto sob a ótica do consumidor final. O brasileiro é um dos povos que mais consome dados móveis e internet fixa no mundo, mas também é um dos que mais sofre com a queda na qualidade do serviço.
As agências reguladoras, através do *Indicador de Qualidade do Serviço (IQS)* da Anatel, tentam medir a satisfação do cliente por meio de métricas técnicas como velocidade contratada versus entregue, e latência. No entanto, o consumidor mede a qualidade pela "continuidade" do serviço.
A "bainha de gato", os cabos pendurados e as emendas mal feitas na rua resultam no fenômeno que os técnicos chamam de "sinal oscilante". O usuário perde a conexão toda vez que venta forte ou chove. Esse atrito gera um volume descomunal de reclamações nos canais de atendimento das operadoras (Anatel, Procons e plataformas de defesa do consumidor).
O custo de manutenção corretiva (*truck roll* — o envio de um técnico à rua para consertar um problema que não deveria existir) é altíssimo. Esse custo é repassado para o usuário final na forma de tarifas mais caras ou de pacotes de dados com limites de franquia. A profissionalização da instalação e a limpeza dos postes, como defendido na audiência, representariam uma queda drástica nesse custo de manutenção corretiva, beneficiando diretamente o bolso do consumidor.
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## 15. Cronologia de uma Crise Anunciada: O Caminho até a Audiência de 2026
O debate histórico de 19 de maio de 2026 não ocorreu no vácuo. Ele foi o resultado de uma série de tensões acumuladas ao longo de anos. A compreensão dessa linha do tempo é essencial para entender as posições irredutíveis de alguns atores:
* **1998 (Privatização do Sistema Telebrás):** O início da expansão descoordenada. As novas concessionárias recebem o monopólio de terminação fixa, mas a infraestrutura de cobre existente começa a ser compartilhada de forma precária.
* **Anos 2000 (Explosão da Banda Larga e Cabos Coaxiais):** A TV a cabo e a internet via cable modem introduzem uma nova camada de fios nos postes urbanos, sem um sistema de cadastro integrado entre municípios e empresas.
* **2012-2014 (O Boom das Redes de Fibra e os ISPs):** Milhares de provedores regionais surgem para competir com as grandes operadoras. A disputa por espaço físico em postes se torna uma guerra diária. Municípios pequenos assistem à explosão visual sem capacidade de fiscalização.
* **2017 (Reforma Trabalhista e Terceirização):** A aprovação da legislação amplia a possibilidade de terceirização para a atividade-fim. O setor de instalação de fibras adota massivamente o modelo de integração, multiplicando o número de acidentes de trabalho por conta da diluição da responsabilidade.
* **2020 (Resolução Anatel 726/2020):** A tentativa de organizar o caos. A criação do "Pole Guardião" foi um marco, mas estabeleceu prazos difíceis de serem cumpridos, resultando em multas bilionárias que geraram disputas judiciais entre Anatel e operadoras.
* **2022-2023 (O Leilão do 5G e a Expansão do FTTH):** O Brasil se torna o líder global em crescimento de redes de fibra óptica (FTTH). A demanda por técnicos de instalação supera em muito a oferta de mão de obra qualificada, agravando os riscos laborais e a queda na qualidade do serviço.
* **Início de 2026 (O Tensão Regulatória):** A Anatel aumenta a pressão sobre as distribuidoras de energia para liberarem os postes. A Aneel retribui exigindo laudos de engenharia caros. Os sindicatos realizam protestos em vários estados contra o aumento de óbitos em campo.
* **19 de Maio de 2026 (Audiência REQ 22/2026):** A Comissão de Trabalho torna-se o palco onde todas essas insatisfações convergem, resultando no debate que obrigou Anatel, Aneel, indústria e trabalhadores a sentarem na mesma mesa.
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## 16. O Futuro da Regulação Convergente: Inteligência Artificial e Automação
Uma das perspectivas mais críticas que ficaram claras durante as falas dos reguladores é que a inspeção de infraestrutura precisa saltar do modelo analógico para o digital. A fiscalização humana atual é insuficiente para monitorar os milhões de postes espalhados pela extensão continental do Brasil.
### 16.1 A Inspeção via Drones e Georreferenciamento
O representante da Fenattel, Rogério Soares, pontuou a necessidade de uso de drones. Indo além, a regulação futura tende a exigir que as próprias empresas utilizem drones equipados com sensores LiDAR (Light Detection and Ranging) e câmeras de alta resolução para mapear os postes.
Essa tecnologia permite gerar "gêmeos digitais" (digital twins) das redes urbanas. Com inteligência artificial, é possível analisar milhões de imagens e identificar automaticamente onde um cabo está solto, onde o peso está acima do limite permitido ou qual poste está prestes a ceder antes mesmo de uma tempestade ocorrer. A obrigatoriedade do envio desses dados georreferenciados para um repositório conjunto da Anatel e da Aneel transformaria a regulação de reativa em preventiva.
### 16.2 Automação no Último Quilômetro
Outra fronteira discutida nos bastidores do evento é a redução da necessidade de intervenção humana em situações de risco. A expansão das redes *FTTR* (Fiber to the Room) e o avanço do *Wi-Fi 7* exigem menos obras civis pesadas.
Além disso, tecnologias como o *micro-cabling* (mencionado por Vivien Suruagy) e o uso de *closures* de emenda óptica pré-conectorizadas permitem que o técnico gaste menos tempo suspenso no poste, reduzindo a janela de exposição ao risco de queda e choque elétrico. A regulação do futuro deverá não apenas exigir a segurança, mas **incentivar economicamente** a adoção de tecnologias que minimizem o trabalho em altura.
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## 17. O Novo Pacto Federativo e Regulatório: Considerações Finais Expandidas
A audiência pública proposta pelo deputado Bohn Gass expôs a urgência de um **Novo Pacto Regulatório** no Brasil. O modelo atual de "caça às bruxas", onde Anatel culpa as prefeituras, as prefeituras culpam a Aneel, a Aneel culpa as operadoras, e as operadoras culpam os prestadores de serviço terceirizados, não sustenta a ambição digital do país.
A integridade das redes de telecomunicações brasileiras exige uma abordagem holística. A "bainha de gato" não é apenas um problema estético; é o sintoma de uma regulação fragmentada e de um modelo de negócios que externaliza seus custos para o trabalhador e para a paisagem urbana.
O que o Plenário 12 testemunhou em 19 de maio de 2026 foi o início da maturidade do setor. Assim como a indústria automobilística teve de aceitar que a segurança não era um obstáculo ao lucro, mas sim um requisito para a sustentabilidade do negócio, o setor de telecomunicações brasileiro está sendo obrigado a encarar que a velocidade da expansão não pode ser superior à qualidade da execução.
A implementação de cadastros únicos de infraestrutura (integrando gás, energia, água e dados), a criação de certificações profissionais invioláveis para trabalhadores em altura e eletricidade, e a responsabilização solidária das operadoras principais pelos acidentes em sua cadeia produtiva não são mais pautas corporativas ou ideológicas. São imperativos de Estado.
O legado do REQ 22/2026 será medido não pelos documentos assinados no dia, mas pelos próximos passos concretos: se as agências reguladoras serão dotadas de ferramentas de inteligência artificial para mapear o risco antes do acidente; se o Congresso avançará no Marco Legal para endurecer penas contra vandalismo em infraestrutura crítica; e, sobretudo, se o técnico que sobe no poste amanhã terá um cinto de segurança duplo, um treinamento adequado e a dignidade de saber que sua vida vale mais do que a meta de quilômetros de fibra instalados no dia. O Brasil finalmente começou a discutir a inteligência do seu futuro digital, e o ponto de partida, como comprovado na Câmara dos Deputados, é garantir a integridade física das redes que sustentam esse futuro, começando pela base: o ser humano.
